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M8 - Quando a Morte Socorre a Vida

(M8 - Quando a Morte Socorre a Vida, 2019)
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um filme que precisava ser feito

6,5

Tinha um filme pedindo pra ser feito no meio de M8 - Quando a Morte Socorre a Vida e da qual Jefferson De não poderia delegar a qualquer outra pessoa. Dá muito prazer assistir a esse filme sutil e muito poderoso que somente De, com a experiência do impactante Bróder, poderia traçar com as camadas tão fincadas numa realidade ainda estigmatizadora e adoecida, a ponto de corromper relações de afeto genuínas. Quando o foco são as minúcias por trás do racismo nosso de cada dia, descrito nas entrelinhas a quem o olho empático é rasgado para perceber, o filme é uma porrada tão dolorida quanto imperceptível para corpos privilegiados como o meu. Mas está lá, desenhado com muitas matizes de revolta, de dor e de injustiça.

É terrivelmente bonita a realização, a criação de planos, onde De flagra as janelas sendo fechadas para a passagem de seu protagonista, quando o olhar para ele por seus irmãos de cor em empregos subalternos é de uma enraizada mágoa, quando Maurício não é atendido em uma recepção, mas seu amigo branco sim, quando ele leva um esporro de um policial também negro simplesmente por ser negro. É a expressão 'lugar de fala' sendo utilizada da forma correta, por um cineasta atento à discussão que pode provocar com seu filme e o alcance que seu trabalho pode dar a um estado de coisas muito injusto por tão aceito e acomodado.

Entre inúmeras belas cenas escritas por De e Felipe Sholl, poucas reverberam tanto quanto a discussão entre mãe e filho, magistralmente protagonizada por Juan Paiva e Mariana Nunes. A revolta de um desemboca no aperto da garganta da outra, onde ambos explodem provocando uma miríade de sensações em quem assiste; ouvir "cala a boca que quem está falando é uma mulher preta!" em alto e volumoso som foi uma das catarses mais bonitas do festival, e ambos os atores elevam seus trabalhos nessa cena, inesquecível. Para além desse momento, Juan e Mariana têm presença de alto calibre no filme, em performances muito potentes, em meio a um elenco que não necessariamente os acompanha sempre - a presença de Malu Valle também é destacada, assim como a brevíssima aparição de Rocco Pitanga.

Em alguns momentos, no entanto, a carga dramática que De impõe a seu filme condiz com a efervescência de sua revolta com o seu entorno, mas desequilibra o material, trazendo um certo didatismo pro centro dos eventos. Como dito, era de fato inevitável que alguns 'gritos revoltosos' fossem dados com menor sutileza, mas as cenas em si criam uma ranhura com outras tão bem elaboradas e cuidadosas. Tem um contraste entre o conflito que, por exemplo, se desenha entre Maurício e o outro aluno da faculdade que passeia à margem da ação, e o discurso final da namorada branca, que esgarça inúmeros clichês típicos. Ainda que todas as decisões tenham sido pensadas para incomodar, explicitar e provocar o debate, cinematograficamente o filme se compromete.

M8 tem também um viés de cunho social que acaba sendo bem amarrado à narrativa, ao fim e ao cabo, mas que promove as cenas mais acanhadas do filme, embora seu intuito tenha valor enquanto tema. Elas infelizmente parecem deslocadas no miolo da produção, meio perdidas dentro da trajetória fabular que o diretor constroi com tanto cuidado e respeito, tanto em sua obra quanto no conceito de gênero, onde o longa só esbarra.

Esses arranhões (propositais ou não) não passam pelo arriscado olhar sobre as religiões de matriz africana, tratadas com reverência e respeito pelo filme, tangenciando a jornada do protagonista e justificando sua crescente angústia. Ela gera inclusive a bela cena final, com os nomes diferentes sendo ditos diante daquela angustiante caminhada, no belo plano aberto que encerra uma jornada onde a luta pelo preconceito - explícito ou velado - ainda promove chacinas e cenas constrangedoras como as que De criou para seu filme, infelizmente retrato da realidade onde ainda vivemos.

Crítica da cobertura do 21º Festival do Rio

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