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Inocência Roubada

(Les Chatouilles, 2018)
5,7
Média
3 votos
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Críticas

Cineplayers

O passado convertido em mágoa e dança

5,5

A diretora e atriz Andréa Bescond leva parte de sua vida ao cinema em um filme que discute abuso sexual na infância de uma maneira bastante autoral, com transições de cena fluentes que proporcionam ritmo e reflexões sobre o papel da dança, paixão e profissão da protagonista e também da realizadora. A obra estilística de Bescond – que também atua aqui – e de Eric Métayer, com quem divide a direção, é íntima e urgencial.

Em Inocência Roubada, um homem bastante próximo de uma família arruinou o tempo de criança de uma garota de 8 anos de idade, Odette, que ouviu o convite para brincar de cócegas, algo que inocentemente aceitou prontamente sem conhecer a dimensão real daquela oferta. Muitos anos depois, a mulher que reprimiu a infância traz tudo à tona durante sessões de terapia, onde revisita tudo que viveu e finalmente toma coragem de ir atrás de justiça.

A dança dá contorno ao filme e mistura passado e presente. Parece um filme de duas personagens em diferentes épocas, com linhas temporais que se cruzam graças a escuta da psicóloga. O passado é acessado devido aos relatos íntimos em meio às sessões cheias de associações.  A formulação do universo recordado acontece de uma maneira envolvente, com a vítima observando tudo o que lhe aconteceu, acessando quase presentemente os passados com o desejo de interferir e se tirar dos locais os quais sofreu as violências sexuais. Trazer Odette adulta assistindo-se vivenciando os ataques é o que narrativamente o filme oferece de melhor.

A abordagem do pedófilo é absolutamente repulsiva. Nem é preciso exposição para causar desprezo por parte do espectador – uma cena em um carro é particularmente hedionda. Enquanto representação, uma porta rosa fechada no quarto da menina, no tempo que o silêncio toma conta, dá real dimensão ao sofrimento que esta deveria estar sofrendo, deixando o espectador aflito com a própria imaginação do que se passava lá dentro.

De maneira similar a Mistérios da Carne (2004), a obra procura dimensionar todo o caso a partir de simbolismos. Não é tão feliz quanto o brutal filme de 2004, mas é suficientemente eficaz, tratando a imagem com sinestesia. A dança é o local o qual Odette tem controle sobre si, também é o local que assume seu corpo como seu e nele só toca quem ela permitir.

Andréa Bescond encontrou sua forma de falar de abuso sexual. Faz lembrar a maneira a qual Valérie Donzelli encontrou pra falar de câncer em A Guerra Está Declarada (2011), pérola do cinema francês contemporâneo. O cinema e suas possibilidades oferecem oportunidades para se falar de qualquer coisa, de qualquer jeito que se deseja.  Assim, Bescond se revela bastante imaginativa e pouco interessada em discutir aplicadamente o caso esmiuçando o assunto.

Certamente não é um trabalho primoroso. Contém cenas coreografadas que soam banais e quase nos tira do filme, fazendo-o parecer apenas um ensaio filmado, mas ao menos é íntegro no que propõe. Há momentos que mais parecem sonhos, estes que poderiam ser explanados em sessões de análise como supostas manifestações inconscientes. Devaneios e psicanálise.   

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