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Lavanderia, A

(The Laundromat, 2019)
6,4
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Críticas

Cineplayers

Filho legítimo de nossos tempos

6,5

Uma anedota recente: na edição de 2019 do Slamdance Film Festival, o cineasta Steven Soderbergh teve que responder a seguinte pergunta de um repórter: “Christopher Nolan (Dunkirk) quer saber quando você irá sair do lado negro da filmagem digital e voltar a filmar em celulóide”. Bem-humorado, o radical pioneiro do cinema independente americano respondeu à pergunta do amigo: “quando Chris voltar a escrever roteiros com lápis”.

Mas é verdade, esse tipo de nostalgia não interessa ao diretor, com fome eterna de inovação. O que Steven Soderbergh ainda não explorou? Lembremos: dramas da classe média (Sexo, Mentiras e Videotape), suspenses (Kafka), biografias premiadas (Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento e Minha vida com Liberace), blockbusters (a trilogia Onze Homens e um Segredo), filmes de crime (Traffic), documentário (And Everything Is Going Fine), comédias (Roubo em Família e Magic Mike) são todos parte do vasto universo explorado pelo cineasta, que também experimenta com novas tecnologias sempre que pode - para o pesadelo de Nolan, o suspense Distúrbio e o drama de esportes High Flying Bird foram ambos filmados em iPhones. Isso para não dizer Mosaic, uma série interativa via aplicativo.

Segunda colaboração do diretor com a Netflix, a sátira política A Lavanderia é um filme típico do diretor - se bem que, como vimos acima, difícil existir algo típico em um universo tão prolífico. Ainda assim, essa sátira política sobre o escândalo dos Panama Papers tem toda a verve de iconoclastia que aprendemos a identificar no diretor, que aqui usa e abusa de uma multiplicidade de pontos de vista e estéticas que deixam o resultado no mínimo curioso.

Aparentado com obras como Queime Depois de Ler e A Grande Aposta, o filme parte de um trágico acidente que vitima o marido de Ellen Martin (Meryl Streep) e cuja complicação em receber o seguro acaba levando-a ao Panamá para descobrir que a firma Mossack Fonseca está criando milhares de empresas de fachada, beneficiadas por flexíveis leis empresariais usadas para atrair investimento e acabam facilitando a construção de uma verdadeira indústria paralela de suborno e lavagem de dinheiro pelas mãos dos contadores e advogados que apagam o rastro criminoso de empresários e políticos corruptos, traficantes dos mais diversos tipos. À época, o próprio presidente Obama disse que o que faziam não era “contra a lei”, mas se beneficiando de leis mal elaboradas.

Toda a situação revoltante é, porém, explorada sob o viés do sarcasmo, com a história contada de maneira semelhante ao filme de McKay, com o conflito do filme sendo explorado pela apresentação e pela narração dos próprios Jürgen Mossack (Gary Oldman) e Ramón Fonseca (Antonio Banderas), que quebram a quarta parede para interagir com o espectador e pontuar. A história sai das mãos de Streep, que fica em segundo plano, e passa a explorar os inúmeros desdobramentos causados pelas ações dos advogados que intermediaram todo esse mar de ações. Como o filme dos Coen, esse compartilha o humor negro e de riso amarelo, onde os personagens sofrem ao enfrentar um mundo gigantesco que falham em compreender.

Talvez como forma de prender a atenção do espectador, A Lavanderia tem um elenco luxuoso, com inúmeras figuras famosas fazendo pontas minúsculas: Robert Patrick, o eterno T-1000 de O Exterminador do Futuro 2: Julgamento Final, aparece pilotando o barco que sofre o acidente no início do filme; David Schwimmer, famoso por Friends e Band of Brothers, aparece checando papéis em uma mesa de bar tentando compreender aquela bagunça; Will Forte e Chris Parnell, famosos pelo Saturday Night Live, são vítimas de traficantes mexicanos. Jefrrey Wright, o Bernard de Westworld, aparece como um inalterável contador que adora roupas coloridas e é preso por corrupção ao mesmo tempo que uma de suas duas famílias descobre sua bigamia.

Todas essas aparições rápidas tornam o filme com um dinamismo acelerado e não parecem transparecer apenas uma ostentação de caras conhecidas; como acontecia com a aparição de Margot Robbie em A Grande Aposta, o mundos dos crimes do colarinho branco é tão complexo que ao que parece, só um casting conhecido percebendo fragmentos de verdade parece capaz de manter o interesse do espectador em uma ficção quando falamos de uma colcha de retalhos sobretudo confusa.

Ao mesmo tempo que podemos chamar de dinâmico, porém, A Lavanderia também é um filme fragmentário; a história tirada de Streep nos leva a narrativas que parecem episódios de séries ou mesmo curtas-metragens que nos mostram episódios absurdos da elite, como quando o milionário Charles é flagrado pela filha transando com a melhor amiga dela e tenta comprar seu silêncio com os “fundos ao portador” de uma empresa milionária (ou seja, o dono de uma folha de papel era dono da empresa). Ainda pode ser citado a dramatização do caso Gu Kailai (Rosalind Chao, de Star Trek: The Next Generation), esposa do político corrupto Bo Xilai que tentou apagar rastros de corrupção matando o empresário britânico Maywood (Matthias Schoenaerts, de Operação Red Sparrow), momento que o filme evoca uma sequência de imagens grosseiras que flertam até mesmo com a estética dos filmes de terror. Isoladamente, são todos momentos interessantes; costurados juntos, patinam em matéria de ritmo, pois a pergunta “o que essa história está fazendo aqui?” pode surgir com alguma frequência.

Como acontece com alguma frequência, filmes com temática política podem cair na tentação de fazer alguma espécie de “justiça social” através de diálogos e monólogos, e é o que acontece aqui; depois de trabalhar de forma cômica e até mesmo grotesca ao investigar a rota do dinheiro sujo mundial, até com certo nível de autoironia (até o roteiro assume que os autores têm empresas de fachada em seus nomes), Soderbergh e Streep entregam uma cena um tanto pedagógica ao seu final, que faz um resumo simplista da complexa situação - ainda que o discurso seja inserido em um momento interessante que questiona a própria encenação daqueles fatos.

Frente à tamanha decadência moral espalhada por todo mundo (até a brasileira Odebrecht, cujos escândalos levaram a prisão de Mossack e Fonseca, é citada nominalmente), é compreensível que o cineasta tenha cedido a um apelo menos racional e mais emocional ao espectador. Tempos quebrados geram obras multifacetadas, e podem chamar A Lavanderia de muita coisa, mas é difícil negar seu caráter inflamado que, no final das contas, o torna um filme que reflete não só o incoformismo formal de seu diretor como também o atual e conturbado estado das coisas dos nossos anos.

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