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Críticas

Cineplayers

Marvel e a serialização de seu universo.

3,0

O desenvolvimento do universo Marvel enquanto franquia aparentemente é realizado num esquema similar ao da televisão. Para quem não sabe, as séries de TV possuem um “showrunner”, a mente responsável pela criação e desenvolvimento da história; o “showrunner” possui um staff de escritores, normalmente não mais que 10, cada um escrevendo um ou dois ou até mesmo três episódios por temporada; e cada episódio é dirigido por um diretor cuja função é produzir o mais fidedignamente possível o roteiro previamente escrito. A lógica da TV transforma o “showrunner” no autor (auteur) da obra, e os diretores em mera força de trabalho porque historicamente a televisão americana especializou-se em aspectos narrativos da história, e menos nos visuais. O cinema, por outro lado, sempre foi encarado como uma forma de arte mais elevada e, se nos últimos anos, o artífice da televisão conseguiu superar inequivocamente em termos de história o cinema americano, dificilmente essa superação se dava em termos de imagens e sons. As telonas ainda, até mesmo nos dias de hoje, persistem em ser o centro do que se produz imageticamente na indústria cultural americana.

O problema é que a partir de Os Vingadores (The Avengers, de 2012), e não é coincidência que a Marvel buscou como cérebro de sua mais dispendiosa franquia um estudioso da TV (Joss Whedon), a lógica de produção da Marvel parece mais próxima da televisão do que do cinema: há os cérebros responsáveis pelo desenvolvimento do universo, provavelmente alguns engravatados em prédios altos com sinais de dólar em seus olhos; há os roteiristas, normalmente uns 4 ou 5 (e quando o número de roteiristas creditados é tão alto, pode apostar que existem uns incontáveis anônimos que foram pagos pelo caminho), responsáveis pela criação das histórias de cada filme, e os diretores são incumbidos da missão de reproduzir esse roteiro, aparentemente impossibilitados de investirem esteticamente nos filmes que eles próprios dirigem.

O principal rebuliço ao redor de Homem-Formiga certamente foi o abandono de Edgar Wright da produção. Em meados de 2014, o diretor da trilogia das catástrofes saiu pela porta dos fundos do projeto que desenvolvia (inicialmente de maneira independente, e depois junto à Marvel) desde 2006. Wright, goste-se dele ou não, é um diretor de pegada forte que provou ao longo de sua carreira ser capaz de imprimir marcas pessoais de sua visão de mundo nos seus trabalhos, tendo inclusive dirigido televisão (o seriado Spaced, desenvolvido pela televisão inglesa, em moldes diferentes da americana).

Os rumores da partida de Wright dão conta que as diferenças criativas responsáveis pelo rompimento são particularmente três: a Marvel exigia uma integralização contundente com o universo de suas franquias (especialmente Vingadores); havia também restrições dos estúdios quanto à moral do protagonista (um ex-prisioneiro); e a inclusão, no próprio filme, de outros personagens do universo Marvel. As três mudanças foram supostamente forçadas numa das inúmeras reescritas do roteiro (e de fato, essas questões, que foram anunciadas ainda no ano passado, estão presentes no filme, o que dá certa credibilidade aos rumores), sendo a gota d'água para o diretor inglês.

Minha intenção com certeza não tem a ver com imaginar o filme que Homem-Formiga poderia ter sido com Edgar Wright no controle. Embora eu acredite que o filme provavelmente teria marcas visuais mais idiossincráticas e seria mais moralmente fiel aos quadrinhos originais, tudo que envolve esse tipo de conjectura não passa de especulação. Mas olhar para o fato de que um diretor de renome, amplamente ligado à cultura geek, foi rechaçado pelos estúdios Marvel deixa claro que tipo de filme eles desejam produzir. Wright vem de quase vinte anos de carreira sem colecionar fracassos comerciais. Apesar de Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World, de 2010) não ter atingindo os valores do orçamento, o filme é bastante elogiado pela crítica pelos riscos que aceitou correr.

