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Críticas

Cineplayers

Redundância jurássica.

5,0
Colin Trevorrow recauchutou a franquia Jurassic Park com Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros do jeito mais óbvio possível. O tanto que acusaram Star Wars -  Episódio VII: O Despertar da Força estar por demais ancorado, em sua estrutura narrativa, no primordial Uma Nova Esperança, podiam ter salvo um pouquinho da munição para criticar Trevorrow por fazer uma versão megalômana no orçamento e precária de resto do clássico Jurassic Park de Steven Spielberg. A inevitável continuação Jurassic World: Reino Ameaçado até tenta se descolar do esquema “jogo ganho”, mas é ao mesmo tempo tão calculado e paradoxalmente tão atrapalhado que não escapa da sensação de “mais um”.

O filme tem a premissa básica de todo filme da franquia: alguém tenta levar um empreendimento de dinossauros para frente e algo dá errado. Não deixa de ser engraçado isso acontecer no mesmo universo - mais ou menos como Paul Kersey continuar se casando em Desejo de Matar - mas todo filme do gênero precisa de um mínimo de suspensão de descrença, não é mesmo? E J. A. Bayona - de O Orfanato,  O Impossível e Sete-Minutos Para Meia-Noite traz um olhar mais dramático para o filme. Um olhar dramático muitas vezes à beira do dramalhão, mas que até tem seus momentos. 

Dessa vez, o roteiro também tenta algo diferente: a Ilha Nublar é vítima de um vulcão ativo em erupção e cabe a Claire Dearing e Owen Grady salvar os dinossauros após uma proposta de Benjamin Lockwood, um dos fundadores do parque ao lado de John Hammond. Benjamin é também avô da adorável Maisie Lockwood, uma menina curiosa e chefia Eli Mills, que gerencia os negócios do milionário e que possui alguns segredos que serão revelados ao longo do filme.

O filme é ambicioso nesse sentido, almejando uma estrutura de grandeza e moralidade praticamente bíblicas. A Ilha Nublar, fruto do erro dos homens, explodem e os dinossauros são transportados dentro de um grande navio (referência mais óbvia impossível) para ficar a mercê da ganância e maldade humana, caso do mercenário Ken Weathley, unidimensional e cruel que só ele, que se diverte arrancando dentes de dinossauros desacordados para um colar. 

Temos então um filme com dois atos bem distintos - a escapada da Ilha Nublar e a subsequente salvação da maldade dos homens, quando o refúgio na mansão de Lockwood revela segredos sombrios, incluindo aí o doutor Henry Wu e a criação de um monstro ainda mais terrível que o Indominus Rex visto no filme anterior. Mas ao tentar sair da zona de conforto do anterior tirando os dinossauros da ilha, também tropeça bastante em algumas armadilhas fáceis. Quando o ancião Benjamin diz sobre os cientistas tentarem “correr antes de aprender andar”, parece estar falando sobre o próprio filme. Reino Ameaçado não quer ser Jurassic World, mas não sabe muito bem como ir além disso.

O filme não trabalha lá muito bem. Não há um conflito central ou mesmo um antagonista, mas um conjunto das duas categorias. Reviravoltas são disparadas a torto e a direito (a Hollywood atual implora pelos tais plot twists, por mais esvaziados que os mesmos sejam). O tal “Indoraptor” é completamente secundário na trama e o pobre e icônico Tiranossauro Rex só aparece para chamar os incautos para dentro do cinema. Pior do que apanhar de dinossauro anabolizado, aqui ele só aparece em pontas curtíssimas e oportunistas. 

Fora os monstros digitais, o elenco humano continua sendo um mero pretexto para pular de cena de dinossauro saindo no braço (ou na mordida, no caso) para a próxima. Owen Grady, bem, é Chris Pratt. E Chris Pratt, depois que estacionou no estereótipo do “adorável cafajeste” não conseguiu sair dali. É um Peter Quill domador de raptores no mesmo nível que Peter Quill é um Owen Grady com uma nave invocada e pistolas de laser. O carisma funciona com alguns, pode irritar outros… E pode soar redundante com o tempo também. Claire Dearing, que recebeu críticas pelo estereótipo de “mulher fútil/frágil” representado pelo primeiro filme, agora é valente, participa ativamente dos combates, se machuca e é imensamente mais voluntariosa de um filme para o outro. Não parece um desenvolvimento propriamente falando. Parece apenas outra personagem. 

