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Morto Não Fala

(Morto Não Fala, 2018)
6,6
Média
13 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Horror periférico

6,5

Dennison Ramalho já pode ser considerado um veterano do nosso horror. O que é curioso, já que estamos falando aqui de Morto Não Fala, sua estreia no mundo dos longa-metragens em 2019. O diretor e roteirista iniciou a carreira como curta-metragista em 1998 e teve um primeiro destaque em 2008, quando colaborou com José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão, como co-roteirista e assistente de direção em seu aguardado Encarnação do Demônio, que encerrou a trilogia iniciada por À Meia Noite Levarei a Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver ainda na década de 60. Depois, teve créditos na antologia internacional O ABC da Morte 2 e nas produções da Globo Carcereiros e Supermax.

Sua estreia como diretor já demonstra ao menos de início uma abordagem única para o gênero: Daniel de Oliveira, famoso por fazer o cantor de mesmo nome na biografia Cazuza: O Tempo Não Pára, estrela a produção como Stênio, funcionário do necrotério do Instituto Médico Legal paulista que tem a estranhíssima capacidade sobrenatural de se comunicar com os mortos. Porém, leva uma vida essencialmente solitária, sendo desprezado por sua mulher Odete (Fabíula Nascimento, de Segundo Sol) por conta de seu cheiro, sendo alvo do desprezo do dono de padaria Jaime (Marco Ricca, de O Invasor), que é amante de sua mulher, e é frequentemente provocado pelos colegas de trabalho. Tudo muda quando toma consciência da traição e resolve fazer algo a respeito.

A primeira metade de Morto Não Fala é deliciosamente inusitada, apostando menos nos sustos e mais na estranheza. Descontando a escolha um tanto estranha de animar a fala dos mortos com computação gráfica enquanto se centra em efeitos práticos na maior parte, o diretor administra toda a tensão que é o dia-a-dia deprimente daquele homem sombrio que recebe os defuntos com julgamentos e comentários depreciativos. Chega mesmo a lembrar um arco específico de Um Lobisomem Americano em Londres, quando o protagonista David Kessler é obrigado a traçar conversas culpadas com os espíritos retalhados das vítimas de sua licantropia.

A ambientação na periferia de São Paulo mostra-se outro acerto da produção. Não há locações fora o necrotério, a padaria e as lajes paulistas e se houve alguma questão de classes no mundo da produção, já sentimos que as camadas mais pobres da sociedade perderam. Tudo em Morto Não Fala chega até a lembrar o conto de Rubem Fonseca Relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência, explorando personagens baixos e sujos, capazes de atos extremos, movidos apenas por suas necessidades interiores, onde o ressentido protagonista joga a moral pela janela, porém sem jamais querer enfrentar as consequências. E a consequência de suas perversas transgressões sociais viram seu mundo para baixo, como veremos.

Logo após essa primeira metade, Ramalho leva seu filme para outro caminho: o dramático horror familiar de casa assombrada. É um arco muito bem introduzido, pois o diretor demonstra que sabe controlar suspense a curto e longo prazo, dando as informações ao espectador mas não aos personagens, tornando tensa cada conversa banal que antecede um perigo iminente  - sem que as cenas necessariamente envolvam espíritos do além.

Nesse ínterim, o filme se descaracteriza um tanto e passa a seguir todos os arquétipos e clichês das pessoas assombradas por uma presença desconhecida. É verdade que nunca perde o interesse, pois ficamos curiosos em ver como o homem constantemente humilhado no início expiará seus pecados que afetaram sua família e a família de Lara (Bianca Comparato, de 3%), filha de Jaime. O filme então entra em seu momento “trem-fantasma”, introduzindo os sustos de supetão e eventos paranormais inexplicáveis trabalhados de maneira mais comum que seu início de maneira extremamente original. Dá a impressão de duas produções em uma, porém não com a mesma organicidade do recente destaque nacional As Boas Maneiras, pois a crônica de costumes sobrenatural continua se impondo acima do que vem a seguir.

De qualquer forma, é algo positivo uma produção de estreia tão cheia de boas ideias - ainda que a execução nem sempre esteja à altura da ambição conceitual, com alguns dos sustos parecendo fazer a trama andar em círculo, há alguns momentos que o diretor sabe com precisão arrancar a semente do desconforto - muito difícil não sentir um arrepio na cena de Lara no médico legista. Para os fãs de terror e do cinema nacional, é então de encher os olhos como filme consegue ambientar os arquétipos do terror na violenta periferia paulista, dominada pela violência de gangues de traficantes, brigas de torcida, povoada por pessoas que tentam viver em meio ao urbanismo caótico - e nem sempre conseguindo. Uma produção imperfeita, porém singular de nossa filmografia.

Comentários (1)

Ted Rafael Araujo Nogueira | segunda-feira, 14 de Outubro de 2019 - 17:38

Gostei. Homenageia gêneros e subgêneros mantendo uma identidade visual e narrativa própria, isto também se deve ao trato de brasilidade da periferia. Usa do horror como condução social de isolamento, com Stenio tendo mais contato, naturalmente, com mortos que com vivos. Destaque para o conflito de atuações em personagens opostos. Uma dicotomia válida aqui é bem escrita. Stenio o pacato e ausente isolado e sua esposa ativa e insuportável. Este conflito arma bem o que o filme propõe.

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