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Meu Nome é Dolemite

(Dolemite Is My Name, 2019)
7,2
Média
103 votos
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Críticas

Cineplayers

Uma carta de amor à comédia obscena

7,5

“Dolemite is my name, and fuckin' up motherfuckers is my game!”

Rudy Ray Moore é o tipo de figura controversa que só reforça a alcunha de “terra das oportunidades” atribuída aos Estados Unidos. O comediante e músico batalhava há anos por uma oportunidade até o dia em que resolveu reproduzir o estilo bravateiro de Rico, um morador de rua local que vivia contando a história de um certo “Dolemite”. Contra todas as expectativas, Moore encarnou Dolemite como uma persona desbocada, uma espécie de herói cafetão especializado em se gabar. Seus estilo de comédia cheio de rimas e palavrões lhe renderam a alcunha de “Padrinho do Rap” e admiração confessa de astros como Snoop Dogg.

O sucesso era tanto que Dolemite resolveu ir, novamente contra todas as expectativas, para o cinema. Reuniu no seu intento companheiros de trabalho, estudantes de cinema, dramaturgos e até mesmo D'Urville Martin, ator de razoável expressão à época, para dirigir seu filme. O resultado foi a comédia de ação Dolemite (1975), um dos grandes sucessos da onda blaxploitation, que apresentava protagonistas negros fortes e sensuais como os novos ícones culturais.

E para quem pensou que a história “puxa, isso dava um filme!”, eis que a plataforma de streaming Netflix ouviu essa pergunta inconsciente e trouxe ninguém mais, ninguém menos que Eddie Murphy para estrelar em Meu Nome é Dolemite, uma das melhores cinebiografias de 2019. 

Se hoje não ouvimos falar tanto do astro por conta de (muitas) escolhas (muito) ruins e alguns só o conhecem por papéis mais tardios de sua carreira como O Professor Aloprado, Dr. Doolittle e a voz do Burro em Shrek, cabe aqui uma explicação. Nascido na década de sessenta, Murphy se apaixonou por stand-up aos 15 anos e, em uma ascensão meteórica, gravou álbuns, esteve no elenco do humorístico Saturday Night Live e foi para o cinema, se consolidando de vez com 48 Horas, Trocando as Bolas, Um Tira da Pesada e Um Príncipe em Nova York, terminando a década de oitenta como um dos maiores nomes do entretenimento do seu tempo. Tudo graças a um estilo rápido, canalha, falastrão e ofensivo que naturalmente deve muito a Richard Pryor e também a Moore — e cuja dívida de gratidão transparece em cada fotograma de Meu Nome é Dolemite.

Dirigido por Craig Brewer, identificado por exemplares modernos de cinema negro como Ritmo de um Sonho e Entre o Céu e o Inferno, dá para dizer que o lançamento é uma espécie de Artista do Desastre sem o cinismo. Se o filme de James Franco mostrou a paixão por drama e falta de talento do sem noção Tommy Wiseau, Meu Nome é Dolemite é uma carta de amor à comédia e o poder triunfante  de falar sacanagem. 

O roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski, que assinaram biografias de sucesso como Ed Wood, O Povo Contra Larry Flint e O Mundo de Andy acerta onde outras erram por tentar ver a pessoa trágica por trás da imagem consagrada, evitando a velha moral de “o preço que o sucesso traz consigo” e esculpe o Moore interpretado por Murphy como um sujeito imperfeito porém esforçado desde o início, de forma que não há nada faustiano no filme; o sucesso é consequência à inventividade e ao inconformismo praticamente inesgotáveis do comediante. 

Tal escolha pode se revelar um tanto excessiva, é verdade, já que o filme pega Moore antes do sucesso, se consolidando como músico para então, já em uma parte avançada da narrativa, entrar naquele que é o conflito principal de fazer o filme, que acaba por tomar a maior parte da projeção. Da forma como está, pode-se argumentar que faltou um tanto de poder de síntese para a obra, mas ao mesmo tempo fica quase impossível não criar empatia pela montanha-russa de centenas de fracassos para então ver os louros da fama.

