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Oficial e o Espião, O

(J'accuse, 2019)
7,9
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Críticas

Cineplayers

A verdade clássica

8,0

Na panorama que abre o novo filme de Roman Polanski, temos a visão amplificada de como o exército francês se envolveu e elevou o caso Dreyfus ao status histórico que o notabilizou. Diversos pelotões perfeitamente alinhados para uma cerimônia de desonra a um dito traidor espião, tratado com cuidado cirúrgico tanto pela instituição federal quanto pelo cinema em si, e o palco está pronto para que adentremos a uma réplica humanizada de eventos privados que se tornaram públicos por um manancial de erros - o olhar na obra está intrinsecamente ligado à aparência sobre a veracidade, muito mais do que sobre a própria.

Em uma cena capital, o oficial Picquart encontra pela primeira vez o que viria ser seu informante no futuro num lugar inusitado, porém acima de qualquer suspeita: um museu. Entre as ordens dadas, o breve diálogo sobre a presunção do valor artístico entre obras de arte deixa nas entrelinhas a discussão que perpassa uma obra sobre enganos - a autenticidade aparente basta em tempos onde a verdade é um artigo tão banalizado e fora de moda, seja há dois séculos atrás ou hoje.

Polanski, na visão de uns, criou uma narrativa para debochar do estado das coisas, se vendendo no lugar da vítima-chave narrativa. Nada diretamente aponta para teorias de ordens conspiratórias que não atentem para a subjetividade de quem julga; O Oficial e o Espião é, a priori, um retrato clássico narrativo muito pertinente aos debates contemporâneos sobre o valor reles da verdade em tempos onde a mentira virou chavão - é 'fake news' que chama? Mais cruel que tramas inventadas por meios de aplicativos de conversa, o caso Dreyfus expõe despreparo técnico unido a dois sentimentos que já batizaram obra: orgulho e preconceito. 

Como exímio contador de histórias, Polanski acerta ao olhar para o caso sob o ponto de vista posterior aos acontecimentos que levam à prisão de Dreyfus e ao centralizar o espectador como testemunha ocular/detetive particular de um quadro clássico investigativo sob os pontos de vista histórico e cinematográfico. Eles tanto reproduzem elementos do cinema primordial, como as lembranças-flashback que vêm e vão como névoa imagética, quanto agiliza um roteiro ao mesmo tempo tão absolutamente detalhado, com uma profusão de personagens e situações nunca confusas e/ou atropeladas, e profundamente conciso em seu foco temático.

Com um corpo de elenco imerso no tempo retratado e na moderna discussão sobre a displicência com que os fatos são tratados em detrimento à aparência, O Oficial e o Espião só peca pelo excesso. Com uma malha de detalhamento que inclui um necessário número agigantado de personagens, o filme não consegue aprofundar tudo o que pontua, ainda que tente; o esforço é visível e louvável, porém, apesar do roteiro do próprio Polanski e do escritor Robert Harris (autor do romance onde se baseia o longa) ter uma estrutura impressionante de construção narrativa, esses detalhes citados arranham o resultado aos olhos mais exigentes; a montagem de Hervé de Luze amarra esse roteiro de maneira impressionante.

Ao se mobilizar para uma caça às bruxas interna e deixar reverberar publicamente um erro grosseiro e coletivo, o exército francês forneceu um dos equívocos mais evidentes do Direito no mundo, além de matéria-prima temática tão atual que só poderia ser reproduzida hoje por um cineasta que consegue passear com facilidade entre o melhor do universo tradicional, indo até uma discussão aprofundada em cada descaminho mostrado que a própria roupagem característica do passado desaparece para realçar o presente.

Comentários (1)

Carlos Eduardo | quinta-feira, 12 de Março de 2020 - 23:38

O filme mais pessoal de Polanski depois de O Pianista e seu melhor depois de O Escritor Fantasma, mais uma parceria bem sucedida com Robert Harris que sabe como escrever thrillers políticos como ninguém hoje em dia, à exceção de Le Carré.

Luiz Fernando de Freitas | sexta-feira, 13 de Março de 2020 - 13:34

Não vi ainda, mas essa é a minha expectativa com relação ao filme também.

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