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Críticas

Cineplayers

Inflamado, provocante, atual e necessário.

9,0
Nascido em Atlanta em 1957, Spike Lee iniciou sua carreira em meados dos anos 80 para tornar-se um dos diretores mais provocativos do mainstream hollywoodiano. Seus filmes inflamados trazem um grande debate político sobre racismo, e o cineasta fez parte da geração que utiliza de certos recursos de estilo e construção referencial popular de maneira propositalmente exagerada e anti-ilusionista, que escancara o discurso como parte indissolúvel da forma. Faça a Coisa Certa talvez seja o exemplo mais forte e icônico até hoje desse cinema singular.

Após mais de uma década sem projetos ficcionais relevantes, Lee parece ter encontrado nova motivação com o cenário conturbado na política atual americana com seu novo filme, Infiltrado na Klan. Inspirado em uma história real, o filme conta a história de Ron Stallworth, o primeiro policial negro da delegacia de Colorado Springs. O feito mais surpreendente de sua carreira foi, através de telefones e do colega Flip Zimmerman, infiltrar-se na Ku Klux Klan e ser até considerado para liderar a seção local da organização liderada em escala nacional pelo político David Duke.

Mesmo sendo biográfico, Lee continua conseguindo inserir seu estilo inimitável, que vale a suas obras o crédito de introdução “A Spike Lee Joint”: aos moldes do caldeirão explosivo de Faça a Coisa Certa, o filme ao mesmo tempo reparte comédia ácida e drama visceral, com boa parte de ambos se dando justamente por questões identitárias: tanto é engraçado, de um jeito desconfortável, que os racistas da Klan achem que o homem do outro lado da linha é um genuíno ariano branco, como causa vários impactos dramáticos ao abordar como o racismo é estrutural, mostrando, ao longo do filme, que membros de Forças Armadas, políticos e outras figuras de alto escalão pertencem à escabrosa organização. 

E para um filme que aborda uma ferida tão aberta, Lee entrega um filme que formalmente também é explosivo: as técnicas desestabilizantes que usa em seu cinema-palanque vão desde a ilustração das referências das conversas com imagens estáticas, a sobreposição de rostos em um mesmo plano ouvindo discursos, os personagens que dizem duras verdades para a câmera em close e até mesmo o seu tradicional movimento dolly com o personagem, que desloca o ator em cima de um carrinho com a câmera fazendo parecer que o ator “flutue” pelo ambiente. Como dito anteriormente, Lee pode fazer um filme biográfico, mas escancara a construção, as motivações, o filme-fora-do-filme. O diretor explicita com frequência, através dessas técnicas, que sua ilusão e sua encenação não são para esquecer do mundo, mas, antes, promover a reflexão e a ação sobre o mesmo.

Nem por isso o diretor esquece na sua reconstrução de conduzir seu drama com momentos cômicos da forma mais necessária possível. Topher Grace interpreta um David Duke como se imagina um político da KKK: comunicativo, simpático, mas também detestável e monstruoso como um “fanático civilizado” em oposição aos grosseiros psicóticos que lidera. Para além do estoicismo digno que John David Washington exibe como protagonista, determinado a sacrifícios pessoais para o bem da investigação, Adam Driver chama a atenção pela performance determinada porém frágil, com os perigos que Flip encara e o preconceito que descobre fazendo com que se descubra, ao longo do caminho, criando uma genuína empatia entre personagem e espectador. Todos personagens fantasticamente bem desenvolvidos.

O grande cerne da empreitada de Lee no terreno da investigação e dos policiais infiltrados está em seu final após o catártico clímax, também um espetáculo na maneira que o diretor cria uma montagem paralela de convenções do movimento Black Power e dos White Power. O diretor, como de hábito, nos lembra que a história de Ron Stallworth e como desmantelou a KKK de Colorado Springs não é apenas uma história incrível e quase inacreditável, mas um problema que, como o filme aponta (como abre com uma cena da Guerra de Secessão em ...E o Vento Levou, as cenas da criação da Klan em O Nascimento de Uma Nação assistida por uma sessão de racistas que bradam e torcem de maneira inacreditável) é atual, tóxico e persistente. O final em aberto desagua em imagens reais e terríveis que mostram que, apesar de todos os progressos, uma sociedade igualitária ainda é algo, infelizmente, distante. 

Essa nota final amarga de Lee adereça o seu cinema furioso e um tom acima a uma cena política conturbada, com a ascensão de lideranças carismáticas, com discursos radicais e que fazem explodir o extremismo de grupos que não sumiram, mas que entraram no armário, misturados à sociedade civil, esperando o encorajamento para marchar por suas visões. Por isso que a história de tantas décadas atrás ainda continua tão dolorosamente atual e Infiltrado na Klan é tão carismático, tão terrível, tão necessário. Uma das maiores criações de um dos dos diretores mais relevantes surgidos nos Estados Unidos no final do século XX. Filme para ainda se comentar daqui a décadas. 

Filme visto no Festival de Cinema do Rio de Janeiro

Comentários (1)

Octávio Ferraz | domingo, 25 de Novembro de 2018 - 12:59

Bom texto. De fato é potente o desenvolvimento dos personagens, sobretudo no que se refere às dúvidas e dilemas destes ante as alternativas de mobilização e de envolvimento (dos não extremistas), mostrando como a consciência política não é uniforme. E, diferente do sentimento difuso de ódio, essa moderação, por ser mais heterogênea, às vezes aparenta indiferença ou omissão, podendo perder a disputa no âmbito institucional e eleitoral.

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