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Maria do Caritó

(Maria do Caritó, 2019)
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Perdido nos focos

3,0

A homenagem programada a Lilia Cabral pelo Cine Ceará justifica a inclusão de Maria do Caritó em sessão especial hora-concours no evento, e mais nada a acrescentar nesse sentido. Título de pegada popular extrema, é adaptação de um imenso e relativamente recente sucesso teatral de Lilia, de autoria de Newton Moreno pelo próprio, e foi uma possibilidade da atriz de conseguir reproduzir a mágica que deu certo em Divã - hit dos palcos que se transforma em hit das telas. É verdade que a aceitação do público não será difícil de conseguir, tendo em vista a comunicação intensa com o público presente na sessão, que se entrega com intensidade às desventuras de Maria. Mas as intenções populares de qualquer produto não deveriam diminuir seus valores cinematográficos e existe uma diferença crucial entre os dois projetos da atriz: João Paulo Jabur não é José Alvarenga Jr.

De linguagem extremamente televisiva, o filme de Jabur é um híbrido estranho. Adaptação do teatro para o cinema com cara de tv, que não consegue superar suas origens e nem se elevar para a mídia proposta, bastante coisa sua anacrônica no longa em matéria de produção. Quando hoje vemos qualquer telenovela com tratamento imagético de cinema, 'Maria do Caritó' parece difícil de aproximar-se. Sua estética calcada em cortes secos sem elaboração, 'fade-outs' igualmente recorrentes e utilização constante de drones que tentam levar o espectador para a atmosfera local denunciam práticas comuns antiquadas de um veículo que se renovou mais rápido que o olhar do diretor aqui.

Ainda que o texto original de Moreno tenha vencido prêmios, a adaptação não foi transposta a contento, tendo em vista que muita coisa parece reproduzida com fidelidade, o que não foi uma boa ideia aqui. O texto tem uma pegada esperta que precisaria de uma direção igualmente 'fora da casinha' para abarcar certos diálogos, que acabam soando artificiais e tendo um tempo menos dinâmico do que o necessário, que ressalta seu deslocamento de universo. Soando didático vez por outra, o filme ainda insere uma discussão política igualmente deslocada porque não desenvolvida a contento. Grandes atores acabam reféns inclusive de ações que denotam incredulidade e ainda mais reforçam o caráter novelesco do todo, com direito a descobertas parentais sem qualquer preparação prévia, além da revelação de um plano incrível que parece somente confuso no fim de tudo.

Como já mencionado, o elenco não tem boas linhas pra defender, mas se sai como pode, tendo em vista que não apenas é experiente como também é de nível superlativo. Juliana Carneiro da Cunha e Kelzy Ecard são monstros de palco e esbanjam carisma no filme, Leopoldo Pacheco está literalmente irreconhecível (e isso é um dos dados bastante positivos), Gustavo Vaz só evolui como ator e seu olhar transmite absolutamente tudo em cena, mas talvez resida uma decepção no trabalho realizado pela protagonista. Não porque Lilia esteja mal, até porque ela convive há muitos anos com a personagem, mas até por isso esperava-se uma entrega superior, ainda mais elaborada; ela está ótima como sempre, mas sua interpretação não reluz como se esperaria. Ainda assim - e como se comenta em produtos televisivos ruins -, com uma direção tão esquemática e um roteiro que não funciona, ninguém desse elenco tão talentoso tem qualquer culpa sobre o resultado final. 

Os dados positivos do filme salientam um ponto de crescimento do ato de entender-se o lugar do feminino como ponto político de uma obra, com direito a um final muito acertado, e a comunicação popular visível do longa com o público. Ainda que de fato esse público não mereça receber produtos de intenções populares de qualidade abaixo da média só porque sua função principal seja entreter, não precisa ser a única função. Com uma direção de arte realizada com capricho, 'Maria do Caritó' busca um encontro de propostas simples, como a homenagem ao circo. Suas intenções e seus resultados positivos aqui e ali não conseguem fazer o filme salvar-se por inteiro; fica aí uma tentativa sem recursos de sonhar em evoluir.

* Visto no 29º Cine Ceará, 2019

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