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Matrix

(Matrix, The, 1999)
8,3
Média
1417 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Considerado a melhor ficção dos anos 90, temos o orgulho de apresentar uma análise completíssima sobre o filme.

10,0

Em 1999 surgia um filme, até então com pouco hype e desconhecido que, em pouco tempo, fora ganhando espaço na mídia, marketing e uma merecida reputação de “revolucionário”. Sucesso absoluto de público e crítica, considerado a melhor ficção científica dos anos 90 sem maiores concorrentes (além do fraco Star Wars Episódio 1: A Ameaça Fantasma, lançado no mesmo ano), Matrix foi um filme que brilhava em seus aspectos técnicos (e como!), mas que também trazia uma boa história de fundo, um enredo que procurava não deixar furos (claro, além das eventuais “brechas” para uma continuação) e um elenco extremamente competente que encaixou-se muito bem na trama, todos muito bem caracterizados.

O filme foi dirigido por Andy Wachowski e Larry Wachowski, que já haviam protagonizado antes o “mediano” Assassinos (com Antonio Banderas, Julianne Moore e Sylvester Stallone), em 1995, e o “bom” Ligados Pelo Desejo, em 1996. A genialidade dos dois irmãos permitiu a criação de um mundo paralelo totalmente diferente do que conhecemos como “nosso mundo”, misturando tudo isso com muita tecnologia, novas técnicas de filmagens e muito Kung-Fu. Temos aí uma das mais arrasadoras superproduções da última década.

Mais do que um campeão em crítica e público, Matrix foi um campeão, também, em premiações, levando muitas estatuetas para casa. Entre elas, todos os Oscars que disputou: Melhor Edição, Melhor Efeitos Sonoros, Melhor Efeitos Visuais e Melhor Som. No BAFTA, faturou os prêmios de Melhor Som e Melhor Efeitos visuais, e também foi indicado em outras categorias, como Fotografia, Edição e Figurino. Não podemos nos esquecer também do Grammy de Melhor Trilha Sonora. Se fossemos ficar falando dos prêmios que Matrix faturou, provavelmente passaríamos horas e horas aqui comentando apenas boa parte deles, então vamos pular essa parte visto que a intenção era só dar uma idéia da dimensão que o filme atingiu, caro leitor.

“What is The Matrix ?”

O filme conta a história do hacker Neo (Keanu Reeves), ou Thomas Anderson, sua identidade real, que até o ano de 1999 levava uma vida em que ele próprio acreditava ser real, comum. Até que finalmente Neo consegue contato com o misterioso Morpheus (Laurence Fishburn), que o introduz ao verdadeiro “mundo real”. E nessa nova realidade, Neo descobre que está a duzentos anos a frente do período que acreditava estar e que as máquinas dotadas de grande capacidade e inteligência artificial elevadíssima haviam acabado por tomar conta do mundo, ou o que sobrou dele.

As máquinas criaram um programa que simula a vida do século XX (Matrix) para satisfazer os escravos humanos enquanto elas drenam energia dos próprios. Neo é constantemente perseguido por alguns “Agentes” (computadores que tem acesso a Matrix e se materializam no corpo de quem bem entenderem) e é tido como “o escolhido” (The One), a quem Morpheus se refere como pessoa que irá liderar os humanos a reconquistar a Terra. Vale lembrar também que “o escolhido” tem a habilidade de mutar a Matrix, é o único dentre todos os humanos que pode desenvolver técnicas parecidas (e até mesmo superiores) as dos “agentes”.

Talvez um dos pontos em que o filme mais acerte seja na escalação de seu elenco. Os irmãos Wachowski, sem sombra de dúvida, escolheram a dedo as pessoas certas para cada um dos papéis do filme, desde o mais importante (protagonista) a grandes coadjuvantes. Keanu Reeves (Doce Novembro, Velocidade Máxima, O Advogado do Diabo) está perfeito como Neo, é uma das várias almas do filme. O público mergulha junto com Neo para tentar descobrir o que está por detrás de todo aquele mistério (“Follow The White Rabbit” – siga o coelho branco) que é nos apresentado no começo do filme. E por falar nisso, que começo não temos, hein? As cenas iniciais com a Carrie-Anne Moss (Chocolate, Planeta Vermelho), que interpreta “Trinity”, uma das pessoas que trabalham para o misterioso Morpheus, nos dá uma pequena amostra de como as cenas se seguirão durante a película. Perseguição, ação e muitos efeitos especiais! É uma abertura realmente empolgante.

O visual dos personagens é sempre assim, dark ao extremo. Roupas escuras, poucas palavras, óculos escuros (essenciais!), mas também muita elegância. Laurence Fishburn (Othello), no papel de Morpheus, está excelente também. Ele é quem apresenta o “mundo real” aos olhos de Neo, e todas as cenas que se seguem (desde Neo despertando no mundo real até Morpheus conversando com ele a respeito do que havia acontecido) são muito bem executadas. Mesmo sem aquele toque de ação do início do filme e que estaria por vir, o filme não fica monótono, muito pelo contrário, o público fica ávido para saber sempre mais de toda aquela situação, o que prova que Matrix já é um filme diferente dos demais do gênero. Ele não se reserva o direito de ter apenas cenas de ação boas e um enredo fraco; muito pelo contrário, é um filme para se ver e rever e prestar atenção em cada detalhe dado.

