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Link Perdido

(Missing Link, 2019)
6,5
Média
18 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A animação encontrada

8,0

As minhas primeiras referências de cinema – de imagens audiovisuais,  forma fílmica e movimento na tela – estão ancoradas nas animações clássicas da Disney. Frequentemente olho de volta para tudo o que ela produziu até o início deste século (antes de a Pixar ser legitimada como a melhor parte do estúdio, a Dreamworks entrar na disputa do mercado de animação, e a animação digital reconfigurar todo o gênero) como um imenso arquivo de inventividade, habilidade e precisão formal.

Hoje, no entanto, existe um formato estabelecido no cinema de animação que parece sugerir filmes mais diversos e adultos, mas que só jogam dentro das mesmas demandas da indústria. A Laika, como estúdio, tem frequentemente optado para fora dessas demandas, sendo reconhecida (ainda junto com a Pixar) como o que a animação comercial tem a oferecer como “bom cinema”. Link Perdido (Missing Link, 2019) não trai essa promessa.

Escrito e dirigido por Chris Butler (ParaNorman), Link Perdido nos traz Sir Lionel Frost, um explorador britânico ansioso para ser aceito em uma sociedade de homens da ciência por “descobrir” criaturas lendárias. Depois de uma experiência frustrada, sua última chance de entrar para o clube é encontrando o ser conhecido como o Pé Grande, um suposto “elo perdido” da cadeia evolutiva que resultou nos homo sapiens. Frost encontra essa criatura, mas vê que ela é mais racional do que ele esperava – um leitor voraz que fala inglês perfeitamente. Ela e Frost estabelecem, então, um acordo: o cientista a levará para o reino mítico de Shangri-La, lar dos Yetis, nas Américas, e, em contrapartida, receberá prova definitiva da existência desse elo perdido.

Link Perdido é um filme de aventura que retoma certa ambiência dos clássicos de animação estadunidenses. É uma narrativa simples, direta – diferente inclusive das estruturas temáticas mais sofisticadas que a Laika geralmente se esforça para entregar, como Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings, 2016). O que essa simplicidade encontra é um espaço para desenvolver bons personagens e apresentar algumas das sequências de ação mais belamente encenadas do gênero, acredito, desde Mulan (idem, 1998).

Os temas que atravessam Link Perdido não são exatamente inovadores. Essa é uma história, afinal, de busca por pertencimento, por encontrar seu lugar no mundo – algo que se repete no gênero pelo menos desde Dumbo (idem, 1941). Mas Butler trata isso graciosamente: não como uma moral que é forçada ao público infantil, mas como um entendimento que se desenvolve junto com a jornada dos personagens. Em certo sentido, essa singeleza de uma história convencional apresentada com grande habilidade é algo que aparecia muito frequentemente nas animações de Don Bluth. Eu vejo Link Perdido, desse modo, como uma atualização de obras como A Ratinha Valente (The Secret of NIMH, 1982) – uma refinada, quase formalista, aventura familiar.

Por um lado, isso é para dizer que os filmes da Laika são visualmente deslumbrantes – e Link Perdido não é nenhuma exceção. Mas não podemos afirmar que o visual da animação se destaca para fora daquilo que ela apresenta de personagens, enredo e ação, como acontece, por exemplo, em outra animação desta temporada, a francesa Perdi Meu Corpo (J’ai perdu mon corps, 2019). Aqui, está tudo perfeitamente vinculado, o que só acentua a beleza do resultado final. Na cena de abertura, temos apenas o personagem em um pequeno barco tomando chá – e a precisão de cada detalhe visual já basta para a criação de uma sequência francamente deslumbrante.

Link Perdido me ganhou fácil e rapidamente ao me tocar na memória de um momento anterior do gênero. Mas não quero aqui cair em nenhuma nostalgia perigosa: o que a Laika faz é uma atualização justa e bem-vinda desse arquivo. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Animação, espero que Link Perdido ajude a abrir o caminho para uma necessária renovação do gênero. Talvez olhar para o que já foi produzido por ele e levar isso a sério seja a melhor maneira de seguir adiante.

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