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Críticas

Cineplayers

A malandragem como matéria-prima de um clássico.

7,5

O grande vencedor do Oscar de 1972, que conquistou sete prêmios de dez indicações, Golpe de Mestre consolidou ainda mais a associação entre o diretor George Roy Hill e os atores Paul Newman e Robert Redford que se anos antes já havia dado certo em Butch Cassidy (Butch Cassidy and The Sundance Kid, 1969), agora conquistava os principais prêmios da noite seguindo o mesmo princípio que resultou funcional na primeira vez: uma revisão contracultural e anárquica de gêneros de época.

Se na trinca anterior  o resultado teria sido uma revisão do faroeste onde a brutalidade dos novos tempos confundiam-se com a visão romântica do marginal como o verdadeiro herói por direito, Golpe de Mestre aposta nos anos trinta e no mundo da vigarice, jogatina e casas de aposta. A elaborada trama de vingança tem como miolo do conflito a vingança do personagem de Redford contra um gângster que matou seu parceiro de vigarice após ambos aplicarem um golpe e roubarem o dinheiro do pagamento de uma das casas de aposta. O mesmo então, perseguido por um policial corrupto que gosta de extorquir, se associa com um golpista experiente procurado pelo FBI, interpretado por Newman.

O resultado é que George Roy Hill, malandro que só ele, tece um filme ambíguo, onde não podemos confiar em nossos olhos e ouvidos: todos os personagens têm algo de suspeito, as subtramas que nos são apresentadas são igualmente suspeitas e mesmo a utilização dos elementos cinematográficos estão ali mais para na maior parte do tempo mais confundir do que explicar: câmeras subjetivas, a exploração da profundidade de campo utilizando-se dois ou mais atores, os efeitos gráficos de violência: nessa década de trinta nem um pouco nobre – onde os eleitos heróis são homens tão desonestos quanto seus antagonistas, e são fugitivos do sonho americano – nem trabalhadores, nem prósperos: farsantes, personagens que simulam outras vidas e outras históriasa p para enganar em uma maratona de mentiras.

A “Ferroada” do título original batiza um filme influente, onde dentro dos dispositivos narrativos clássicos do cinema mainstream, o didatismo pode ser suspenso para dar lugar à dúvida e à suspeita – desde que, é claro, isso se concretize no final e o protagonista “adorável cretino” tenha uma boa dose de pathos: Redford, mesmo sendo um vigarista de marca maior, também tem laços afetivos com a família igualmente picareta do seu falecido comparsa; e também sua busca por companheiras parece mais uma tentativa de solucionar sua solidão do que propriamente ser uma luxúria.

A separação em capítulos ajuda a perceber que, por mais espírito anárquico que seja, é um filme ainda fiel aos padrões Hollywoodianos, ou seja, seu roteiro, por maior que seja a volta dada, é obrigatoriamente “redondo”, onde o curioso da história, desta vez, vem menos dos seus personagens  e mais da situação absurda que os mesmos encontram para se vingar do gângster: criar uma casa de apostas fictícias e atrair o mesmo para apostar uma bolada em uma corrida de cavalos que não existe. Armado desde o primeiro terço, esse grande evento é preparado com toda a pompa e circunstância, com todos os empecilhos tornando essa uma história de provação onde a qualidade de representrar dos seus personagens está diretamente ligada à sua sobrevivência: quem mente melhor,  vence e sobrevive. Quem acredita, roda rapidamente e tem sua importância reduzida à mera ferramenta.

Essa suspensão da descrença faz o roteiro lançar um “filme dentro do filme”, com seus próprios cenários falsos dentro do próprio cenário falso de recriação; com sua própria trama falsa dentro da trama representada, com seus protagonistas e incidentes pré-determinados que guia o espectador dentro de uma ficção que caminha na corda bamba entre o cinismo e o romantismo. Apesar de parecer complexo explicar em palavras, o filme guia seu jogo de espelhos com transparência narrativa e simplicidade de fatos que permite que o espectador acompanhe, se surpreenda e questiona.

Ainda que não represente o que de melhor o cinema possa oferecer em matéria de farsa, George Roy Hill dirige a obra com consciência e sofisticação: apesar da recriação luxuosa da direção de arte saltar aos olhos - que acaba maquiando cinicamente a sujeira e o fato de que os personagens estão executando atitudes legalmente condenáveis – o ouro do filme está mesmo na situação, onde o “golpe” depende menos de empreitadas, trabalhos demorados no escuro e  técnicas especializadas tal como Rififi (Du Rififi Chez Le Hommes, 1955) ou O Grande Golpe (The Killing, 1956) e mais da esperteza, malandragem e cinismo dos seus românticos protagonistas, adoráveis cretinos que parecem serem, de certa forma, herdeiros dos protagonistas de Billy Wilder, principalmente em obras que também envolviam jogos de representação, como Irma La Douce (idem, 1963) ou Uma Loura por um Milhão (The Fortune Cookie, 1966), para não citar outros.

Assim como os personagens de Wilder, os vigaristas de Roy Hill são párias tão charmosos quanto cômicos que estão sempre correndo para cima e para baixo, tendo que fugir, armar e se enrolar em uma teia cada vez maior de mentiras: impelidos pelas circunstâncias e por suas próprias falhas morais, esses desajustados estão sempre tentando passar a perna em alguém. Em plenos anos trinta, pós-Grande Depressão e à beira do abismo da Segunda Grande Guerra, o riso, a fuga e as vigarices bem-sucedidas desses marginais eram sua vingança pessoal contra a loucura; nos anos setenta, época da feitura de Golpe de Mestre, plena época de Watergate, Vietnã e conflitos raciais, seus personagens, todos à margem da lei, desprovidos da intolerância e da força bruta tanto da polícia quanto do crime organizado e aplicando seus pequenos golpes para falir com um esquema criminoso e corrputo pré-existente era uma retribuição com a mesma moeda: para George Roy Hill, Robert Redford e Paul Newman o sistema não parecia mais fazer sentido e merece uma ferroada venenosa para passar desta para melhor de uma vez. E esses são só alguns dos motivos que fazem Golpe de Mestre, no final das contas, ser um exemplar tão merecidamente lembrado de um cinema ambíguo e malandro.

Comentários (10)

J M P | sábado, 02 de Março de 2013 - 11:48

Eu gosto bastante.
Mas acho que Oscar deveria ter ido para O Exorcista...

Adriano Augusto dos Santos | sábado, 02 de Março de 2013 - 12:46

Adoro.
Depois de revisões,já com a bagagem de saber mais de todos ali,fica ainda melhor.

Dantefelipe10 | segunda-feira, 04 de Março de 2013 - 13:58

Paul Newman jogando pôquer =) ,simplesmente fascinante.

Alexandre Marcello de Figueiredo | quinta-feira, 16 de Maio de 2013 - 19:22

Dois vigaristas apaixonantes que a gente acaba torcendo por eles. O golpe final é realmente de mestre.

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