“- I Know Kung-Fu…”

“- Show Me!”

Outro grande ponto que Matrix chama atenção e merece destaque é em relação as coreografias de lutas e os estilos propriamente apresentados. Entre eles destacamos o Kung-Fu. E não há duvidas que os irmãos Wachowski são não menos que grandes admiradores dessa arte. As cenas eram gravadas, regravadas, editadas até que as mesmas satisfizessem a todos da equipe técnica. Em um certo trecho do filme, onde o diálogo acima ocorre entre Morpheus e Neo, eles estão a alguns segundos de entrar em um programa para enfim treinar as novas habilidades e técnicas adquiridas por Neo. Essa seqüência é realmente fantástica e incrivelmente bem conduzida e ensaiada. Todos os movimentos, as falas não deixam com que o público deixe sua atenção de lado por um segundo apenas.

Alguns outros atores coadjuvantes roubam a cena durante muitas seqüências também. Como é o caso de Hugo Weaving (O Senhor dos Anéis: As Duas TorresA Sociedade do Anel) na pele do implacável e impiedoso agente Smith. Um papel que certamente lhe renderá (e creio que está rendendo) maior destaque que seu elfo em O Senhor dos Anéis, mas torço para que ele desempenhe um bom papel nas duas sagas, afinal, é horrível para um ator ser lembrado insistentemente apenas por aquele filme determinado. Joe Pantoliano (Demolidor – O Homem Sem Medo, U.S. Marshalls – Os Federais, Bad Boys) também está legal no papel de Cypher, um dos operadores da Matrix do grupo de Morpheus. De todos ali no grupo, ele parece ser o mais diferente de todos, não só pela aparência, mas por suas atitudes também. Notamos que, com o passar do tempo, ele mostra algum ressentimento em relação a Trinity justamente por não ser “correspondido”. E para piorar um pouco as coisas, com a chegada de Neo, Trinity aos poucos vai criando feições pelo rapaz. Pronto está armado o cenário: a inveja corre solta... O que Cypher está prestes a aprontar é algo que muitos já sabem, previsível ou não, a maneira com que ele faz isso é bem colocada no filme. Reservo-me o direito de não falar para não estragar a surpresa de quem eventualmente ainda não assistiu o filme (se é que isso é possível).

Bullet-Time
Sem sombra de dúvidas uma das coisas que mais chamaram atenção em Matrix foram seus efeitos especiais. Um deles é o famoso e magnífico “Bullet-Time”, talvez um dos grandes responsáveis pelo Oscar de Melhores Efeitos Visuais, mas certamente não somente isso. O Bullet-Time é um efeito usado principalmente na cena em que Neo fica cara-a-cara com o agente Smith; a famosa cena do desvio das balas. A idéia para a criação do efeito foi até de certa forma simples, entretanto exigiu um pouco de trabalho para passá-la do plano teórico ao plano prático. Os irmãos Wachowski pegaram várias câmeras (muitas!) e as posicionaram em círculo. Num estúdio de fundo azul, Keanu Reeves treinou por varias vezes os movimentos que iria executar, e os fez rapidamente. Ai entra o pessoal da parte técnica: eles editaram a cena, adicionaram os efeitos das balas, deram uma lenta rotação de 360º à tomada e inseriram-na no ambiente em que ela estava sendo executada. Um trabalho realmente primoroso, que justifica os vários prêmios que levou.

Mas como já disse, os efeitos de Matrix não são sustentados apenas por Bullet-Time coisa nenhuma. Há varias outras cenas primorosas onde podemos ver os efeitos em ação, como é o caso da cena do resgate de Morpheus com o helicóptero. Essa cena está demais também, talvez mais do que bons efeitos visuais, ela traz um dos melhores efeitos sonoros que já vi nos cinemas. As explosões, os vidros quebrando, as balas caindo em direção ao chão enquanto tocam em alguns pedaços do helicóptero, o “mini bullet-time” que é utilizado quando o agente Smith acerta um tiro de raspão no pé de Morpheus, quando ele ainda está pulando, enfim, uma cena de ação perfeita, dirigida com maestria e jamais vista antes.

Não podíamos deixar de elogiar também uma outra seqüência de ação impressionante, talvez a que mais tenha empolgado a platéia nos cinemas: a invasão do prédio para-militar no final do filme. Realmente é incrível, desde sua concepção até sua edição. E por falar nisso, que edição não temos em Matrix, hein? Sempre perfeita, atuando no filme de forma simples e tendo um papel fundamental na hora da colocação de tantas tomadas com fundos azuis transpondo-os para ambientes reais.

