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Críticas

Cineplayers

O discreto charme de uma burguesia patogênica.

7,0
5 anos após o aclamado, mas não necessariamente unânime, Amor (Amour, 2012), Michael Haneke retorna para realizar um de seus filmes menos complexos no que diz respeito ao tema que retrata, simplificando assuntos que outrora debatia profundamente, a fim de conferir um tom mais cômico a um conceito de degradação familiar, precisamente a uma tradicional família burguesa adoentada pela série de complicações psicológicas e morais dos membros. Antenado aos tempos modernos e aos recursos tecnológicos, o diretor mostra-se à vontade e absorto à contemporaneidade, garantindo um filme inebriado por suas obras anteriores, retratando a insalubre vida dos membros pomposos da família Laurent. 

É um Haneke para todos os públicos, mas poucos deverão aproveitá-lo. Ainda que repercuta seu próprio estilo, é bom vê-lo tentar coisas novas, como a opção de fazer uso de aplicativos com intenção de contar histórias, que nem a função stories, em que consegue transmitir um pouco sobre o dia a dia dos personagens a partir da narração pessimista de um deles. Entram nesse meio redes sociais e e-mails convencionais, maneiras que o cineasta encontrou para representar uma família rica lotada de problemas de relacionamentos. 

Haneke diverte-se ao ver o declínio da família Laurent. No início, o desmoronamento de um muro metaforiza a queda da família, com o patriarca desatinado, indiferente aos cacos que deixou. O drama de Amor transforma-se em jocosidade aqui. Também há traços de Festa de Família (Festen, 1998) durante um almoço. Faz enrubescer as bochechas. E nessa diversão do cineasta que não costuma poupar o público de suas resolutivas brutalidades, parece que, ao longo de seus 75 anos, aprendeu a naturalizar o choque de suas viscerais imagens e agora exprime o humor como resultado do caos instituído.

Ciente da forma com a qual as pessoas se relacionam hoje, o roteiro do diretor representa ao menos três gerações e estabelece a relação de cada um com a tecnologia. É sua visão de mundo sarcástica, com uma pré-adolescente esperta mergulhada em aparatos tecnológicos; adultos solitários a procura de sexo devasso nas redes sociais; e um idoso avesso à existência de qualquer novidade científica, esperando oportunidade de morrer, mas que recebe a péssima notícia de que está bem de saúde. 

Diante de diferentes gerações, faz recortes quase que aleatórios de cada um, agregando um emaranhado de acontecimentos vagos que, quando reunidos, ganham um sentido mais amplo, mesmo que de desordem, de descontinuidade. É preciso olhar além dos personagens, o que há em volta, o que acontece nos detalhes. Isabelle Huppert repete a parceria com o diretor e vive uma das personagens mais paradoxais. Toby Jones numa ponta diverte pontualmente, mas é Jean-Louis Trintignant quem é o dono dos melhores momentos nessa auto-paródia de Haneke. Em uma determinada cena, ele conta sobre algo que fez com a esposa. Após isso, interrogações explodem na mente do espectador. 

Com as funções tecnológicas à serviço da forma de contar a história, Haneke faz uso de celulares e, com um de seus protagonistas, filma o dia a dia dentro do casarão. Não é fetichista e tem função de registro. Nessa lógica, retoma o que fez narrativamente em O Vídeo de Benny (Benny's Video, 1992), ao passo que apresenta vários personagens em recortes, tal como em 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls, 1994). E os planos longos sem áudio que remetem a Caché (Caché, 2005)? Como ignorar sua filmografia e o que é visto aqui?

Dessa maneira, Happy End transparece um compilado da carreira de seu autor, um filme entusiasmado, sem preocupações aficionadas à estética e nem tão preocupado por uma lógica narrativa. São somente pessoas desamparadas que brilham em suas mansões, mas mostram-se frustradas por não alcançarem seus desejos, por não conseguirem atingir qualquer pulsão que os resgate de volta para a vida. Despedaçados. Ri-se da morte, do suicídio, da pornografia, da demência, da mentira, do amor e de sua ausência. 

Visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Comentários (1)

Guilherme Spada | terça-feira, 31 de Outubro de 2017 - 16:18

Ótima critica, amei o filme!

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