Uma carreira de sucesso crítico e comercial não foi suficiente para que Wright se mantivesse à frente de um projeto desse porte, pois o objetivo dos estúdios Marvel claramente é dotar seus filmes de um caráter imediatamente serializado, diluindo as articulações artísticas individuais de cada filme em prol do universo como um todo. O esteticismo vigente desses filmes envolve o humor como fio condutor da narrativa e o CGI como a maior potência dramática: aspectos que testificam o fracasso previamente anunciado desses filmes.

Não importa para onde se olhe, a ordem do dia de Homem-Formiga é a bagunça esquecível, um amontoado de cenas e momentos dotados de uma completa falta de personalidade. Não se troca Edgar Wright por Peyton Reed à procura de uma, inclusive. Paul Rudd parece muito preocupado em investir seu carisma para dar ao filme alguma dignidade, Michael Douglas parece francamente meio senil, e Evangeline Lilly tem em mãos uma personagem vergonhosa, e faz pouco para salvar-se.

Logo após sair da prisão, Scott Lang (Rudd) está disposto a viver dignamente para reatar o contato com sua filha Cassie (Abby Ryder Fortson). Como a vida de um ex-presidiário não é fácil e sua ex-esposa (Maggie, interpretada por Judy Greer) pressiona para que ele pague a pensão, Scott planeja um último grande assalto. Depois de passar por dois imensos cofres, ele encontra apenas uma roupa de couro. Ao vesti-la, transforma-se em Homem-Formiga, com a habilidade de encolher até medir alguns milímetros e controlar um exército de insetos. Sob a tutela do Dr. Hank Pym (Douglas) e com a ajuda de Hope van Dyne (Lilly), Scott precisa treinar para controlar os poderes do uniforme e roubar a pesquisa das Cross Industries, que planejam utilizar a tecnologia de encolhimento para fins paramilitares.

As três exigências já mencionadas da Marvel ao roteiro de Wright estão presentes aqui. O Falcão Negro faz uma breve, mas relevante participação (que aparentemente será desdobrada no próximo filme do Capitão América, “A Guerra Civil”, previsto para 2016); os Vingadores são repetidamente mencionados; e o crime responsável por colocar Scott Lang na cadeia foi numa vibe mais Robbin-Hood-tirando-dos-ricos-e-dando-para-os-probes do que descaradamente criminosa de fato. Vamos aos problemas.

Homem-Formiga é um filme de redenção, algo que é explicitamente mencionado várias vezes pelos personagens (o roteiro esforça-se, e muito, para ser o mais explícito possível). O problema é que, em relação ao protagonista, não há o que render. Se ele hackeou sistemas de grandes e corruptas corporações para dar aos mais necessitados, ele já é, em gênese, um herói. Moralmente falando, é claro. Além disso, Lang já tem uma excelente relação com a filha, conturbada apenas pela mãe e padrasto (o policial Paxton, interpretado por Bobby Cannavale), que exigem o dinheiro da pensão. Por não haver motivo para redenção, a construção da estrutura narrativa muito ligada a isso faz com que a jornada de Lang enquanto herói seja vazia e, no final, insatisfatória. Não há corrupção moral no Scott Lang do filme, há apenas uma pequena dificuldade prática de conseguir cumprir com obrigações legais. Não se criam heróis (ou ainda mais super-heróis) por causa disso.

Uma segunda trama ocorre no filme envolvendo a relação de Hope com seu pai, o Dr. Pym. Hope guarda um rancor de seu pai, aparentemente porque ele se recusa em lhe contar a verdade sobre a morte da mãe. Além disso, Dr. Pym se nega em deixar Hope vestir o uniforme de homem-formiga, embora ela seja obviamente muito mais qualificada que Scott, e por isso ela o ressente mais ainda. Por volta da metade do filme esse conflito é solucionado: Dr. Pym esclarece que a mãe de Hope morreu em uma missão, salvando o mundo e etc., e que por isso ele receia deixar que Hope use o uniforme, com medo de perdê-la também. Se essa trama lhe parece fraca, é porque, meu amigo, certamente o é. Não há o menor compromisso do filme em investir efetivamente tempo e carga dramática na construção, desenvolvimento e resolução do conflito particular entre esses dois personagens. A coisa toda discorre num monte de diálogos maçantes e estoicos.

