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Mistério no Mediterrâneo

(Murder Mystery, 2019)
5,4
Média
32 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Paródia pouco inspirada

4,0

Dentre todos os recursos da literatura e do cinema de suspense, o elemento narrativo do whodunit (contração da pergunta who done it, ou quem fez isso) se revela popular e duradouro, tendo raízes em escritos como Assassinatos na Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, e Um Estudo em Vermelho, de Sir Arthur Conan Doyle. Desde então, Agatha Christie e Georges Simenon exploraram exaustivamente o tema no século XX, explorado na contemporaneidade tanto em romances críticos como a Trilogia Millenium de Stieg Larsson quanto em telenovelas do canal brasileiro Globo.

A comédia da Netflix Mistério no Mediterrâneo é a prova que o fascínio que o gênero ainda carrega consigo. A produção é mais um resultado do acordo de distribuição que Adam Sandler fez com o serviço de streaming que rendeu filmes como o também pastelão Os Seis Rídculos, o mais dramático Os Meyerowitz e o especial stand-up Adam Sandler 100% Fresh, e pode se orgulhar de ser o filme com maior número de visualizações do serviço em um mesmo final de semana, muito por conta  do carisma de Sandler ser somado com o de Jennifer Aniston, na segunda colaboração dos astros após Esposa de Mentirinha.

O astro voltou a se tornar um nome relevante sem ter que competir nas salas de cinema com as franquias de super-heróis e puxou outros gigantes antigos da comédia consigo, como é o caso de Jennifer Aniston, também recém-egressa do streaming com a comédia Dumplin’. A famosa dupla aqui interpreta o casal Nick e Audrey Spitz, que saem em um cruzeiro para a Europa - às custas da economia de Nick, é verdade, que mente para a mulher dizendo que conseguiu passar na prova para detetive. No voo, conhecem um rico herdeiro (Luke Evans) que os convida para um passeio no iate do tio bilionário (Terence Stamp), que acaba assassinado durante um pico de luz, e a suspeita dos exóticos passageiros recai sobre o casal.

Todo o resto do filme se passa então com o eles tentando limpar o próprio nome e encontrar o assassino. Aqui e ali pode-se esperar alguma risada, especialmente com o caricatural elenco de suporte bastante típico de produções do gênero - do playboy herdeiro ao milionário estrangeiro passando pelo militar rabugento, são coadjuvantes que poderiam ser personagens do jogo de tabuleiro Clue. Mas a maioria dos risos para por aí.

Sim, Adam Sandler é um ator engraçado e muito de seus papéis mais célebres atestam isso. Mas a bem da verdade, a maioria deles há um bom tempo, com uma exceção a outra, são o paradigma do piloto automático. O ator continua interpretando o tipo relaxado e sarcástico até em situações que não são pedidas, como é o caso aqui. Anniston como Audrey Spitz está muito mais no “clima” da produção, interpretando o pânico de ser falsamente acusada de maneira cômica. Frequentemente engole o companheiro de cena, que transparece certa má vontade em fazer qualquer coisa fora de sua zona de conforto. O filme leva a pior por conta disso, sendo apenas a paródia de um suspense e nunca um suspense cômico, por assim dizer.

O resto da produção não faz muito por onde para elevar o material. Basicamente tudo é genérico até o talo. Normalmente a ideia de se ironizar um gênero se faz através do uso de clichês em favor próprio, mas o fato é que o filme se estica bastante com lugares comuns da comédia romântica que roubam tempo da principal força motriz: por causa de uma briga conjugal, os personagens principais literalmente param de se importar durante algum tempo com a polícia e um assassino à solta na cola dos dois. Seria mais interessante que o suspense, o romance e a comédia fossem mais atrelados, mas isso já seria pedir demais.

No todo, Mistério no Mediterrâneo é aquele tipo de filme fácil e burocrático, que Sandler e sua produtora Happy Madison produzem praticamente a toque de caixa. Não inventa nada, parodia gêneros da maneira mais superficial possível, com uma notória falta de concisão em praticamente todos eles, em produtos feitos literalmente a toque de caixa: termina-se um e parte para o próximo sem pensar em nenhum individualmente. Ainda que repetição gere aborrecimento e mais cedo ou mais tarde uma outra guinada será exigida, no presente momento Sandler conseguiu uma sobrevida com o seu trato para a Netflix e em números sua carreira vai muito bem, obrigado, e momentaneamente, é isso que interessa.

Comentários (3)

Renan Pessoa | segunda-feira, 24 de Junho de 2019 - 23:53

Gostei do filme!
PS: eu sempre tenho a impressão que o Adam Sandler é quem escreve todos os filmes dele, ou que os autores escrevem o filme pensado totalmente pra ele... pois em todos os filmes que ele atua sempre tem os mesmo tipos de piadas, e tb cenas isoladas de personagens totalmente malucos e inexpressivos para a trama. Nesse até que não teve o Rob Schneider, Nick Swardson ou alguns outros que sempre fazem essas participações especiais; ou um vizinho, ou uma sogra, e etc

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