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Críticas

Cineplayers

O encontro do bastardo Tarantino com a essência do Cinema.

9,5
O campo nevado é rasgado por uma carruagem que carrega um cocheiro, um caçador de recompensas e a condenada que ele transporta. Ele é incomum no seu ofício, pois insiste em "dar trabalho ao carrasco", entregando sua carga viva; ela também, mas só saberemos disso muito à frente da narrativa, quando todos os conflitos e personagens tiverem se apresentado e a trama do oitavo opus de Quentin Tarantino nos tiver tragado. Não que a conquista do espectador não aconteça antes disso, bem antes... Na verdade, ainda durante essa fuga da nevasca, onde serão acrescentados outro dois personagens - mais um caçador de recompensas, esse convencional, e suas três capturas devidamente mortas, e o recém eleito novo xerife da cidade para onde todos seguem, ambos perdidos e desesperados no frio - a narrativa já estará em construção, delicada e cheia de nuances que explodirão numa parada obrigatória em um pulgueiro de beira de estrada, onde já estará outro grupo de homens. Quem são esses 8?

Durante bom tempo Tarantino se encarrega de desenhar cada uma dessas personalidades, num belíssimo trabalho de ourives narrativo que dá profundidade e camadas a cada um deles. Mestre de diálogos afiados, o cineasta vinha de um trabalho completamente bem sucedido sob todos os aspectos (Django Livre), mas que não tem em mim um entusiasta. Na ocasião recém enlutado pela perda de sua colaboradora de sempre, a genial montadora Sally Menke, Tarantino entregou um trabalho sobretudo gordo, repleto de excessos e erros de leitura, mas que agradou público, crítica e premiações. Três anos depois, o produto parece e é em tudo mais bem acabado, narrativamente, conceitualmente e tecnicamente. 

Da parte técnica, Tarantino tem que continuar agradecendo a luz de Robert Richardson, que vem fazendo bela parceria com ele desde Bastardos Inglórios e aqui tem a seu dispor câmeras que captaram o filme num belo 70 MM, deixando tudo muito mais grandiloquente e suntuoso, e a ajuda se completa com a extraordinária partitura composta por Ennio Morricone, que retorna ao cinema em momento de beleza sublime. Direção de arte e figurino fecham o pacote de beleza óbvia, e chegamos finalmente ao trabalho de Fred Raskin, assistente de Menke, que sentou na cadeira oficial desde que a mesma se foi. E parece ter ficado claro que a montagem de Django foi prejudicada pelo stress e pela correria, já que entre o fim das filmagens e o lançamento do mesmo foram apenas 5 meses. Aqui, o ritmo é intenso e o filme tem poucos deslizes de edição, além dela mesma ser a responsável pela atenção do filme nunca cair, já que Tarantino sempre está atirando para inúmeras direções ao mesmo tempo.

Narrativamente talvez seja o filme mais seco do diretor, enfim liberto da prisão que as tradicionais frases de efeito vez por outra sufocavam seus roteiros. Dessa vez, ele não prende e parece correr livre rumo a dar palheta de cores variadas a cada um dos muitos personagens e situa-los em harmonia com uma trama rigorosa de vingança (sempre ela...) e enganos, todos acentuados por um elenco primordial, onde fica até difícil destacar alguém, mas cujo brilho de Samuel L. Jackson, Tim Roth e Jennifer Jason Leigh é inegável, mas com talento o suficiente para não ofuscar ninguém e trabalhar como a equipe excelente que é (que ainda inclui Bruce Dern, Michael Madsen, Walton Goggins, Demian Bichir e outras surpresas).

Quanto ao conceitualmente... O que dizer? Em particular, acho que nunca antes tinha visto Tarantino tão interessado em ir além do seu umbigo. Nada contra um cineasta que queira apenas contar uma (bela) história, e Tarantino parecia descansado nesse posto como um intérprete de imagens. O barco começou a virar em Bastardos e aqui se firma, apontando para a bela direção que é a sinergia entre contar uma história e observar também o cinema do alto, e contribuir para a disseminação do seu cerne: o próprio ato de contar uma história, vejam só a ironia. Reunindo um séquito de "repentistas" de mão cheia, Tarantino desenrola seu novelo de homenagem a Sétima Arte, celebrando o seu artesanato ao mesmo tempo que insere jogos de espelhos invertidos na sua trama, onde ninguém reflete, mas todos repetem o ofício de contar da maneira mais sedutora possível a bela história de suas vidas - e de suas mortes.

Comentários (27)

Alexandre Carlos Aguiar | sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016 - 12:53

Tarantino é Tarantino. Único e exclusivo. Seus filmes deixam sempre aquele rastro de que podia mais, porém se fizer fica como excesso.

Rodrigo Giulianno | sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016 - 13:04

Acho que Tarantino deveria fazer um filme de terror...influência eles tem para isso

Luiz Fernando de Freitas | sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016 - 16:08

Ele fez A Prova de Morte que é uma homenagem aos slashers e road movies dos anos 70 e 80...

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