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Malévola: Dona do Mal

(Maleficent: Mistress of Evil, 2019)
5,3
Média
16 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O argumento insustentável

3,0

Parte da atual estratégia de mercado da Disney é pegar carona em seus clássicos inquestionáveis e oferecer em cima disso uma nova leitura, talvez uma desconstrução, quem sabe um prequel ou mesmo uma versão atualizada em live action com um elenco estrelar. Assim fica fácil garantir um apelo ao público apaixonado pelo filme de origem e ao mesmo tempo cativar novas gerações de crianças e jovens que nasceram na época em que os contos de fadas já não estavam mais na moda. Malévola (Maleficent, 2014) deve ser o primeiro grande êxito comercial do estúdio dentro dessa ideia, trazendo a perspectiva da bruxa malvada de A Bela Adormecida (Sleeping Beauty, 1959) sobre a história da animação original, vivida por ninguém menos que Angelina Jolie, que deitou e rolou na pele da vilã desalmada. Mas se no filme de 2014 esse argumento de colocar a bruxa em primeiro plano já quase não se sustenta até o final, quanto mais Malévola: Dona do Mal (Maleficent: Mistress of Evil, 2019) o desenvolve dentro de sua maior questão: afinal, a personagem é boa ou é má?

Dentro de um conto de fadas, a divisão categórica entre o bem e o mal é quase que a base para se desenvolver qualquer conflito no roteiro. A Disney tenta nos últimos anos subverter um pouco disso, com personagens mais ambíguos, assim como tem tentado colocar princesas mais ativas e menos indefesas na linha de frente, mas é fato que no fim das contas a história acaba se resumindo sempre ao embate clássico entre vilão e mocinho. Nessa configuração, a Malévola de Jolie passa da linha de personagem ambígua e entra na classificação de uma vilã simplesmente incoerente e descaracterizada. Tudo de humanidade e motivação que o primeiro filme procurou trazer para justificar as atrocidades da bruxa cai por terra neste segundo, em que ela permanece malvada no fim das contas.

A figura de vilã oficial recai sobre a personagem de Michelle Pfeiffer, enquanto a Aurora de Ellen Fanning permanece, para todos os efeitos, como a princesa oficial e protagonista moral do conto de fadas, por mais que tudo seja narrado a partir da visão de Malévola. Nesse cenário, não sobra muito para a própria Jolie provar a necessidade de sua personagem, que por vezes age com aparente má intenção, por vezes demonstra o lado bom que o primeiro filme tanto trabalhou para evidenciar. Pior de tudo, o roteiro é tão bagunçado que no fim das contas nada disso importa. Nada do que ficou plantado no filme de 2014 ganha progressão – pelo contrário, parece que o roteirista deste sequer assistiu ao anterior.

Se a Aurora de antes foi repaginada a ponto de questionar o casamento em tão tenra idade, qual a lógica de o segundo filme partir do enredo dela conhecendo a família de seu futuro marido para os preparativos nupciais? Todo o trabalho de releitura, subversão e questionamento do primeiro filme se perde em um segundo no qual os personagens voltam a se encaixar em suas posições originais de um conto de fadas clássico. Logo, a própria Malévola se revela por fim a vilã que sempre foi, tornando toda a proposta dessa nova franquia um show de incoerência narrativa.

Tudo funcionaria se, apesar das inconsistências, houvesse ao menos um espetáculo visual que fizesse valer o ingresso, mas nada ali é muito diferente ou evoluído com relação ao primeiro filme, com cenas de ação que se pretendem mais poderosas e impressionantes do que de fato são, soando na verdade requentadas. Angelina Jolie sai do terreno da novidade de brincar com a descaracterização de uma vilã para oferecer uma caricatura de si mesma, enquanto Fanning e Pfeiffer cumprem burocraticamente seus papéis. Outros personagens inseridos, como o de Chiwetel Ejiofor e Sam Riley, mal têm espaço para oferecer algo de novo para a história. Malévola: Dona do Mal termina dessa maneira por evidenciar todas as fragilidades que talvez ainda pudessem ter passado despercebidas no primeiro trabalho e ainda corta fora os acertos anteriores, provando que toda essa iniciativa nunca passou de mera estratégia para conquistar um público diferente em cima de uma história exatamente igual.

Comentários (2)

Luiz Fernando de Freitas | segunda-feira, 21 de Outubro de 2019 - 20:13

Mas a Malévola não age como vilã em nenhum momento da sequência, apenas como uma mãe superprotetora e consequentemente egoísta. O fato da população a tratar como tal é explicado no filme.

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