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Midsommar: O Mal Não Espera a Noite

(Midsommar, 2019)
7,0
Média
49 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A bela e as feras

6,5

Ao fim da sessão, temos a impressão de que Midsommar revela muitos de seus signos imagéticos no prólogo que o diretor Ari Aster constroi para apresentar sua protagonista Dani, sua relação destruturada com os pais e a irmã, e o namoro de 4 anos com Christian, que se desgastou por conta do estado emocional dela própria. Em cerca de 15 minutos, o diretor propõe analisar um relacionamento romântico considerado abusivo (será?) e um outro de caráter familiar em dependência doentia, ao passo que aperta o gatilho narrativo com uma solução aterradora. Também nesse curto preâmbulo, Aster reafirma o que já tinha sido testado ano passado em Hereditário, arrebatando rapidamente com imagens não apenas esteticamente perfeitas, mas também planos cujo significado será colocado a prova seguidamente durante a projeção. Um exemplo de sofisticação de imagem está na chegada de Dani na casa do namorado para confirmar sua presença nas férias coletivas do grupo de amigos; ela como figura indesejada sendo projetada acima dos rapazes sem jamais fazer parte do grupo - uma intrusa, tratada como tal por personagens e retrabalhada pelo diretor em função dúbia.

Como em sua estreia, Aster volta a investigar práticas ritualísticas em comunidade, aqui em olhar amplo. Sai a presença distanciada de um grupo a espreita da ação, entra em cena todo o aparato formador de códigos de conduta, com suas regras, cenário e desenvolvimento explícitos. Uma das inúmeras qualidades de 'Midsommar' é nunca esconder seus objetivos; a ação obscura vista no longa anterior e em outros exemplares vem para o centro dos acontecimentos, onde apresenta em camadas toda sua carga motivadora. O cineasta tem claro fascínio pelos ritos e envolve o espectador na totalidade de detalhes apresentados em sua investigação minuciosa sobre a linha que é constantemente cruzada e que redefine a percepção do público. Em outra jogada para posicionar que sua narrativa seja construída também por imagens, Aster aponta a dose sabida de delírio ao entrar nessa comunidade sueca em uma sequência onde ele leva literalmente seu elenco do chão aos céus.

Esse interesse por sociedades fechadas que se significam através de ritos e cerimônias também trazem ao filme simbolismos metafóricos que agregam a obra e ao nosso tempo valores adicionais. O filme ousa julgar a empatia em um tempo tão carente da mesma, e o faz de modo muito sutil. Dani é uma personagem complexa, que facilmente pode ser vista por prismas específicos e gerar um afastamento de parte do público, que o filme consegue traduzir. De repente o filme apresenta uma gama de personagens outros dispostos a ajudá-la e compreendê-la; a que custo? Ainda assim, há um debate levantado sobre os limites dados a relacionamentos e como eles podem se transferir de esfera, e a questão não é colocada de modo unilateral, ainda que o foco principal seja o feminino. 

Infelizmente, o desenho de Dani é falho em seu desenvolvimento a longo prazo, o que faz com que sua sustentação perca a estabilidade, criando um ruído ao próprio filme. Assim como aos outros personagens estrangeiros na comunidade sueca, que igualmente começam a agir da maneira mais absurdamente clichê possível, cria-se uma cacofonia com o obtido pelo coro sueco, acertado e coerente com a proposta inicial, sem jamais sair do tom. Enquanto isso, a histeria generalizada por parte do elenco principal prejudica não apenas o mergulho no filme como realça as fragilidades do roteiro, quase que deixando o foco principal no trabalho de direção e nas tarefas técnicas como um todo. 

E nesse momento ficam mais evidentes as qualidades gerais do filme. Em tempos tão histéricos no cinema, o trabalho geral de Aster é de extrema cautela no que tange sua banda sonora como um todo. A equipe de som tem trabalho delicado e microscópico, que acompanha a trilha de The Haxan Cloak nesse apuro sensorial, carregando o público pouco a pouco em direção ao incômodo necessário que o filme necessita surtir. Não interessa ao diretor trabalhar com códigos de gênero já muito desgastados; ele é explícito quando precisa ser (e não é pouco), mas geralmente sua concisão e minimalismo dão o tom do trabalho como um todo, além do cuidado gradual em passar de uma chave a outra é notável. Taí que a imersão proposta pelo trabalho de som seja tão importante, sendo essa uma característica marcante do autor, que rege sua orquestra com afinco.

'Midsommar' não é um projeto que realce potencialidades individuais de seu elenco. Com a exceção de Will Poulter (o mais prejudicado pelo roteiro), todo o elenco é eficiente e evolui bem, apesar de prejudicados, partindo do casal protagonista Florence Pugh e Jack Raynor, e indo ao imenso corpo de coadjuvantes, todos em sintonia. É a visão de Ari Aster que controla o filme como um todo no final, o que demonstra sua autoralidade, mas que dessa vez emperrou no andamento mecânico da história, que conduz a saga simbólica da menina em processo de empoderamento desde o mesmo prólogo já citado, onde objetos cênicos na casa de Dani já apontam para seu desfecho, que tanto saúda o diretor - através de sequências cada vez mais mirabolantes - quanto desaponta o roteirista, que parece mergulhado em preguiça em determinado momento. O problema é que ambos são o mesmo.

Comentários (1)

Alexandre Koball | domingo, 06 de Outubro de 2019 - 21:38

Vi hoje. Possivelmente meu filme do ano.

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