O resto é pouco explorado e “uma nota só”, se encaixando nos estereótipos preguiçosos do blockbuster: o nerd covardão, o mercenário sádico, o homem de negócios corrupto e inescrupuloso, por aí vai. Não dá para analisar além de que cabem no arquétipo no limite da caricatura, e apesar de não sentirmos empatia ou raiva especialmente por nenhum, o filme joga qualquer tensão para longe quando na segunda ou terceira oportunidade percebemos: quem comete atos ruins se dá bem em um primeiro momento e depois vira presa fácil, enquanto quem tem boa índole está salvo sem muito esforço. Ponto final.

Grande blockbuster de sua época, Jurassic Park era imbuído de suspense em sua estrutura. A premissa de “a vida encontra um meio” de Chrichton não demorava a se deslanchar e cenas como a que o Tiranossauro Rex aparece em toda sua majestade ou a perseguição às crianças na cozinha por parte dos raptores fazia com que o elenco humano estivesse em um jogo de gato e rato. Os personagens corriam risco de serem atropelados, pisoteados, mastigados… Lá pelas tantas, é notório que uma criança é eletrocutada por uma cerca elétrica ao tentar uma escalada sem equipamento nenhum. Sinal que nos anos 90 mesmo o blockbuster se permitia a correr alguns riscos? Talvez.

Além de uma história indecisa, com raros bons momentos, é justamente essa falta de choque entre idealismo versus corrupção e homem versus natureza. Quando investe na própria questão que o doutor Ian Malcolm adverte, em participação minúscula de Jeff Goldblum, até arranca bons momentos, como quando um gigantesco Braquiossauro testemunha a partida do navio e é alcançado pela cortina de fumaça e é visto pela última vez em contraluz. Um belo momento que um engessado Bayona conseguiu inserir ali no meio dos pedidos de mais dinossauros com mais dentes, mais espinhos e mais berros e que no final das contas demoram para aparecer e vão embora com a mesma facilidade. 

Pena que também desperdice tempo com discursos clichês, dinâmicas de relacionamento que existem porque sim e sacrifícios irracionais, supostamente “para emocionar”. A própria existência da hiperinteligente, empática e heróica raptor Blue em si já tira qualquer motivo para se preocupar: tirando os híbridos, dinossauros nesses reboots só comem ou tentam comer gente ruim e ponto final. Como o filme conseguiu ter mais de duas horas sem nenhum ponto de tensão, vai entender. Ou melhor, é bem explicado: dando uma guinada de 90 graus na história a cada dezena de minutos. É sobre a Ilha Nublar, é sobre a Mansão Lockwood, é sobre o vulcão, é sobre os negócios escusos dos vilões… O excesso é ruim. É tanta coisa que no final tudo junto não significa nada.

Provavelmente essa crítica está comparando demais o novo filme com primeiro Jurassic Park. Nostalgia? Pode até ser. Mas também exemplifica como Spielberg usava dispositivos narrativos com uma inteligência na composição da aventura e do suspense que Trevorrow e Bayona jamais esboçam com a mesma firmeza. Competindo em matéria de custos de produção com a Marvel, Star Wars e 007, também muitas vezes é de segundo escalão como nos piores momentos desses, esbanjando uma completa falta de esforço mesmo para testar novas abordagens. Se pra você Jurassic Park não basta no filão dos mundos perdidos e quer algo depois disso, prefira de longe Kong - A Ilha da Caveira, muito mais louco, escrachado e perigoso do que esse filme que, muito bem lembrado por alguns, parece mais Em Busca do Vale Encantado do que propriamente Jurassic Park.

Comentários (1)

Alexandre Koball | quarta-feira, 19 de Setembro de 2018 - 07:24

Por momentos, é um verdadeiro (e bom) filme de terror. E o clímax é tão clímax quanto o dos últimos Vingadores, uma verdadeira reviravolta e traz muitas possibilidades futuras (que, se seguir o padrão, serão desperdiçadas).

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