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Graças a Deus

(Grâce à Dieu, 2018)
7,4
Média
7 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Por trás da batina

7,5

A história de Graças a Deus é baseada em fatos reais e fala sobre casos de abusos sexuais provocados por um padre, algo similar ao que todos já ouvimos falar por aí, não somente relacionado a figuras religiosas. As pessoas ficariam surpresas ao testemunhar que muitos poderiam contar memórias devastadoras parecidas com as narradas durante o filme. Este novo trabalho do respeitado cineasta francês François Ozon chama atenção por lidar e polemizar com um delicado assunto envolvendo a igreja católica, fazendo deste um filme político e social, algo não tão comum em sua carreira, – e que às vezes parece aspirado pelo oscarizado Spotlight (2015), sem a equipe jornalística de Boston. Aqui, reflete a circunstância do abuso sexual infantil, a pedofilia dos clérigos e o impacto psicológico sobre cada uma das vítimas.  

Um cristão casado, pai de cinco filhos, recorrentemente atormentado por lastimosas lembranças dos tempos infantis dedicados aos encontros religiosos em acampamentos e igrejas, decide tardiamente ir atrás daquele que deu sabor de fel a sua infância. Fez por justiça, não por vingança. E é importante ressaltar a diferença, já que a obra vislumbra distintas reações dos envolvidos. Quando este homem deu início às acusações, dezenas de outros apareceram com um discurso comum: um famoso padre abusou de cada um deles. Graças a Deus desenrola-se sobre as relações entre as vítimas, particularizando-os frente suas recordações e impactos da pedofilia implicada nas ações individuais dos personagens que lidam de maneira diferente contra o mesmo acusado.

Ódio. Mágoa. Depressão. Relacionamentos confusos. Culpa. Culpa daqueles que ouviram e nada fizeram. Omissão. Não faltam características nesse drama de condição amarga e amargurada. Ozon, ótimo na condução dos intérpretes, esboça um panorama abrangente, aproveitando-se do roteiro linear que divide a atenção entre 3 protagonistas que sustentam uma mesma história em distintas orientações, o que colabora para evitar a estagnação da trama.  O diretor reconhece o que cada um de seus personagens tem a oferecer e aponta três direções sustentáveis a eles, dando força na concepção das personalidades, fundando as relações com a fé e a falta dela, para pesar um outro ponto encadeado na dinâmica moral retratada: a crença que põe em dúvida a luta; ou a falta da crença, que movimenta ainda mais disposição pelo êxito de punir o pároco pedófilo e os cúmplices silenciosos. 

As vítimas olham para si mesmas e para os outros que carregam angústia semelhante frente a oportunidade de punir o agressor, mas há muito mais além da culpabilidade daquele que traja batina. Os realizador não parece querer se aprofundar no poderio religioso que reprimia seus membros criminosos e naturalmente altera o nome de todos os envolvidos os quais a obra se baseia – o filme ainda teve problemas durante sua estreia na França. Graças a Deus, então, se fortalece sobre o comportamento das vítimas. O trunfo é justamente a psicologia, já que a história é arranjada pelos questionamentos e intenções das vítimas que nem sempre concordam com as ações, favorecendo questionamentos oportunos e interesses específicos entre elas.

No meio do filme, destaco a ótima e reveladora cena durante uma coletiva em que um líder religioso profere um Graças a Deus como alívio a prescrição de alguns casos. A significância do ato inspira o título. 

Fria como o interior de igrejas, a obra é carregada por cores taciturnas numa fotografia neutra pouco marcante que parece evidenciar coisas obscuras e escondidas da luz, como se algo estivesse velado em todos os cantos. A aflição adormecida que irrompe em pesar; a súbita coragem de lidar com o trauma motivada pelo grupo; as revelações íntimas que emergem da consciência reprimida; as inspirações que originam revelações de onde não imaginou-se. Surpreende no sentido de retratar a humanidade, e uma vez à frente de um ser humano que sofre, está diante um universo de incertezas e surpresas. Dessa forma, Ozon não provoca qualquer impacto a partir de imagens que pudessem definitivamente causar alguma comoção perturbadora sobre o espectador, tal como outros títulos com tema análogo fizeram, mas se apropria da habilidade de seus bons atores que acometem o público pela penitência reportada que gera raiva e piedade. E com isso, empatia.  

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