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Críticas

Cineplayers

O (problemático) filme motivacional da vez.

4,5
Hollywood se consolidou através de mais de um século de cinema se valendo não só de uma diversidade de modalidades e ambientações para explorar narrativas - com a ideia do filme de gênero sendo cultivada desde a mais tenra idade da indústria cinematográfica -, mas também se especializando em contar histórias que dialogassem com as novas relações sociais que surgiram ao longo do século vinte.

Uma das principais modalidades que atraíram o grande público que se formava à época - a população de grandes metrópoles, predominantemente industrial, fidelizada a partir das feiras de atrações - foi o melodrama de pioneiros de D. W. Griffith, tirando do romance burguês a ideia de organizar as histórias centradas no desenvolvimento de conflitos pessoais de seus protagonistas, utilizando de progressão psicológica e emocional em suas narrativas individualistas. As temáticas invariavelmente abordam costumes e contextos sociais que afetam diretamente seus protagonistas, que têm de enfrentar um calvário para atingir a catarse. 

Joy: O Nome do Sucesso (Joy, 2015), novo fruto da parceria entre o cineasta David O. Rusell e a atriz Jeniffer Lawrence, serve de maneira quase didática para mostrar como o melodrama atravessou os tempos como um formato tão popular de se contar uma história e a força da “cartilha” do melodrama norte-americano, um conjunto de construções dramatúrgicas e imagéticas típicas. É o que define o gênero cinematográfico como um horizonte de expectativas - as possibilidades já esperadas por quem já viu mais de uma obra destinada ao mesmo filão. 

E a história da empreendedora de sucesso Joy Mangano tem todos essas possibilidades esperadas para se narrar algo nesse modelo - mãe, trabalhadora, dona de casa, divorciada, cheia de sonhos e vinda de uma família disfuncional - que ironicamente o próprio Russell inicia seu filme recriando uma típica novela soap opera dos EUA. Vemos três atores em preto e branco conversando em tom exagerando, declamando revelações bombásticas acompanhadas de música dramática.

Esse início paródico que poderia ser quase um comentário não só à televisão americana, mas também aos próprios estúdios de cinema que encomendam muitos filmes do tipo todos os anos - a maioria fadada a parecer demais entre si - parece logo se desfazer. A paródia do início é quase um prenúncio (ou como é nomeado tal mecanismo narrativo, “foreshadowing”) do que está por vir. 

Sim, porque a cinebiografia em questão frequentemente é exagerada, sofrendo de um drama de mão pesada, frequentemente fora de controle - os personagens constantemente gritam, choram, esperneiam e têm suas cenas guiadas por música, reconstruindo frequentemente o que vimos nos primeiros minutos, sob a perspectiva da classe média-baixa americana. Pouco sutil, a execução do filme também enche seus personagens de diálogos explicativos e pouco naturais, além de administrar de maneira artificial os desenlaces da trama.

Alguns recursos e momentos podem exemplificar o que foi afirmado acima. O filme é narrado pela avó de Joy, que sempre vê a neta com bons olhos e deposita a confiança na protagonista quando a mesma tem a ideia que mudaria tudo: pedindo dinheiro emprestado da namorada do pai, desenvolve um esfregão que torce sozinho - com a maior dificuldade sendo vender o produto na televisão. A narradora em voz off sempre ressalta as características positivas da protagonista, podendo ser vista dentro de quadro frequentemente ao fundo da cena, reagindo às vitórias e derrotas da figura central.

E há o contraponto a essa figura, o pai de Joy, interpretado por Robert de Niro, homem amargo e explosivo conformado com a pequena oficina que possui e que vive de encontro às cegas com mulheres de sua idade. Frequentemente arrasando com a filha na frente de outros, completa com a avó os dois personagens que mais exercem a clássica figura do coadjuvante no melodrama: o observador.

O melodrama forma o tempo todo triângulos de protagonista, antagonista e a figura de fora, que sempre sentencia o julgamento do espectador sobre o conflito e as ações, comenta sobre o que a cena se trata, e como é um personagem menos desenvolvido, é nossa forma mais fácil de “imergir” na história, já que temos um ponto de referência e identificação. Mas da forma como é dirigida no filme, os personagens parecem mais simples “mecanismos” de narrativa do que elementos integrantes de uma narração.

