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Críticas

Cineplayers

Peter Jackson continua fazendo filmes impressionantes.

9,0

Era evidente que após ter dirigido com a trilogia “O Senhor dos Anéis”, os filmes mais lucrativos, comentados e premiados dos últimos tempos, qualquer projeto de Peter Jackson viria acompanhado por uma imensa expectativa. O público e a crítica querem a todo momento testar a competência dos diretores e ignoram que cada produção é um exercício completo e único. “King Kong” é sim um trabalho muitíssimo competente, mas superior a isso, é uma prova concreta e excitante da paixão de Jackson pelo ofício cinematográfico. Faltam cineastas assim, que se jogam fervorosamente em um projeto, (seja por idealismo ou por ambição financeira - por que a hipocrisia?), que estão presentes desde a primeira linha do roteiro até o último detalhe visual, que lutam pela realização de seus objetivos, que enxergam o cinema como discussão, como arte ou como mero entreterimento (faceta que muitos intelectualóides segregam, mas que está na base do conceito cinema). Esse tesão caracteriza o verdadeiro cineasta, o verdadeiro criador e faz pessoas como Peter Jackson realizarem projetos tão superlativos como “King Kong”. E é ele também que nos faz redimir seus eventuais tropeços.

Jackson não admite que “King Kong” coube como uma luva para o firmar como o novo grande diretor de blockbusters, que serviu perfeitamente para a Weta propagandear os seus avanços em tecnologia e se esconde atrás de uma história na qual o grande sonho de sua vida era homenagear e reciclar o grande clássico de 1933, que andava meio mal visto depois da abominável versão dos anos 70. Não acho que isso seja uma mentira deslavada, mas o fato é que ele soube muito bem escolher um projeto que ao mesmo tempo que o possibilitasse exercer toda a sua imaginação e capacidade de manejo com personagens, também tivesse forte apelo comercial e popular. 

O que mais impressiona em “King Kong” numa olhada rápida é a maximização, talvez nunca antes dada, às cenas de ação. A adrenalina demora um pouco a começar a correr, mas quando começa não pára mais e o filme se sucede em ações super vertiginosas com tomadas frenéticas e imprevisíveis. Só o cinema pode proporcionar testemunhos de coisas tão absurdas e surreais e só dentro de seus limites essas coisas fazem sentido. No cinema é aceitável e coerente um gorila lutar contra três T-Rex e um grupo de pessoas se desvencilhar dos pisoteios no meio de uma debandada de brontossauros. Cenas tão extremas como essas costumam gerar reações exaltadas em certos chatos que têm dificuldade em lidar com a imaginação e cobram verossimilhança em tudo. Ora, a proposta do filme é o entreterimento e Jackson é sincero e extremo em relação a isso. Se alguém quiser ver realismo, um filme sobre um gorila gigante não é a opção mais inteligente. Existe sim um certo exagero no filme. Eu, por exemplo, acho desnecessária a cena com os insetos gigantes e excessiva a parte em que dois personagens fogem de Kong pendurados em um enorme morcego (e como essa há outras pontuais situações gritantes), mas depois de presenciar o virtuosismo e a beleza de uma cena como aquela do Empire State, me considero indigno de criticar um profissional tão apaixonado, criativo e capaz como Peter Jackson. Acho que desde “O Retorno do Rei” (ora, ora) eu não ficava tão boquiaberto num cinema.

O outro grande alicerce de “King Kong” é o tratamento dado às personagens e aos seus sentimentos. Reclamam muito do arrastado início do filme, mas eu sinceramente não vejo muita coisa que possa ser retirada sem prejuízo da coerência das ações posteriores. Uma boa introdução é fundamental para dar suporte a qualquer ação futura e sem ela, o filme desanda, as cenas ficam soltas – e esse é, geralmente, o grande problema dos filmes de aventura. “King Kong” também não padece de falta de material humano, vide o surpreendente êxito da relação entre Ann Darrow e Kong auxiliada pela competência da criação digital do gorila. O filme joga com uma atração considerada impossível por muitos, mas que se torna palpável e sensível após tanta incompreensão e desumanidade. Foi esse mote meio “A Bela e a Fera” que tornou de o filme de 1933 um clássico do cinema e é esse mote que sustenta e legitima toda essa nova versão. Desde “O Senhor dos Anéis” penso que o grande trunfo de Peter Jackson é a sua capacidade de intercalar a ação mais tresloucada com vôos rasantes sobre os sentimentos e conflitos das personagens (e sempre com lindas e inesperadas passagens). É esse o seu diferencial. E aqui estão dinossauros e canibais misturados a cenas de vaudeville na selva e esqui romântico no gelo (outra cena belíssima bombardeada pelos chatos de plantão).

Poderia falar da competência do elenco, da trilha adequada ou  da a fantástica direção de arte, mas um texto é muito pouco para abarcar todos os detalhes de um filme tão grandiloqüente. Certos filmes são tão máximos ao que se propõem que só a experiência de os assistir traduz com fidelidade as suas qualidades. “King Kong” é desses filmes máximos que elevam ao topo as suas potencialidades e Peter Jackson é desses verdadeiros cineastas, que visivelmente se esforçam na obtenção do imprevisível, do além. São esses filmes e esses diretores que são verdadeiramente adorados ou odiados (é impossível agradar a todos) e são esses que permanecem como marco de uma categoria. Posso estar sendo levado pelo calor do momento, mas creio sim que “King Kong” é um marco e um parâmetro para o novo cinema de entreterimento e que Peter Jackson é indubitavelmente o seu maior expoente.

Comentários (1)

Luiz Fernando de Freitas | terça-feira, 21 de Outubro de 2014 - 11:31

Ótima crítica. Concordo com 90% do que você escreveu, e concordo quando diz que filmes como estes são raros no cinema comercial atual e Jackson um dos seus principais expoentes. A cena da "dança no gelo" e a do "pôr-do-sol" estão entre os momentos mais belos e emocionantes do cinema. O meu filme favorito do diretor ao lado de 'O Retorno do Rei'.

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