Brewster mostra sua paixão pelo cinema à época e a associação de Meu Nome é Dolemite com títulos como Shaft, Super Fly e Foxy Brown é quase imediata. Porém, sabiamente despe a obra de glamour — Moore era muito mais engraçado que Richard Roudntree e Pam Grier, afinal de contas! e grande parte da hilaridade e da comoção da obra é testemunhar aquela trupe brancaleônica de rejeitados querendo seu lugar ao sol. Cada luta mal coreografada, cada improviso em cima da hora e cada gambiarra testada é mostrada em frente àqueles ângulos, filtros, cenários e figurinos exagerados e cafonas dos anos setenta e acaba virando parte da brincadeira tentar parecer “durão”, falhar miseravelmente, mas pelo menos tirar uma risada disso. 

Ao invés de se metamorfosear no outro, como tantos fazem, Murphy empresta suas conhecidas características ao personagem. Ao invés da mímica de movimentos, temos o repertório quase inesgotável do ator em falar rápido de maneira quase desconcertante e  usando profanidades como vírgula, sabendo soar tanto engraçado como dramático dentro desse registro. Os silêncios do personagem falastrão dizem muito, e esse Murphy na corda bamba entre comédia mostra inclusive um “tesão” cênico que o ator não demonstrava há muito tempo, sendo contrastado por um hilário Wesley Snipes (Blade) como D’Urville Martin, representado como um astro egocêntrico, afetado e com notável desprezo pela produção que embarcou, e cujas interações entre piadas e brigas em cena “faísca” e mantém o interesse através de toda a projeção.

Tributo a uma época que não volta mais em matéria de ineditismo mesmo filhos de Richard Pryor, Rudy Ray Moore e Eddie Murphy como Chris Rock e Dave Chapelle já não são exatamente novidades Meu Nome é Dolemite é, talvez até de maneira idealista e otimista, um tributo aos desajustados que nunca deixam de sonhar. Dolemite venceu uma sociedade moralista (mesmo em anos hoje lembrados como libertinos, é fato que a censura corria solta, prendendo aqueles que se expressavam demais), gravadoras que só queriam tocar cópias de outros artistas, distribuidoras de cinema que só queriam o jogo ganho. Cenas como a trupe de Dolemite viajando de limusine e fazendo as pazes com o sucesso ou fracasso do filme, valorizando ao menos a tentativa de fazer o que queria, estão entre alguns dos momentos para sorrir de canto entre as gargalhadas de boca aberta. Meu Nome é Dolemite é um brinde aos que tentam e um dedo do meio para os que desprezam.

Comentários (4)

Ted Rafael Araujo Nogueira | terça-feira, 29 de Outubro de 2019 - 11:46

Massa o texto bicho. Meu nome é Dolemite é uma homenagem foda aos malucos qie fazem cinema na marra, independentemente da proficiência que possuem.

Josiel Oliveira | segunda-feira, 25 de Novembro de 2019 - 19:26

Trupe brancaleônica foi foda kkkkk

CitizenKadu | segunda-feira, 25 de Novembro de 2019 - 20:06

Esse filme tá na minha lista. Essa homenagem é mais um desabafo de Eddie Murphy, porque a volta dele para o stand-up é muito requisitada e ele no palco era wild. Talvez este filme seja a única forma dele ser transgressor e politicamente incorreto, como ele sempre foi. E eu não sei o que Chris Rock anda fazendo ultimamente, mas Chapelle lançou um especial da Netflix que foi massacrado e eu tenho certeza que foi pela força das piadas dele (envolvendo o caso do Michael Jackson principalmente), porque o stand-up dele não pode ser novidade, mas não foi um show ruim; e mesmo a piada tendo sido de mal-gosto ou não, tá difícil para esses caras. Eu me impressionei quando as mulheres do The View(consideradas como lacradoras americanas para quem usa esse termo babaca) defendendo Norm MacDonald e elas mesmo dizendo que o PC está matando a comédia. Mas Norm perdeu o show na Netflix mesmo assim. Isso é terrível...

