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Críticas

Cineplayers

A caçada como arquétipo.

7,5
Há 40 anos atrás, John Carpenter lançou Halloween - A Noite do Terror, traduzindo os filmes de matança na Europa para o subúrbio americano, invocando trevas na tradicional casa estadunidense e introduzindo Michael Myers, que matou a irmã aos seis anos de idade e, já adulto, escapa para aterrorizar a jovem Laurie Strode e suas amigas. O único adulto que parece levar a sério a ameaça é o psiquiatra Dr. Sam Loomis, que tentou tratar Michael por anos e chegou à conclusão de que o assassino não tinha motivação por trás dos seus atos - era apenas o mal puro. O Bicho Papão.

Muitas décadas, sequências e refilmagens depois, Halloween se tornou referência. Com ele, criou-se o gênero slasher, onde um assassino incompreensível persegue a figura feminina. Após tantos Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Dia dos Namorados Macabro e outros, o tipo de narrativa tornou-se arquétipo. E então Danny McBride, ator conhecido por seus trabalhos cômicos como Trovão Tropical, e David Gordon Green (Segurando as Pontas, O Que Te Faz Mais Forte) resolveram fazer uma sequência direta do filme original, ignorando todas as outras e desprezando todas as reviravoltas e mitologias desde então, como Laurie ser a irmã mais nova de Michael e o assassino carregar uma antiga maldição druida. 

Fincando os pés em um terreno mais sóbrio, Gordon Green busca ser uma rendição incondicional ao filme de Carpenter, referenciando e reverenciando todas as suas clássicas assinaturas e dispositivos, mas também perseguindo um terreno próprio: como abordou em filmes como Joe, Manglehorn e O Que Te Faz Mais Forte, o seu Halloween é muito sobre Laurie Strode, como envelheceu traumatizada por Michael Myers, como perdeu a família por conta da sua insistência em preparar filha e neta para o retorno de Myers e como hoje vive reclusa, amargurada e presa no mesmo dia desde o Dia das Bruxas de 1978.

Obviamente, Michael irá escapar do hospício onde passou 40 anos sem dizer uma única palavra e recomeçar seu ciclo de matança. Apesar do filme ter um início problemático, com uma cômica dupla de jornalistas britânicos levados um tanto a sério demais em sua obsessão de querer cobrir o evento tentando extrair uma confissão do “Matador de Babás” que nunca falou, além de cuspirem diálogos explicativos sem parar, é curioso como Gordon Green não se deixa afetar pelo artificialismo pouco orgânico dessa subtrama. 

Ao invés disso, utiliza como um pretexto para o que lembra mais um ritual de invocação materializado de maneira realista. Em cortes rápidos e pequenos detalhes, vemos Michael despido, em roupas de hospital, envelhecido e calvo, mas ainda uma presença impressionante. O afeto dedicado então a ver Michael recuperar seu clássico macacão de motorista e a máscara tosca de Capitão Kirk, nem um pouco apressado e valorizado por close-ups e a utilização de perspectivas e reflexos, torna-se nítido o respeito pela figura e a ameaça que ela representa justamente por ser um enigma jamais solucionado.

O roteiro de Danny McBride possui várias arestas e cai em vícios do slasher - personagens aleatórios jamais introduzidos morrendo, o que se torna algo gratuito, enquanto Carpenter tinha grande compreensão de tornar cada morte uma brutal invasão de privacidade. Também perde um bom tempo com personagens que desempenham a mesma função do passado - o psicólogo é um novo Sam Loomis, mas desperdiçado com uma reviravolta um tanto gratuita e dispensando uma real serventia sua à trama; a neta de Laurie é basicamente ela mesma jovem, perdida entre a possessividade da família nuclear e o desejo de transgressão adolescente, aqui reproduzindo cuidadosamente o que Carpenter explorava e que foi confundido por todas as obras posteriores e muitos espectadores como o pai do moralismo no gênero, enquanto na verdade o responsável seria Sean S. Cunningham e seu Sexta-Feira 13. Talvez sejam alguns dos aspectos mais triviais e menos inventivos da trama que remexe com chagas que o gênero abriu e não fechou.

Pois aqui o arco do mal inominável não é apenas continuado, mas também abordado de uma maneira revisionista. Os traumas que o diretor adora explorar em seu filme levantam uma questão interessante desde o início, a questão da clássica frase de Nietzsche, “encarar o abismo e o abismo encarar de volta”: se Laurie nunca parou de pensar em Michael Myers, se armou e transformou sua casa numa fortaleza e até mesmo confessa que sonha com o dia que irá batalhar com ele pela última vez, será que presa e predador estão mais próximos do que realmente parece? O que separa agora Laurie de Michael?

É daí que Green, já sabendo da profunda compreensão que o público tem de todas as clássicas cenas de um slasher, sente-se livre para criar um jogo de inversão de expectativas ao transferir para sua misé-en-scene a questão mencionada acima, seguindo toda a construção típica do slasher para então se libertar: o filme tem todas as casas de subúrbio, os adolescentes estourando de hormônios, os adultos alheios às ameaças, mas é em seu terceiro no ato que Michael, em seu estilo de mágico repetindo o mesmo truque (encarar de longe, desaparecer sem ser percebido, surgir das sombras, matar com facas) encontra um nêmesis em Laurie, que em seu território inverte cenas clássicas de Halloween em um momento final intenso, onde a tensão física é extenuante e grotesca, com um final contemplativo, quase operístico em sua exaltação a um tema tornado universal no século XX: a emoção do suspense nascido do choque entre caça e caçador. Um momento memorável para o horror contemporâneo.

Não fosse por personagens dispensáveis, algumas reviravoltas gratuitas, e a falta de uma maneira melhor de dar início à retomada da história original, o novo Halloween seria um grande filme de verdade, mas da forma que ficou é um testemunho do poder do slasher em toda sua glória, da expansão da temática ligada à violência urbana e intimidade agregando também temas de revanchismo, vingança e obsessão. Agora, em seu retorno como Laurie, com seu olhar perdido no passado, o semblante sério, os rompantes de angústia e a falta de hesitação em disparar armas de fogo, Jamie Lee Curtis é tão assustadora quanto Nick Castle, o intérprete original de Myers, habitando uma fortaleza sombria, impenetrável, cheia de segredos e indício de passado e mente perturbada. Uma continuidade orgânica mas também pouco explorada.

De certa forma, Halloween faz pelos filmes de matança o que Logan fez por super-heróis, explorando o excesso de passado no presente, o peso de escolhas, o mesmo conflito voltando sob novas óticas. Em um mundo de reboots, remakes e retomadas toscas, quem dera toda história continuada fosse abordada sob uma perspectiva amadurecida e sem medo de ser sombria, com um ponto final particularmente seco na sua demonstração de como a mancha da violência contamina a todos, bem como o espectador, eterno voyeur da violência, encarado frontalmente pela câmera várias vezes ao longo do filme, e, sobrenatural ou não, o mal de Myers em sua monstruosidade é contagiante e contagioso. Como bom mito, Halloween se repete - da forma mais apropriada e necessária o possível.

Comentários (1)

Robson Oliveira | sexta-feira, 08 de Fevereiro de 2019 - 11:33

o melhor filme do gênero em anos!

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