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Críticas

Cineplayers

Construindo uma nova história de origem.

9,0
Vamos lá, só mais uma vez”, diz Peter Parker, ao início do filme Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse, 2018), para introduzir um resumo da sua história de origem. A sua fala indica o que já é comentado fora do filme. Como sabemos, afinal, desde que o filme de super-herói se estabeleceu como um gênero cinematográfico em Hollywood, há quase 20 anos, o personagem já foi adaptado em quatro séries cinematográficas distintas, totalizando sete filmes entre elas, com participação do cabeça de teia em outro dois filmes. É de se esperar que estejamos saturados da história de origem do Homem-Aranha. A piada inicial do filme é então bem-vinda. Sim, só mais uma vez: já conhecemos essa história, precisamos mesmo ser reapresentados a ela?

A brincadeira que essa fala sugere, no entanto, desdobra-se para além da cena inicial. Essa não será a única vez que o filme resume a história de origem do seu herói. Com a trama montada em torno da abertura de um portal interdimensional pelas mãos do terrível Rei do Crime, outras versões do Homem-Aranha vão surgindo: um Peter Parker recém-divorciado, a Mulher-Aranha (ou Spider-Gwen, para os fãs das HQs), o Homem-Aranha Noir, o Porco-Aranha e a garota Peni Parker. Cada uma delas apresenta sua própria história de origem, introduzindo-as da mesma forma: “Vamos lá, só mais uma vez”.

Homem-Aranha no Aranhaverso parece ser um filme sobre a busca por uma nova história de origem para um herói, e um gênero, que já está consideravelmente saturado delas. Não é por acaso que o protagonista do filme não é o amigo da vizinhança com que estamos mais acostumados, Peter Parker, o primeiro e mais famoso personagem a vestir o uniforme, mas Miles Morales, personagem criado em 2011 por Brian Michael Bendis (também criador de Jessica Jones), um garoto adolescente, negro e de ascendência hispânica e que hoje é um dos personagens mais queridos das HQs da Marvel.

Se estamos realmente saturados de histórias de origem e do gênero de super-herói como um todo, nada mais lógico do que navegar por entre as origens ainda não contempladas pelo gênero. O que faz de Miles um excelente personagem, tanto neste filme quanto nas revistas em quadrinhos onde se originou, não é apenas o indício de uma representatividade antes ausente entre os super-heróis, mas o modo como ele nos conduz a uma história diversa, que se distancia de outras, já saturadas, histórias de origem, e de outros, já saturados, personagens.

E o filme nos leva, em sua estrutura metalinguística, para dentro da construção de uma história de origem para Miles. Enquanto cada um dos outros Aranhas proclama o seu “Vamos lá, só mais uma vez”, Miles toma seu próprio tempo na formação de sua história de origem, desdobrando-a às nossas vistas, como as páginas de uma nova revista em quadrinhos. É apenas apropriado que o filme se apresente como uma animação que imita a visualidade das HQs, com referências ao seus quadros, balões de fala e de pensamento e outras referências mais diretas às revistas (Miles, por exemplo, entende que ganhou poderes de Aranha ao folhear a primeira revista do Homem-Aranha, a Amazing Fantasy, n. 15).

A metalinguagem, no entanto, não se limita a esses acenos mais autoevidentes. A animação de Homem-Aranha no Aranhaverso busca ativamente se aproximar da arte dos quadrinhos, seus traços e suas cores. O uso da cor é, de fato, algo que precisa ser destacado sobre o filme. Considerando o cinema de animação, acredito que desde o tempo áureo da animação tradicional não se via um esforço tão bem aplicado à coloração de um mundo fílmico, aproximando o filme de um lugar nostálgico da forma da animação que vimos recentemente, por exemplo, em O Retorno de Mary Poppins.

Homem-Aranha no Aranhaverso já indica ser uma das mais interessantes ramificações do gênero de super-herói. É de se esperar que o filme, como a série Demolidor fez em 2015, abra para o gênero um conjunto de possibilidades antes negligenciadas pela indústria. Enquanto a Marvel avança na expansão, no investimento e no reconhecimento de seu universo principal (Pantera Negra, por exemplo, está às vésperas de uma provável indicação como Melhor Filme no Oscar), são nessas experiências permitidas à margem do gênero que temos as expressões mais interessantes do que ele nos permite. Como a fala inicial de Peter Parker no filme, Homem-Aranha no Aranhaverso está longe de ser a última das histórias de origem, mas nos deixa mais entusiasmados pelas que estão por vir.

Comentários (1)

Alan Nina | quarta-feira, 23 de Janeiro de 2019 - 08:52

Entusiasmados? Sei não, eu já tô saturado.

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