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Críticas

Cineplayers

O “jogador-cinema”.

8,5

O diamante branco. A elegância do futebol. El jogador. Gilda. O Príncipe Maldito. São alguns dos “títulos” conferidos a Heleno de Freitas, o primeiro “jogador problema” do futebol nacional. Craque de bola e quarto maior artilheiro da história do Botafogo de Futebol e Regatas, era também encrenqueiro, temperamental e mulherengo. Alvo certa feita de uma crônica escrita por Gabriel García Márquez, também era sofisticado como poucos jogadores fazem questão de ser hoje em dia: era advogado (freqüentemente era chamado de “doutor”), freqüentador da alta sociedade do Rio de Janeiro e sempre andava impecavelmente alinhado. E também tinha um lado sombrio: seu comportamento autodestrutivo e boêmio, que o levou, em 39 anos de vida a conhecer o céu e inferno: além do vício em éter, acabou contraindo sífilis cerebral, que só foi detectada em estágio avançado, e morreu louco em um hospício em 1959, longe de lembrar os dias de glória.

Em Heleno (idem, 2011), o cineasta José Henrique Fonseca, diretor de O Homem do Ano (idem, 2003) e filho do escritor Rubem Fonseca, criou uma cinebiografia que distancia daquelas um tanto condescendentes que se tornaram tendência recentemente no cinema norte-americano e se aproxima mais das mais antigas, justamente duas daquelas que pegaram um personagem controverso e polêmico não para buscar sua redenção, mas sim para desconstruir personalidades absolutamente complexas: Lenny (idem, 1974), de Bob Fosse, sobre o comediante Lenny Bruce, e Touro Indomável (Raging Bull, 1980), de Martin Scorsese, sobre Jake La Motta, o “Touro do Bronx”, um dos grandes boxeadores da história americana.

Heleno, como Jake e Lenny, era mais um desses homens notáveis cujo grande talento e temperamento indomável transcendiam o próprio corpo e a própria vida. Obsessivo por ser campeão pelo time onde se consagrou e se projetou internacionalmente, o Botafogo, Heleno jamais conseguiu ser campeão pelo clube, mesmo marcando 204 gols em 235 jogos. Na seleção foi uma promessa mesmo antes de Pelé. Mas por querer tanto mais que a vida, a própria vida o derrubou.

O filme que Fonseca construiu é cheio de idas e vindas no tempo, começando por mostrar primeiramente o período de doença e decadência no sanatório, onde o mesmo relembrava-se dos seus feitos, gols, glórias e mulheres. A cinematografia claro-escura de Walter Carvalho passeia entre o alto contraste dos momentos de glória e o cinza sujo e entristecido da época presente do filme.

Do artilheiro que chamava para si a responsabilidade, que criticava os companheiros que ganhavam mesmo quando o time perdia, que gostava de máximas como “treino é jogo e jogo é vida”, Santoro encarna o homem que se transformou em um louco, doente e destruído pelos excessos. Mesmo os pequenos gestos que complementavam narrativamente a elegância de Heleno, como o ato de sempre acender dois cigarros ao mesmo tempo, um para ele, outro para a mulher que então o acompanhava, é transformado em uma patética nostalgia.

Heleno, de tanto querer ser maior que todo mundo, correr mais, fazer mais gols, ganhar mais títulos, conquistar mais mulheres, acabou em uma cadeira de rodas, sem forças para se levantar, não falando com ninguém, sendo comido por dentro por sua moléstia. Com o passar dos anos, o futebol, seu maior amor, foi se tornando um fardo para o mesmo – como é mostrado logo no início do filme, o surgimento de Pelé no Mundial da Copa de 1958 sempre sendo decisivo e mostrando uma técnica impressionante, já dava o recado: Heleno jamais conseguiu suportar não ser o melhor sempre. Não admitiu ficar velho, ficar doente, ficar feio. Morreu aos 39 anos, sem família, longe do esporte – já não jogava há seis anos. Fonseca retrata esse lado não apenas na transformação de Santoro – de um “garanhão” saudável para uma figura magra e doentia – mas na própria construção estética do filme. A montagem não-cronológica jamais nos deixa esquecer que logo aqueles ambientes abertos, gigantescos, bonitos, elegantes e bem fotografados transformar-se-ão em ambientes fechados, claustrofóbicos e repulsivos. Todo o porte galante tanto do ator quanto da recriação dos anos quarenta inevitavelmente tudo se tornar tristemente ridículo.

