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Obsessão

(Greta, 2018)
6,4
Média
16 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um conto sobre medo e solidão

7,5

Quase quatro décadas após sua estreia com Angel - O Anjo da Vingança, o irlandês Neil Jordan tornou-se dono de um cinema muito particular, onde amor, política, sexualidade e o extraordinário frequentemente se misturam. É o caso de pequenos e grandes clássicos dos anos oitenta e noventa como A Companhia dos Lobos, Entrevista com o Vampiro e Traídos Pelo Desejo, bem como destaques dos anos 2000 como Café da Manhã em Plutão e a série Os Bórgias agrupam-se sob essa temática. E o suspense psicológico Obsessão acrescenta novas variações temáticas ao seu cinema mas ainda dialoga formalmente com os outros.

Pode-se pensar em Obsessão como mais um exemplar do hagsploitation, filão sensacionalista surgido por volta dos anos 60 com O Que Terá Acontecido com Baby Jane?, obra dirigida por Robert Aldrich com Bette Davis e Joan Crawford e popularizou mulheres maduras no papel de vilãs perturbadas. Visto por um subterfúgio para grandes estrelas terem uma sobrevida na carreira, Greta é um caso onde Jordan trabalha com Isabelle Huppert, prestigiada atriz do cinema europeu aclamada principalmente por seu trabalho em A Professora de Piano, de Michael Haneke.

O que vê-se então é uma leitura onde Jordan apropria-se do olhar estilístico violento desse tipo de filme para criar uma obra que essencialmente fala sobre solidão. Frances (Chloë Grace Moretz, de O Mau Exemplo de Cameron Post) perdeu a mãe e desde então tem um relacionamento difícil com o pai, saindo de Boston para New York para viver com a amiga Erica. Vivendo uma rotina alienante como garçonete de um restaurante chique, um dia encontra uma bolsa no metrô e vai devolver na casa de Greta Hideg, uma mulher solitária que, apesar de ser amistosa de início, Frances acaba descobrindo que a mulher é uma perseguidora obsessiva.

A temática dos perseguidores e stalkers recebe um tratamento particularmente enervante aqui, com Jordan não demorando a apresentar a verdadeira natureza pervertida da antagonista e os esforços progressivamente mais desesperados que empreende para se livrar do tormento. Jordan abusa de expôr Huppert em segundo ou terceiro plano, vista em grandes enquadramentos. Sonoramente, os pianos, discos de vinil, ligações de celular e afins fazem de Greta uma forte presença invisível: mesmo quando não está lá, sentimos que pode surgir a qualquer momento.

É fato que a preparação é mais interessante que o desenlace, o segundo tendo maior efeito dramático por conta da narrativa a conta-gotas que a antecede. O histórico psicótico de Greta é revirado e o filme concentra em seu segundo ato a dinâmica entre sequestradora e cativa, abusando de mostrar Chlöe Grace Moretz em closes sufocantes, próximos demais, onde testemunhamos seu confinamento físico, quando está literalmente amarrada, tanto quanto o emocional, quando vê-se em uma situação que não sabe como sair.

Também é importante comentar que como todo suspense psicológico estilizado, e por isso, exagerado, Obsessão depende um tanto de conveniências de roteiro, o que pode frustrar um tanto espectadores em busca de realismo. Para aqueles que buscam jornadas psicológicas, o filme é um prato cheio de mostrar uma mulher emocionalmente órfã sendo aterrorizada por uma figura materna predatória e dominante, que se recusa a ver outra mulher como um ser independente e sim como uma extensão passageira de si, já que não sabe como lidar com a solidão e para isso descarrega sua inabilidade afetiva e social em pessoas mais jovens e perdidas entre um estágio de vida e o próximo.

Na questão da entrega, o filme possui pouca violência explícita, sugerindo mais do que mostrando, focando ocasionalmente a escolha de enquadramentos no máximo do choque (como um demorado e angustiante plano-detalhe) e na maior parte do tempo escondendo através de paredes, corredores, molduras e móveis, seja recortando a imagem ou usando barreiras para o som, fazendo com que o macabro esteja na esquina. Desde o início, que terá elementos rimados com o final, a trilha sonora entre o harmônico e o distorcido e os pequenos momentos nos inserem no jogo de gato-e-rato que nos faz procurar pelo elemento aberrante que sairá do ordinário.

Se a questão materna é inédita no cinema de Jordan, é inegável a questão identitária, e nesse filme sobre espelhos limpos ou pervertidos de meias pessoas que tentam encontrar de maneiras construtivas ou tóxicas seu lugar no mundo, Obsessão é um filme que certamente pode inquietar com a sua fantasia tragicamente humana sobre o deslocamento físico e emocional do lugar idealizado e seus efeitos duradouros, sombrios e inalteráveis sobre a psique humana.

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