Usados como mecanismos narrativos, as ações (tanto ativas como passivas) desses personagens são os caminhos ou as muletas para fazer render a saga de Joy em levar o seu produto à televisão. Quando Joy não consegue algo, uma alma caridosa estará lá para tomar uma atitude empática e construtiva. Quando consegue, os “vampiros emocionais” de sua família irão surgir para inserir mais obstáculos no caminho.

Preso nisso, o filme pouco consegue aproveitar seus momentos positivos - o personagem da mãe, fonte de comicidade, tinha grande potencial para tornar o filme um grande comentário sobre a cultura de massa e sua relação com desejo de uma vida emponderada e a concretude de ter que lutar por isso (quando o faz em pouquíssimas vezes, o filme tende a crescer). Além da filha, a mãe de início caricatural é uma das poucas com missões e questões próprias, além do produtor televisivo que mostra a verdade para a protagonista por trás da “vida de sonhos” vendida na televisão -  como um espelho da mãe, mostra como é difícil vender uma vida fácil para pessoas que nem a genitora de Joy, que aprende aos poucos a desligar-se da ilusão de realidade para lidar com questões pessoais.  Mas fora isso, todos os outros orbitam e são subordinados à personagem de Lawrence.

Em um terceiro ato especialmente ruim, Joy se alonga de forma desnecessária; a questão dos manufaturadores dos esfregões volta de forma abrupta onde o filme já se encaminhava para um desenlace, esquecida há dezenas de minutos pelo roteiro - que então se preocupava com o início da carreira de vendedora televisiva de Joy Mangano, interrompendo esse arco para voltar a uma questão antiga, imputar de forma inesperada o maior desafio do filme e finalmente, resolver de maneira apressada e descomplicada o que seria o clímax. Não há nada de Deus ex machina, a tal solução mirabolante que resolve os filmes; da maneira tão simplista que surge, o filme parece precisar acabar sem poder - ou fazer questão - de aprofundar a luta de seu terceiro ato. Ele surge e se resolve, e é basicamente isso.

Mas Joy não deixa de ter questões interessantes, ainda que mal aproveitadas. A mídia que consumimos como um mecanismo tanto de alienação quanto de libertação da vida cotidiana é abordada de maneira problemática, na velha história do “underdog”, ou “azarão”, personagem típico de muitas histórias que aprendemos a gostar de ver sofrer para que então possa ascender, acompanhado de muita música que dá o tom do que devemos sentir  - feliz, triste, perigosa - e composições visuais que aprendemos a reconhecer tão bem quanto a música - as imagens de arquivo com câmera manual, os flashbacks com fotografia suave, os travellings deslizantes em sequências musicadas… Sempre com um efeito específico intentado, nos sugerindo de maneira pouco criativa o afeto que criaremos com o momento em si.

Essa abordagem é problemática por ser esquemática, de conceder a noção de anteceder os fatos de uma maneira que soa repetitiva, pouco vigorosa, dando o nó final de maneira bastante sem fôlego, basicamente parando de contar em cima do ponto onde tudo se resolve. Sim, muitos outros filmes tentaram isso, e aí que o filme pouco faz para elevar-se acima dos outros. Não trazer novidades, como se o espectador funcionasse quase como “programado” por uma “estratégia” que sempre o levará ao mesmo caminho. Nós já vimos Joy antes, com outros nomes, outras caras, outros motes - e esse é o problema:  já vimos até demais.

Comentários (22)

Matheus Johan Darswik Rodrigues Barbosa | domingo, 07 de Fevereiro de 2016 - 19:53

Se fosse motivacional,teria outra temática campeão,recomendo assistir o filme diversas vezes e parar com a soberba em seus textos.

Marcelo Cardoso Queiroz | domingo, 07 de Fevereiro de 2016 - 20:08

Soberba? Cara, até concordo com você no quesito do filme ter esse viés biográfico, mas ele não deixa de ser motivacional. Como os feel good movies, ele tem uma vertente mais de recrutar, de fazer acontecer. É um filme exemplar da vida de uma pessoa, mas que não deixa de ser um exemplo pras pessoas se espelharem na Mangano. Seja nela, seja no Jobs, buscamos inspirações. A colocação do Brum não é equivocada não, Matheus. Vamos tomar cuidado e analisar melhor, grande Darswik 😁

Bernardo D.I. Brum | segunda-feira, 08 de Fevereiro de 2016 - 03:46

Oi Matheus, continuo não te respondendo, passar bem. 😉

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