Hope, inclusive, é uma personagem especialmente revoltante, certamente sabotada pelos roteiristas. Embora seja qualificada, inteligente, habilidosa e ocupe um cargo de alta confiança na empresa que seu pai pretende sabotar, ela não passa se um trampolim para que Scott torne-se um pouco melhor em campos que ela já domina, e termina o filme fazendo um par romântico inexplicável com o herói. Ou seja, além dela dar força, perícia e meios para que Scott torne-se um bom super-herói, ela acaba por também lhe dar o sexo. O público-alvo das empreitadas Marvel (homens de até 25 anos) vão, misoginamente, ao delírio.

Eu devo admitir que, à princípio, a ideia de uma certa serialização cinematográfica não me seja absolutamente repulsiva, pois reconduz ao cinema uma força que foi essencial para que ele se estabelecesse como 1. expressão artística autônoma e 2. fenômeno cultural de entretenimento. Repossibilita que a experiência de ir em uma sala de cinema volte a ter algum significado real, coletivamente falando. O problema está na postura da Marvel, atuando como mente-mestre por trás do espetáculo, dotando de um bruto controle absurdo capaz de liquidar as autonomias estético-expressivas de cada filme, pasteurizando o visual e o conteúdo para que, só então, o filme possa figurar publicamente com o selo Marvel de qualidade.

A serialização na televisão funciona, aliás, somente quando o “showrunner” trabalha com um material dramático de qualidade, normalmente retratando a vida de um personagem ou um grupo de personagens enquanto questões ético-morais são questionadas e ressignificadas. Quando não há a menor possibilidade de um confronto apurado de ideias, do ponto de vista estético ou moral, a própria figura do showrunner não tem significado, e a série já nasce inodora e fracassada (exemplos de séries péssimas em redes de televisão aberta nos EUA, infelizmente, são a regra e não a exceção).

Sob esse ponto de vista, até mesmo franquias extremamente poderosas e monetariamente ultra relevantes como Harry Potter ou Senhor dos Anéis se saem melhor: a primeira porque permite devaneios criativos de cada diretor, em menor ou menor grau (basta reparar, por exemplo, em A Pedra Filosofal, de 2001, O Prisioneiro de Azkabam, de 2004, e A Ordem da Phoenix, de 2007 e reparar como cada filme de Harry Potter possui características individuais), a segunda porque a mente-mestre é a do próprio diretor, Peter Jackson, cujo trabalho hoje em dia parece fazer jus ao que é praticado em Senhor dos Anéis (de 2001 a 2003).

Infelizmente, as previsões não são animadoras. A mobilização em torno dos filmes da Marvel parece aumentar e os estúdios mostram uma tendência cada vez maior de integralizar seu conteúdo, utilizando-se do controle ferrenho das etapas de produção para alcançar esse objetivo. Provavelmente já haja captação de recursos acontecendo para filmes que serão lançados daqui dez ou quinze anos e a minha curiosidade a respeito desse fenômeno é cada vez mais intensa. A cada novo lançamento, da Marvel ou de qualquer outra empreiteira, o futuro do cinema enquanto indústria do entretenimento torna-se cada vez mais instável e inseguro, até o momento em que alguma coisa nova surgir, reconfigurando essa nebulosa ordem vigente. Estaremos de olho quando isso acontecer.

Comentários (20)

Victor Ramos | domingo, 02 de Agosto de 2015 - 02:42

Primeira coisa que me veio à mente com essa resposta do Bakunin: https://www.youtube.com/watch?v=qsftTEj-OE4

Vinicius de Moraes | terça-feira, 04 de Agosto de 2015 - 11:32

Concordo com a crítica. Fui ao cinema e consegui exatamente o que eu queria: gastar uns 20 reais e passar umas duas horas vendo um mais-do-mesmo da marvel. Dito isso,foi uma experiência até agradável, embora corriqueira e esquecível.

Rubens Sales de Andrade | segunda-feira, 18 de Janeiro de 2016 - 00:07

Apesar de concordar com alguns pontos de sua critica,achei que exagerou na nota baixa.Gostei de assistir Homem Formiga , ele é superior a alguns filmes mais badalados da Marvel aqui neste site.É um bom entretenimento pra quem gosta de ação e principalmente pra quem gosta dos heróis da Marvel

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