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Críticas

Cineplayers

A imagem grita, os personagens silenciam.

4,0

Heli abriu a Competição do 66º Festival de Cannes. É o terceiro longa-metragem do diretor mexicano Amat Escalante, bastante apreciado pelo Festival, visto que estreou seus dois outros longas – Sangre (2005) e Os Bastardos (Los Bastardos, 2008) – na mostra Un Certain Regard. É possível esboçar alguns temas que se repetem em sua obra, como a juventude, a violência, as situações limite, tendo sempre como cenário a sociedade mexicana contemporânea e sua relação com a cultura americana. Essa relação de poder lhe interessa em especial: ele próprio a vivencia intensamente, por ser americano por parte de mãe e mexicano por parte de pai.

A produção de Heli distribuiu um press kit que continha uma entrevista com Escalante. Nela, podemos entender várias das motivações e intenções do diretor. Ainda que informações extra-filme, acredito que sejam interessantes para tentar compreender algumas perguntas e desejos a que Heli tenta responder. Ao longo da entrevista, o diretor coloca, de diversas formas, que ambiciona uma mise en scène naturalista. E, para tanto, lança mão de alguns recursos, como o uso de lentes 50mm (ou mesmo 40mm) – que aproxima a imagem do filme da visão do olho humano; o trabalho com não-atores (com exceção do personagem do pai); e a predominância de iluminação natural por um chefe maquinista vindo do cinema documentário.

“Eu queria que os espectadores mexicanos vissem a realidade de frente”. Escalante se refere aqui à realidade social de seu país: o tráfico de drogas, a corrupção, a violência, o medo e a tensão permanentes. Um cotidiano ao qual ele tem acesso apenas indiretamente. Vemos ali cenários de sua infância, elementos que lhes são familiares (Sangre foi filmado em sua cidade natal e Heli em uma região vizinha). Mas sua relação com a violência é mediada: muitos dos elementos dramáticos foram inspirados em recortes de notícias publicadas e veiculadas pela mídia mexicana. A própria escolha do título pode servir como exemplo anedótico: era o nome de uma criança de 10 anos envolvida em um tiroteio entre sua gangue e a polícia e cuja história foi publicada em um pequeno artigo de jornal. Escalante disse ter gostado da sua sonoridade.

O cineasta parece não levar em conta que seu filme também projeta uma mediação (do espectador com o mundo) que passa necessariamente por um ponto de vista – o seu. Afinal, o cinema, assim com qualquer forma de expressão artística, não nos oferece uma janela transparente para a realidade (para citar aqui uma metáfora bastante corrente). Estamos sempre diante de um olhar, uma perspectiva. Interessaria mais pensar, então, qual é a realidade construída por Escalante ou de que formas a violência é representada em seus filmes.

A escolha de Heli é clara: a frontalidade. O filme busca sua força na dureza do que se vê (que, pretensamente, quer ser confundido com “o que é”). A aposta na força da imagem que escancara a realidade infelizmente não encontra correspondência em seus resultados. Faltam sutilezas e ambiguidades. A impressão é de uma ficção “sociologizante” e é muito simbólico e sintomático que, logo no início do filme, apareça uma entrevista de recenseamento (ou algo semelhante) quando mal começamos a conhecer os personagens.

O filme opta também pela literalidade. Se existe uma vontade de mostrar como a cultura americana impregna a vida dos mexicanos, a direção de arte abusa da Coca-Cola em primeiro plano. Se há um desejo em pensar a naturalidade da violência no universo infantil, somos colocados diante de uma rima visual gritante, em que o movimento de espada de um personagem de videogame é replicado, logo ao lado, por uma criança batendo em um adolescente, numa sessão de tortura. Sem falar na cena intragável do abuso sexual por parte da policial feminina, num ponto do filme em que já estava mais do que claro que as instituições eram corrompidas e não ofereciam possibilidades de fuga.

A vontade de adentrar a dimensão psicológica dos personagens não ecoa nas atuações endurecidas, nas movimentações engessadas. Eles têm dificuldade de se expressar, de reagir às situações e traumas que os acometem. Mas antes que o espectador possa encontrar algum interesse nesse emudecimento, um dos personagens, de fato, emudece. Abordar a realidade por meio da frontalidade e da literalidade pode construir efeitos de verdade e trazer força a um filme. Só não parece ter sido o caso de Heli.

Visto no 66º Festival de Cannes 

Comentários (7)

Carlos Dantas | domingo, 08 de Fevereiro de 2015 - 17:13

"Sem falar na cena intragável do abuso sexual por parte da policial feminina"

Hahaha, como assim? A policial feminina tira os seios pra fora pela pura e simples vontade, e o cara, diante de tudo o que tinha acontecido, decide não fazer nada. Dizer que a policial "abusou" do cara é forçar a barra demais, minha nossa senhora.

Essas feministas são fascinantes.

Lygia Santos | domingo, 30 de Agosto de 2015 - 01:15

"Essas feministas são fascinantes"

Hahaha, como assim? Temos visões muito diferentes do que constitui um abuso sexual. Ok. Isso diz algo sobre mim e certamente diz algo sobre você (quanto incômodo, minha nossa senhora).
Mas, amigo, vamos nos ater à crítica - e ao filme? Vamos ;)

Carlos Dantas | domingo, 08 de Novembro de 2015 - 19:08

Claro, todo homem se sente estuprado ao ver uns peitinhos. Belo raciocínio.

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