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Críticas

Cineplayers

Sobre a natureza cíclica do tempo.

9,0

Difícil como escrever algo sucinto e sem spoilers sobre um filme rico como Histórias que só existem quando lembradas (Idem, 2011) seria ignorar suas semelhanças visuais e temáticas com outra recente bela jóia do cinema nacional, Girimunho (Idem, 2011). O filme dirigido por Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. apresenta elementos ainda mais característicos do realismo fantástico que inspirou Júlia Murat em seu longa-metragem de estreia, mas é no ensinamento de vida de dona Bastu, sua intimidade com a passagem do tempo e sua lucidez no duro enfrentamento com a morte que o reflexivo Girimunho mais se encaixa com Histórias..., filme ainda melhor que seu “primo” de Minas.

Na cidade de Jotuomba, localizada no Vale do Paraíba, acompanhamos toda a jornada de Madalena (Sonia Guedes), que tem início ainda de madrugada e só acaba quando o sol já está bem fraco, início de noite. Quando essa longa sequência chega ao fim, o fósforo da senhora reacende e somos reapresentados à rotina que a protagonista segue de modo (literalmente) religioso, desde seu “itinerário” pela cidade, à precisão no horário de suas tarefas, que compreende a varredura da entrada de um cemitério fechado, o comparecimento à missa de meio-dia ou aquelas ternas implicâncias típicas de pessoas de idade mais avançada, que aqui têm a hora exata para ocorrer dentro do dia.

Nesse momento, também percebe-se o primeiro grande acerto da filha da cineasta veterana Lúcia Murat (Uma Longa Viagem), que ao lado do diretor de fotografia Lucio Bonelli começa a demonstrar que a lógica do roteiro vai muito além dos diálogos, que mesmo econômicos, em certos instantes são até expositivos demais, dada a amplitude e sofisticação com que Júlia faz uso da linguagem cinematográfica - a câmera, por exemplo, permanece estática na captação das sequências repetidas do dia seguinte, a fim de explicitar a natureza cíclica do tempo na rotina dos habitantes de Jotuomba. Por outro lado, Bonelli nos permite ver tais momentos sob outra perspectiva, filmando novos detalhes no preparo do café por Antônio (Luiz Serra), o que é simples, natural, e transforma o que poderia ser entediante numa experiência fascinante, transportando o espectador àquela cidade fictícia. Sente-se o cheiro do café com açúcar mascavo.

Assim, já é esperado que em algum momento tal rotina seja quebrada por algo externo, e é o que justamente ocorre quando Rita (Lisa Fávero) pede que se hospede na casa da senhora. Ela é jovem, fotógrafa, alternativa, uma hipster fascinada com tudo que vê naquela cidade fantasma em formação, como evidencia o close nos velhos elementos cênicos concebidos pela extraordinária direção de arte. Quando acordada de madrugada pelos passos de Madalena, já de pé para fazer o pão do dia, o “boa noite” da jovem, respondido com um ríspido “bom dia” pela senhora, estabelece sutilmente a dualidade entre aquelas duas mulheres de tempo e cultura diferentes, algo que também fica muito claro pelo figurino colorido de Rita, já que os trajes desgastados e em tons pasteis (que muito dizem sobre a personalidade deles) dos outros personagens quase os fundem com as paredes sujas e cobertas de areia e argila do local, parado no tempo. A forasteira também é fotografada por uma câmera pouco mais dinâmica, e o então impensável travelling que representa seu olhar para a abóbada da igreja ressalta suas diferenciadas ousadia e visão de mundo.

Rita é um extraterrestre naquela cidadezinha, mas sua característica mais estranha é a juventude destoante dos outros habitantes de Jotuomba; é o que infringe àquele povo de idade avançada o resgate de duras memórias, das quais evitam se lembrar em prol da sobrevivência. Proposital ou instintivamente, o povoado vive todo dia do mesmo jeito como modo de ignorar a passagem do tempo (e a efemeridade da vida), e já não surpreende quando o comportamento invasivo da jovem efetivamente resgata lembranças de Madalena, maculando a rotina outrora intacta da senhora, que se torna a Dona Bastu de sua cidade (um personagem tão vivo – ou não – quanto os de carne e osso).

Histórias que só existem quando lembradas não é um filme centrado em diálogos, porém uma dúzia deles são memoráveis – caso do metafórico e explicativo “pão é que nem gente, se não respira, endurece”. No entanto, prefiro os longos silêncios em que a expressividade nos rostos dos atores (exaltam o incrível casting da produção e) dizem tudo o que precisamos saber, como a aversão do povo de Jotuomba a fotos, registros que se restringem aos mortos presentes nos porta-retratos da casa de Madalena – daí, também, a necessidade daquelas humildes pessoas de se maquiar para tirar uma foto ganha significado, como que fosse a fantasia necessária para enganar a morte. Então, quando já no final o carismático Carlos surge como fantasma nas fotos tiradas por Rita, fica difícil pensar que aquele efeito é mera casualidade de um filtro do Instagram, mas uma mostra do quão promissora é a estreia da diretora e roteirista Júlia Murat em longas-metragens.

Comentários (4)

Wellington de Sousa Oliveira | sexta-feira, 06 de Julho de 2012 - 10:55

Pelo que parece então (e tendo visto outras críticas e comentários) esse deveria ser o filme mandado para nos representar no Oscar 2013, se quisermos ter alguma chance. Quero dizer, realmente houve outro filme brasileiro melhor até agora? Que filme o Brasil irá submeter? "E aí, comeu?" ? 😲😕😈

Rodrigo Torres | sexta-feira, 06 de Julho de 2012 - 16:41

O problema é que nem no Brasil ele foi devidamente homenageado, não tendo recebido a devida atenção no Festival do Rio, por exemplo (cujo grande vencedor, 'A Hora e a Vez de Augusto Matraga', ainda nem entrou no circuito comercial), enquanto vence vários prêmios lá fora. Uma pena, pois é um filme excelente.

Henrique André Santana | sexta-feira, 06 de Julho de 2012 - 18:36

Pô, parece muito bom mesmo o filme hein

Agora o dificil vai ser arranjar um jeito pra ver, quer dizer.. ter que esperar

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