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Lenda de Golem, A

(The Golem, 2018)
6,1
Média
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Críticas

Cineplayers

Reapresentando um mito

7,0

A criatura artificial conhecida como golem talvez seja o exemplo mais icônico da mitologia judaica. Descrito como um ser artificial feito de argila ou pedra, seu nome vem da palavra hebraica gelem, ou “matéria-prima”. Criados a partir de matéria orgânica como os humanos foram criados por Deus, a imitação da criação divina tem como história mais famosa A Lenda do Golem de Praga, que narra o rabino Judá Loew ben Betzalel invocando a criatura para proteger o gueto judaico de Praga contra ataques anti-semitas e pogroms.

A história inspirou inúmeras adaptações em contos, romances, peças de teatro, filmes e outras mídias. Inspirou desde o clássico do expressionismo alemão O Golem - Como Veio ao Mundo (1920) até criaturas do RPG de mesa Dungeons & Dragons e do jogo eletrônico Pokémon. Sua influência também é sentida em outras histórias famosas como o clássico gótico de Mary Shelley Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Ao lado do personagem Clay na série A Ordem, a produção israelense de horror A Lenda de Golem é a mais nova a focar na criatura.

O filme é dirigido pelos irmãos Doron e  Yoav Paz, especialistas no gênero do país e que tem como maior destaque Jerusalém, filme de 2015 sobre o apocalipse bíblico. Agora, dirigem o roteiro de Ariel Cohen, segunda obra que assina após escrever e dirigir o drama de isolamento Take Mama (2011), e o resultado da união é um filme que se encaixa no que conhecemos folk horror, ou horror folclórico, uma subtradição do gênero que rendeu tanto clássicos como O Homem de Palha quanto destaques recentes como A Bruxa.

Aos moldes da clássica narrativa de Judá Loew, A Lenda de Golem nos apresenta Hannah, que vive uma vida enlutada pelo filho que perdeu há anos em circunstâncias nunca explicadas e como seu cotidiano depressivo é piorado pela chegada de invasores russos liderados por Vladimir, possesso que sua filha padece da peste bubônica enquanto os judeus da comunidade não têm de enfrentar a epidemia por conta de seu isolamento. Quando a curandeira do povoado recebe a missão de curar a menina ou ter seu povo morto e as casas incendiadas, Hannah, já indignada com o soco que sua irmã grávida recebeu causar um aborto espontâneo, resolve surrupiar o Talmud do rabino local e invocar um protetor do povo hebreu.

Como veremos, apesar do seu início onde um gigante de pedra atenta contra o rabino que o criou, A Lenda do Golem vai mais na cola do terror dos “pactos sinistros” que os personagens assumem sob circunstâncias especiais: pensemos em clássicos como Cemitério Maldito ou O Caso de Charles Dexter Ward. O golem que Hannah cria à imagem e semelhança do menino que perdeu é uma criatura ao mesmo tempo fascinante e aterradora. A monstruosidade de pedra dá lugar a um escravo da vontade e das paixões de sua criadora, que não demora a sair de controle.

Esse caráter ambivalente do roteiro é um dos maiores acertos do filme: praticamente sem nenhum jumpscare - a morte de uma personagem é o mais próximo que temos disso, mas ainda assim incorporado à narrativa -, o roteiro de Cohen explora o ponto de vista de todos os personagens, seja na figura ressentida de Hannah, como a figura conservadora de seu marido, frequentemente horrorizado com os segredos obscuros da esposa, ou até mesmo Vladimir, que apesar de cruel, parece não ter nenhum prazer em seus atos, sendo um antagonista mais desesperado que qualquer outra coisa. Tratado como anima, filho, arma e aberração, o Golem sintetiza os comportamentos que cada personagem ali exibe frente à outro, sendo tanto um algoz quanto um bode expiatório da condição de todos ali.

Mas claro, nem tudo é perfeito. Apesar de acertar no tom de evocar um clima antigo, místico e oculto pela fotografia, seja na paleta de cores algo etérea quanto enquadramentos escolhidos beneficiando mais o suspense da situação, é fato que o filme também carrega um tanto nas tintas melodramáticas, abusando de conversas, closes, música, câmera lenta, chegando muitas vezes no auge da cafonice. Os efeitos especiais evidentemente falsos, gerados por computador, também não ajudam muito, pois são expostos demais em sua imperfeição. Vê-los rapidamente ou apenas uma reação a eles potencializaria a fantasia ao invés de nos distanciar da mesma. Tudo bem o filme almejar muito; mas nesse caso parece não ter reconhecido muito a própria limitação orçamentária.

De qualquer forma, apesar de ter sido divulgado de forma muito parelha aos horrores-pipoca que inundam os cinemas de shopping hoje em dia, A Lenda de Golem é uma tentativa muito honesta e digna, sabendo explorar o drama em meio ao horror e rendendo belos momentos por conta disso.

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