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No Coração do Mundo

(No Coração do Mundo, 2018)
8,0
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Críticas

Cineplayers

O preço do amadurecimento

9,5

Parte indissociável de uma das produtoras brasileiras mais bem sucedidas da atualidade, a Filmes de Plástico, os diretores Gabriel Martins e Maurílio Martins ajudaram a construir junto a André Novais Oliveira e Thiago Macedo Correia um universo humano em franca expansão, com foco principal no espaço que lhes é familiar, e na qual sua infância está intrinsecamente ligada, a periferia de Minas Gerais. De lá vieram os primeiros curtas há 10 anos e até hoje é seu porto seguro e inspiração, e é lá que continua sendo o habitat dos personagens e narrativas que continuam sendo criados. No Coração do Mundo é, a um só tempo, um marco que representa a comemoração dessa década e também um resgate do início de tudo, resultando em expansão do olhar que eles estão difundindo no imaginário da nossa cinematografia e também um acalanto para sua formação em momento de celebração dessa primeira década.

Em seu trabalho de conclusão do curso de cinema, os Martins conceberam Contagem, curta-metragem que homenageia o bairro mineiro de todas as formas. Tem o cheiro do café, tem o calor do sol, tem o estampido do disparo e cada detalhe impresso no final parece uma comunicação direta com o espaço e com aqueles corpos, que interagem entre si em naturalismo perfeito. Lá em 2010, o 'coração do mundo' já está na boca das personagens de Kelly Crifer e Leo Pyrata, o casal que de alguma forma dá forma à narrativa costurada a inúmeros olhares e toques e peles nesse novo filme, uma ousadia vinda da Filmes da Plástico, pelo que eles entregaram - mas também uma nova camada natural ao processo de mapeamento local, de observação social que sempre partirá do naturalismo e que já reverberou no fantástico antes, e agora muito rapidamente nos arremessa à violência cotidiana da periferia.

Então o naturalismo visto nos longas de André Novais Oliveira e na maior parte de curtas como Constelações e Nada (respectivamente de Maurílio e Gabriel) aparece aqui aditivado por uma proposta de combinação tipicamente suburbana, que investiga não apenas a placidez do claro mas também o confrontamento do escuro, entre ambientes e os interiores de seus tipos habilmente construídos. Não saem de cena os cotidianos e o frugal das horas dos dias, mas são acrescidas a elas angústias agudas que já estavam previamente cozinhadas no curta que se baseou; aqui, esses elementos fervem a ponto de criar a ebulição vista em tela. Nem sempre ela é explicita e exposta, mas a percepção quanto a inconformação a respeito do estado das coisas está na mesa, e será acessado de maneira diferente por cada um dos personagens. Elas nascem em meio aos carinhos, aos sorrisos, aos diálogos, as ternuras, tudo que se cultiva entre os que se querem bem.

No Coração do Mundo se constroi no hiato. Não se tem mais a efervescência que dura até os 25 anos, mas também ainda não chegou-se ao conformismo que os 45 começa a apontar. O filme acompanha essencialmente uma fatia de jovens (porque não jovens?) a partir dos 30, quando seus semáforos particulares acendem uma luz vermelha impossível de ser desligará até que alguma concretude se faça presente. Marcos, Ana, Selma, Miro, Rose, Brenda, Beto... essas pessoas parecem farejar o limite, ou criam pra si uma narrativa que gira em torno do conceito da 'última chance' para justificar seus avanços em uma zona desconhecida de si mesmos. Esse lugar da insegurança pessoal é realçado pela luz que Leonardo Feliciano (de Branco Sai, Preto Fica e Arábia) capta, transitando de maneira uniforme da banalidade do cotidiano ao impacto da transgressão, em um trabalho de sutil leitura dos cenários naturais e da construção imagética de cada plano, que traduz o estado de espírito de cada momento com o máximo de veracidade.

O elenco impressiona também pelo rigor do conjunto, cada um em consonância perfeita com o projeto. Tanto uma atriz experiente como Grace Passô até um profissional de inúmeras funções dentro do universo cinematográfico como Leo Pyrata, passando por Kelly Crifer, Barbara Colen, Renato Novaes, até as surpreendentes participações afetivas que abrem e fecham o filme, e chegando no manancial de vigor que é a estreia de MC Carol, esse é um daqueles casos cada vez menos raros no nosso cinema onde o trabalho coletivo é da mesma potência que cada desempenha cada indivíduo, típico do que costuma conseguir a produtora, mas que aqui consegue um lugar de solos contínuos para cada um de seus integrantes, sem tornar nada histérico nem sobrepujar qualquer um. É, nesse sentido, um exemplar típico da marca de qualidade da Filmes de Plástico, que conjuga com muito êxito a paridade entre seus elementos. 

Retratando um momento de cobrança pessoal e social, a estreia em longa dos experientes Gabriel e Maurílio sugere um saudável ponto agudo dentro da produtora que construíram sem jamais perder o DNA que tem lhe dado um rosto. Ainda assim, tem uma maturidade que parece aventar no filme, que tira o caráter observacional e de textura humanista para um outro recorte do real, onde a crueza é mais do que uma possibilidade, mas principalmente uma consequência do que não aconteceu ou não se realizou. No Coração do Mundo parece mostrar o nascimento das carapaças e escudos emocionais que o tempo outorga a sociedade. 

(PS: retificar, mesmo rapidamente, o talento de Russo APR é outra felicidade que 'No Coração do Mundo' nos oferta)

(PS2: alguns planos que nascem emblemáticos: o rosto de Marcos captado do alto, aproximadamente durante 1 minuto, aponta a paixão avassaladora da câmera por Pyrata; o desespero final de Selma, sem diálogo, no volante; a câmera parada no momento em que Ana confronta o descontrole urbano; a primeira aparição de Brenda, xingando do alto da escada; entre inúmeros outros) 

Comentários (1)

Josiel Oliveira | quarta-feira, 07 de Agosto de 2019 - 15:55

Assisti ontem numa sessão no IMS-SP que teve um debate com os diretores e a atriz Grace Passô mediado por ninguém mais ninguém que o Kleber Mendonça Filho em pessoa.
A sala teve lotação máxima, foi muito legal ver o Kleber, que super elogiou o filme, dando essa moral pra "molecada".
Ele até comentou uma passagem de ter visto o "Contagem" num festival que contou com a presença do saudoso Carlão (Carlos Reichenbach) que logo após a projeção soltou um "DO CARALHO!" em alto e bom som na platéia. Falou como era legal ter oportunidade de realizar a sessão com debate anos depois com os mesmos diretores.
Legal, sucesso à produtora que tem um membro ex-equipe cineplayers!

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