Lembro que na época do Oscar de 2000, aconteceram alguns fatos que ainda lembro a respeito da premiação de melhores efeitos visuais. A equipe de Star Wars Episódio 1: A Ameaça Fantasma (que, diga-se de passagem, estava com uma enorme dor-de-cotovelo por ter perdido o prêmio)  acabou dando algumas declarações dizendo que os jurados não sabiam distinguir em relação a qualidade técnica dos efeitos visuais, o que acabou gerando uma longa discussão entre qual realmente havia sido o melhor filme do ano naquele quesito. Certamente Star Wars tem seus méritos (e que méritos). Enquanto Matrix utiliza muitos efeitos, o mundo de “A Ameaça Fantasma” foi praticamente criado todo com efeitos visuais. É muito difícil encontrar uma tomada que não tenha um. A corrida de Pods está perfeita.

Entretanto, talvez um dos efeitos negativos do filme, e que não ocorre em Matrix, seja que em A Ameaça Fantasma você acaba não sentindo aquela interação entre efeitos, cenários e personagens. Com exceção da corrida de Pods, os efeitos estão ali para mera visualização (ou apreciação visual), os personagens não interagem com eles, tanto que depois de alguns minutos de exibição o público já de certa forma esquece deles visto que o “choque inicial” já havia passado. Já em Matrix ocorre exatamente o contrário. Há interação a todo tempo com os efeitos especiais, seja com o cenário, seja com os personagens ou com os três ao mesmo tempo, fazendo com que público surpreenda-se até o ultimo minuto. Trazendo isso para um plano mais atual, vemos que a equipe de George Lucas acabou sofrendo muitas críticas pelo segundo episódio de sua saga Star Wars também, O Ataque dos Clones, onde foi-se muito criticada a maciça utilização de efeitos visuais que, depois de alguns minutos de exibição, perdiam o dom de impressionar o público.

“- Guns, Lots of Guns...”

Não há dúvidas que Matrix usa e abusa do uso de armas, afinal, elas fazem parte da concepção e da temática do filme. Sem elas, todo esse universo pós-moderno e surreal do primeiro filme jamais poderia ter sido criado. Muitas foram as controvérsias em relação ao nível de violência contido no filme e isso lhe rendeu uma censura um tanto quanto “maluca” ao redor do mundo. Digo “maluca” porque Matrix teve todo tipo de censura, passando de 12 anos (Portugal, Suíça, Argentina) até a pesada censura de 18 anos (Irlanda, Espanha). Mas a média ao redor do mundo ficou entre 14-16 anos.

É um aspecto muito importante esse, ainda mais para as continuações que estarão por vir (Matrix Reloaded e Matrix Revolutions), onde foram gastos muitos milhões por filme (cerca de 300 milhões de dólares para o segundo filme e mais 300 para o terceiro; só a título de comparação a saga do O Senhor dos Anéis completa custou cerca desses mesmos 300 milhões de dólares, que aqui estão sendo utilizados em um filme apenas). Portanto, a Warner vai ter que negociar muito uma censura mais leve para suas continuações para que uma boa parcela de público (leia-se “lucros”) não seja excluída de seu balanço final nos cinemas.

Finalizando, Matrix é tudo aquilo que um filme de ação realmente deveria ser. Tem uma parte técnica primorosa, uma direção mais magnífica ainda, um bom elenco e um roteiro que não deixa nenhum dos outros quesitos na mão, visto que estamos acostumados tanto a assistir filme de ação sem conteúdo algum. É um filme que será lembrado muito a frente do seu tempo, e com méritos totais, é claro.

Para você que é fã de Matrix, procure maiores informações a respeito da série Animatrix, que relata, entre outras coisas, como o mundo chegou ao estado original apresentado no primeiro filme. Lembramos a todos que Matrix Reloaded está agendado agora para Maio e que Matrix Revolutions sai no segundo semestre de 2003. Até lá fique ligado no CinePlayers para maiores informações.

Para aqueles que, além de cinéfilos de plantão (ou apenas fãs mesmo de Matrix) são gamers ávidos, fiquem ligado no jogo “Enter The Matrix”, que estará sendo lançado para todas as plataformas da nova geração (Playstation 2, GameCube, Xbox e PC) que trará além de uma boa trama, cenas gravadas pelos atores especialmente e exclusivamente para este jogo.

Prós:
-          Efeitos Visuais revolucionários;
-          É um filme de ação com “conteúdo”;
-          Dois diretores com uma criatividade incrível e inimaginável;
-          Ótimo elenco;
-          O filme não segue tendência, pelo contrário, ele cria um estilo próprio.

Contras:
-          A banalização do Bullet-Time. Não é bem um contra, e muito menos algo que a Warner ou os produtores do filme tenham controle sobre. Mas sejamos verdadeiros, a utilização do Bullet-Time por outras produções gerou uma certa banalização incrível do efeito. Filmes como Os Picaretas, Todo Mundo em Pânico, Gigolô por Acidente e diversos outros acabaram por extrapolar demais nas brincadeiras e / ou satirizações.

Comentários (4)

Samuel Nascimento | domingo, 12 de Fevereiro de 2012 - 01:53

Uma da s melhores criticas feitas no cineplayers. valeu a pena ter lido, meus parabéns!

Wendell Marcel | segunda-feira, 30 de Julho de 2012 - 23:51

Uma atenção especial a essa obra considerada um divisor de águas entre culturas cinematográficas.

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