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Críticas

Cineplayers

As ilhas de Kong.

7,0
A primeira fala do filme Kong: A Ilha da Caveira, depois de seu prólogo na Segunda Guerra Mundial, é dita pelo personagem de John Goodman enquanto ele desce de um carro, em 1973, sob os gritos manifestantes que exigiam, em frente à Casa Branca, o fim da Guerra no Vietnã. “Nunca vai haver uma época mais ferrada do que esta em Washington”, diz o personagem. A ironia dessa fala é um dos primeiros sinais do comentário político a que o filme se propõe.

Ambientado, em sua maior parte, nos dias que seguem a rendição americana no Vietnã, o filme constrói seus personagens à sombra da guerra perdida. É embriagado pelo rancor da derrota que o general Preston Packard (Samuel L. Jackson) comanda a expedição sugerida ao governo americano pelo geólogo Bill Randa (John Goodman), que alega estar interessado na natureza peculiar de uma ilha não colonizada no Sul do Pacífico. Juntam-se à expedição um rastreador free lancer (Tom Hiddleston) e a fotógrafa de guerra Mason Weaver (Brie Larson).

Obviamente, a Ilha se revela mais do que parece ser. Nela, habitam Kong, mais um conjunto de animais gigantes e John C. Reilly. Logo, o lugar se torna para os personagens como uma continuação do Vietnã. Surge ali a oportunidade de recuperar o sentido da Guerra; e Packard se agarra a essa oportunidade, reafirmando sua responsabilidade de acabar com “o monstro” antes que ele alcance o mundo fora da Ilha, mesmo que Kong esteja completamente alheio à existência desse mundo.

O filme nos convida repetidamente à comparação do conflito contra Kong àquele do Vietnã. Essa metáfora é trazida pela fala dos personagens, que eventualmente conversam sobre a natureza da guerra; pela estrutura narrativa do filme, que opõe, por exemplo, a fotógrafa pacifista ao militar rancoroso; e, também, pela sua imagem. Não poucas vezes, a fotografia do filme coloca Kong à frente do céu alaranjado que conhecemos tão bem por filmes como Apocalypse Now, e as batalhas do exército americano são acompanhadas com cores quentes, um aspecto tão particular do imaginário que se criou sobre o Vietnã que é notável até mesmo no cenário da peça musical Miss Saigon.

Seria interessante, no entanto, observar como o filme, mesmo estando tão envolvido na sua metáfora — e com razão, afinal é uma ótima metáfora — e no seu discurso pacifista, funciona como filme de guerra/ação e segue rigorosamente a cartilha do que se espera do gênero. Ou seja, como um filme declaradamente pacifista em seu discurso opera dentro do que se espera do gênero de ação.

Este, ainda mais, é um filme que se apoia muito em suas sequências de ação e que pega emprestado dos filmes de guerra alguns vícios e clichês, como o comandante carismático e cego de ódio, a comoção por soldados que não conseguem voltar para casa e o uso constante de artifícios como bombas, urros masculinos e tiros de metralhadora. Não resta dúvida de que Kong: A Ilha da Caveira aplica cada um desses recursos de seu gênero para cumprir com o que se espera de um filme de ação. Essa já é uma promessa, aliás, feita pelos letreiros estrondosos que antecedem o filme numa sala Imax (o tipo de espaço onde ele claramente foi concebido para ser visto): “Prepare-se para sentir o impacto, para a imersão total”. Como, então, cumprir essa promessa sem abrir mão do discurso pacifista?

Não é um problema que o filme resolve com facilidade. Algumas vezes, parece que a ação do filme é cuidadosamente aplicada a favor de seu discurso — como, por exemplo, ao observar à ação a partir de como ela é vivida por Kong. Outras vezes, o filme parece estar se apoiando demais na excitação que a destruição e os esmagamentos causam no público para sustentar sua tese pacifista. São os frutos da negociação entre o comentário político de Kong e o gênero cinematográfico a que pertence. E ainda que as contradições que surgem daí sejam a fraqueza do filme, esse parece o tipo de conflito que o cinema de gênero em Hollywood terá que enfrentar nos próximos anos. E é realmente fantástico testemunhar isso na tela grande.

Comentários (8)

Alexandre Koball | segunda-feira, 13 de Março de 2017 - 07:38

Realmente a obra de 33 não deve ser superada (Jackson chegou perto com seu filme-homenagem, mas por definição não conseguiria superar). Aqui parece um filme super divertido de monstros.

Samuel Otávio | segunda-feira, 13 de Março de 2017 - 14:48

É uma lindo fime do Kong, sim, seu bando de hipócritas! Kong está belíssimo, um baita de um Rei. Nota 10. Filmão. E faz jus à figura de King Kong.

Parem de mi mi mi, por favor.

DEMETRIO ISLAUSKAS DEMOSTENES IVANOFF | sexta-feira, 24 de Março de 2017 - 15:03

Vi Kong. Bobinho. Aqueles filmes em que deve-se deixar o cérebro junto com o chapéu e a bengala, antes de adentrar na sala de projeção...Por falar nisso, já é tempo de se obrigar esses eatabelecimentos a possuirem uma chapelaria. Ainda que sejam poucos os que fazem uso desse expediente, a atual produção de filmes, parece (culpa do rock com certeza)que não quer que precisemos entrar com o cérebro.

Luiz Fernando de Freitas | sexta-feira, 24 de Março de 2017 - 16:36

O filme me desapontou bastante, lembrando em vários momentos a limitada versão de 76 do personagem (só que pior). O roteiro é vazio e os personagens unidimensionais e a direção apesar de estilosa, é fria e distante do espectador. O público tem que ter um mínimo de simpatia pelo personagem para um filme como Kong funcionar, o que não acotece aqui, infelizmente. Ainda assim o filme tem um visual caprichado, cenas de ação e efeitos visuais realistas e alguns momentos de humor que funcionam. John Goodman é o melhor do elenco também, o que não quer dizer muita coisa afinal.

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