CitizenKadu | quinta-feira, 16 de Janeiro de 2020 - 02:52

Ainda bem que tu não comparou com "O Artista do Desastre", porque Tommy Wiseau ou até mesmo Ed Wood não possuem nenhuma semelhança com o artista que Moore era. Ele fez um filme como uma escolha depois de gravar seus álbuns, onde reside sua arte, ele era um artista sem desastre que decidiu entrar para o blackexploitation, não era foda só pelo sucesso cult de um filme mal feito. Recomendo o disco de 1970 dos "The Last Poets" e os primeiros discos do Gill-Scott Heron(Spotify facilita a vida de todo pesquisador musical), ou o trabalho de Nipsey Russell, para mostrar como Moore foi o contraponto obsceno dessa era. Por favor, comparar com Wiseau ou é plagiar a opinião de merda da Variety, ou ser mais um playboy que só descobre a cultura negra ou hip-hop por causa de um filme que foi elogiado no RT e saiu nas premiações.Eu amo hip-hop, não comparem com culturas erradas e com pessoas totalmente diferentes, só porque os três fizeram um filme ruim.Conheçam mais.Existe a Internet.

Polastri | quinta-feira, 16 de Janeiro de 2020 - 10:31

E tem uma diferença fundamental no tom dos filmes tb. O Artista do Desastre é mais uma sátira, eles de certa forma tentam extrair o humor da ridicularização do Wiseau, e por isso fracasse retumbantemente. Como vc vai ressaltar o ridículo de um objeto que já é o ridículo da forma mais explicita possível? Por isso o The Room segue tendo alguma graça mas o Disaster Artist sempre vai ser uma merda pasteurizada. Já no Dolemite Is My Name tem toda uma reverência ao Rudy Ray Moore. O ridículo vem mais do descompasso entre o seu ímpeto artístico e o que estava em voga na época ("Vaudeville is dead" é o que o dono do bar fala pra ele). E claro, da incompetência dele com o fazer cinematográfico, em diversos momentos se mostra ele querendo dar um passo maior do que a perna, em termos do que ele tava capacitado tecnicamente pra fazer. Mas a sua competência como "entertainer", essa veia de artista popular contador de histórias o filme exalta em diversos momentos, inclusive no final.

Polastri | quinta-feira, 16 de Janeiro de 2020 - 10:34

Pegando a biografia na wikipedia, dá pra sacar que ele tinha seu talento artístico e uma carreira bem considerável no que se coloca como ponto inicial no filme (ele querendo colocar seus discos pra tocar na loja):
"In Milwaukee, he preached in churches and worked as a nightclub dancer.[6] He returned to Akron, working in clubs as a singer, dancer, and comedian, often appearing in character as Prince DuMarr.[7] He joined the US Army and served in an entertainment unit in Germany, where he was nicknamed the Harlem Hillbilly for singing country songs in R&B style.[1] He developed an interest in comedy in the Army after expanding on a singing performance for other servicemen.[8]

After his honorable discharge he lived in Seattle, Washington and then Los Angeles, where he continued to work in clubs and was discovered by record producer Dootsie Williams.[6] He recorded rhythm and blues songs for the Federal, Cash, Ball, Kent, and Imperial labels between 1955 and 1962."

CitizenKadu | quinta-feira, 16 de Janeiro de 2020 - 10:47

Sim, o ridículo tá no ele fazer o filme "Dolemite", mas na pessoa dele, como é o caso do Wiseau ou do Ed Wood(sendo que este foi mais glamourizado com a imagem do Johnny Depp no filme do Burton, onde até Orson WElles ele encontra(?!)), não gá ridículo, mas sim uma autenticidade. Ele não foi um fail filmaker, ele foi um artista do spoke word, um Lenny Bruce negro...que foi fazer carreira no cinema, fez sucesso por causa unicamente dele e do carisma que o personagem Dolemite já tinha nos clubs...mas a arte dele na verdade era outra. Por isso que comparar com a vida de Tommy Wiseau principalmente é leiguice.Murphy mostrando que não mudou, exaltando Moore e mais um manifesto contra o PC e a cultura do cancelamento. Filme recomendadíssimo.

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