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Hebe: A Estrela do Brasil

(Hebe: A Estrela do Brasil, 2019)
7,2
Média
3 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O corpo de uma estrela

7,5

À Maurício Farias interessa o corpo de Hebe, muito mais que o timbre de voz, o jeito de falar, muito mais que uma reprodução fiel, que poderia soar boa ou até perfeita, mas que não a captaria. Porque Hebe - A Estrela do Brasil não é um documento sobre a vida da comunicadora, a maior da história do país. Não apenas à direção, mas ao projeto como um todo, Hebe é muito mais que seu DNA. Ela deixou impresso em milhares de televisores durante mais de meio século um estudo sobre a impulsividade em um veículo pautado pela artificialidade, pela impressão da repetição que por fim cria um arquétipo. A proposta de Andrea é negar esse viés negativo do olhar para uma persona, de ver apenas o relevo ao mergulhar na sombra. 

Como o público sempre teve acesso ao sorriso da personagem-título, surge no longa a proposta de se inserir no lado oposto dessa figura extremamente pública e popular. Sem denegrir os raios de sol oriundos da mesma, investigar o interior através da corporalidade impressa na epiderme. É isso que busca o trabalho de Farias, radiografar Hebe naquela turbulenta década de 1980, tanto para ela quanto para o país. Assim sendo, o filme parte para a diferenciação do formato padrão ao propor um recorte de tempo definido sem ampliar o foco ou didatizar seu período ou sua protagonista; veremos Hebe no meio de sua trajetória. De onde ela veio e pra onde ela vai não é uma preocupação, e essa deve ser das atitudes mais corajosas a se tomar em uma fórmula tão testada quanto a biografia.

A câmera de Inti Briones (Vazante) fica a um passo do toque, quase como se tridimensionasse aquela existência. Hebe parece constantemente ao alcance do espectador, com a sensibilidade à flor da pele, pele essa tão próxima que acessamos fácil a empatia pelo qual o filme grita. Como humanizar ainda mais uma mulher que se expunha tanto? Ao invadir mais do que a intimidade da figura pública, as lentes do filme cravam em cada ação sua, pelas mãos, pela nuca, em super closes de partes tão íntimas quanto coloquiais, e desse lugar de testemunha ocular de seus sorrisos e suas lágrimas, acabamos extraindo uma intimidade que equilibra invasão e respeito; quando em uma cena Hebe está fragilizada em condição extrema, a câmera se encerra em seu ombro, para ler o perfil de Andrea jogada no chão do banheiro tempos depois.

Ciente de ter uma biografada tão sincera quanto polêmica, a roteirista Carolina Kotscho arrisca comprar briga com fãs e familiares ao se aprofundar em uma Hebe praticamente desconhecida aos holofotes. Enquanto personagem, Hebe é rica como poucos por sempre ter sido envolta em contradições. Com posições políticas ligadas à direita, o filme não julga a personagem, mas também não a paternaliza, observando os muitos lados de suas atitudes. A apresentadora votava em Paulo Maluf e criticava as sessões plenárias de Brasília; tinha modos machistas, mas foi uma defensora de grupos LGBTQ+ (ainda que por motivos pessoais); viveu um relacionamento abusivo e enfrentou diversos homens de poder no quarto poder, a imprensa. Como condicionar todo esse repertório a uma única fatia de foco e personalidade é um desafio do projeto vencido, apesar dos arranhões.

O filme tenta dar espaço ao universo que a circunda, mas seria humanamente impossível tanto ser feito, e é aí que as características típicas do gênero prejudicam seu andamento, quando apesar das claras tentativas não conseguir aprofundar um personagem que é só uma esfinge, seu filho Marcelo. Não que houvesse a obrigação de ir além da figura central, mas seu filho tem espaço narrativo considerável para, ao fim e ao cabo, ser pouco explorado e soar vago, desperdiçado; esse é um exemplo de obrigações de fórmula que soam perdidas ao final, ainda que sua espinha dorsal seja acertado. 

A escolha por enfocar a zona obscura de seu enredo abraça a outra aba narrativa do filme, que é a maquinaria do quarto poder e seus bastidores. Dando relevo à criação de Hebe enquanto personagem semanal televisivo e do que era preciso para mantê-lo onipresente por tantos anos a fio, o filme não se torna necessariamente uma investigação fiel sobre as entranhas do fim da censura na TV, mas oferece muitas camadas sobre o processo de manutenção de mitos e lendas, de que materiais são feitos e como podem ser cinzentas as cores berrantes que vemos vazar dos refletores para a frente das câmeras.

Com um elenco acima da média cujo trabalho de Marco Ricca é realçado pela enésima vez em papel muito difícil e cheio de nuances (seu Lelio é muito mais do que o personagem que conhecemos como 'o marido de Hebe', dando uma conotação assustadora a respeito de abuso doméstico) e a participação realmente especial de Stella Miranda como Dercy Gonçalves, são nas escolhas de Andrea Beltrão que o longa faz sentido junto com a proposta da direção em retratar Hebe através do corpo. Então esqueçam uma visão caricatural e manjada da apresentadora: Andrea realça cada detalhe de sua personagem, a piscada de olhos, os gestos grandiloquentes, seu jeito e sua dança, e compõe uma Hebe tão particular quanto universal, que com sutileza remete à figura partida do filme, tanto a mulher trágica que se descobre solitária, abusada e doente, quanto a fulgurante estrela que o filme faz questão de nunca perder de vista. Um desempenho magistral, emocionado e poderoso que faz jus ao legado de uma figura cheia de dissidências.

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