O filme, baseado no livro “Nunca Houve um Homem como Heleno” de Marcos Eduardo Neves, jamais irá condenar seu personagem-alvo. Mesmo com todos os erros e escolhas equivocadas na vida, é difícil não admirar “doutor” Heleno, determinado a vencer a qualquer custo, de transformar ele e o Botafogo em símbolo de futebol – até quando o vício extremo em cigarros, éter, o ritmo extremo e a sífilis o permitiram.

Os diálogos dão conta de transmitir toda essa obstinação: por trás de toda a pose, ele não parava de cobrar dos colegas a todo o momento e chamá-los de incompetentes, pernas-de-pau e outros adjetivos nada honrosos. Nega ser um jogador de futebol: “Eu sou um jogador do Botafogo”. Negando tratar da própria saúde para tratar da doença, ele ignora o aviso dos médicos que aquilo não era sobre futebol, era sobre a vida dele. “Minha vida é o Botafogo”. Tristemente irônico que um homem que representou tão bem o espírito do clube de General Severiano, prestes a revelar à época toda uma geração de ouro do futebol, como Nilton Santos, Quarentinha, Garrincha, Didi, Zagallo, Gérson, Paulo César Caju, Jairzinho e tantos outros acabasse de tal forma.

Heleno, segundo diz a voice-over, definiu-se como “a própria vontade de vencer”. Ganhou como ninguém. Teve o Brasil na sua mão. A câmera por vezes delirante e lírica de Fonseca descreve travellings circulares, esquece do cenário e só lembra do homem. O campo de futebol por vezes é a única liberdade, às vezes é um deserto de grama confuso onde o ruído é insuportável – como o ringue de Jake La Motta, todos os símbolos de glória irão tornar-se assustadores com o tempo. Resta então fazer como Lenny Bruce: lutar contra o mundo, contra tudo e contra todos. Como todo homem maior que a própria vida, aqueles para os quais a mediocridade e o conformismo não são suficientes, Heleno tropeçou na própria realidade, que cobrou tragicamente seu preço.

Assim, o próprio ídolo se calou para o mundo. O mundo injusto que falhou em compreendê-lo. O mundo que ele queria que sempre o adorasse e concordasse com ele. Infelizmente para Heleno, a realidade não era como o campo de futebol que ele tanto gostava. Lá fora, ele também tinha que se relacionar com as pessoas, tinha que sobreviver a vícios e doenças e aceitar a realidade que ele não era o rei do mundo. Mas o que tornava Heleno tão admirável assim era o fato que, mesmo que isso não fosse verdade, ele daria cada célula do seu corpo para comprovar.

Pompa e circunstância, glória e tristeza, como toda figura notável. Essa é a tragédia de Heleno, espírito acima do corpo, uma figura única do futebol: de tão maior que a vida, acabar sendo tão pouco. Talvez só mesmo o cinema, a luz que se projeta em meio às sombras, para conseguir sua redenção. Redenção de uma das muitas estrelas solitárias que brilharam por um curto período de tempo para então sumir da memória de quem a viu.

O cinema e Heleno encontrarem-se era só questão de tempo. Dá para ter certeza que o mesmo adoraria encarar a si próprio em uma tela gigantesca. É a grande vitória de Heleno, sua redenção maior, de tão desgraçado em vida, em um mundo preocupado por números, indicações e currículo, tornou-se notório por sua vitalidade, obsessão e determinação. Há cinqüenta e três anos desde sua morte é assim que nós lembramos dele, e o filme só afirma isso novamente: enquanto tantos outros contemporâneos a ele, até mais vencedores, se tornaram verbetes, Heleno, afinal de contas, virou cinema.

Comentários (2)

Rosana de Almeida Machado | segunda-feira, 27 de Agosto de 2012 - 22:41

Linda crítica... como uma botafoguense apaixonada, me emocionei, me entristeci, mas principalmente me orgulhei... S2....

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