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Luta por Justiça

(Just Mercy, 2019)
6,5
Média
14 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Receita de bolo

3,0

Daniel Cretton parece ter sido definitivamente cooptado pela máquina de fazer bolo hollywoodiana, perdendo toda a sutil delicadeza mostrada em Temporário 12 (Short Term 12, 2013) para produtos cada vez mais pasteurizados e que poderiam ser assinados por qualquer um, como esse Luta por Justiça (Just Mercy, 2019), um apanhado de cenas melodramáticas enfileiradas com o intuito único de emocionar e ir adiante em sua narrativa protocolar. Se até sobra a tal emoção calculada e enfiada goela abaixo do espectador, falta uma mínima tentativa de elevar esse material para outro lugar que não o da burocracia.

O filme até abre com um plano bonito em que Jamie Foxx mira o céu enquanto serra árvores, mas logo a narrativa se concentrará entre as barras das celas e a experimentação estética nunca volta a aparecer. Precisaria de um roteiro muito bem estruturado, repleto de camadas a explorar e diálogos azeitados para que uma realização quadrada não incomodasse tanto. Ao invés disso, o quadro mais confortável em todas as frentes possíveis encerra qualquer pretensão mais substancial, aceitando ser apenas um produto de consumo rápido e emoções baratas.

A temática, apesar de se encontrar em uma trama de 30 anos atrás, se faz muito atual: racismo entre os preâmbulos da justiça. Pegando carona no eterno interesse por biografias do cinema americano, se sentindo em voga depois da vitória de Green Book - O Guia (Green Book, 2018) no Oscar 2019 e utilizando uma carpintaria sem qualquer inspiração, Cretton fez seu filme para as massas, aspirando quase que exclusivamente o público final e as bilheterias imensas que o supracitado vencedor e outras obras como Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016) e Histórias Cruzadas (The Help, 2012) retornaram, com uma diferença que pode ser crucial: Luta por Justiça não tem qualquer leveza, como esses títulos tinham — ainda que em todos isso fosse parte de sua ruína, parte de seu acerto.

Em cena, o piloto automático rola solto entre os atores. Michael B. Jordan, Jamie Foxx (o que esse rapaz fez para conseguir uma indicação ao SAG?), Brie Larson, Tim Blake Nelson... nada em cena faz recordar os grandes momentos que todas essas pessoas já tiveram na carreira. Parecem cansados e desmotivados, apenas cumprindo tabela. Pra não igualar a todos, Rob Morgan talvez saia de cena cedo demais por entregar o coração de um filme que deveria ter um, mas não se enxerga. Isso sem contar os inúmeros personagens e atores perdidos pelo caminho, sem função e deslocados.

Ainda que vá atingir seu público-alvo e até as pessoas que minimamente são empáticas e contra a pena de morte, Luta por Justiça é um produto quadrado com os problemas de sempre do gênero biográfico, tais como saltos temporais indiscriminados, montagem acelerada para resolver com agilidade o que seu realizador considera menos relevante, concentração de ação que diminui seu entorno (será que o filme lembra que uma mulher realmente foi assassinada?), uma direção inexistente para um roteiro que mais parece um resumo apressado, sem detalhamento e sem pessoalidade. Cabe a cada um perceber sua capacidade de embarcar em uma história com esse perfil, e essas desestruturações.

Crítica da cobertura do 21º Festival do Rio

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