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Críticas

Cineplayers

Fincher e a perversão do seu próprio cinema.

9,0

Garota Exemplar mantém com Millennium - O Homem que Não Amava as Mulheres algumas semelhanças básicas. Duas adaptações de best-sellers policiais dirigidas pelo provável melhor diretor contratado de estúdio do cinema contemporâneo, David Fincher. Dois girls bem posicionados no título pretendendo um jogo com a palavra, uma representação subvertida, um confronto com a fragilidade da leveza que carregam e que vão seguir, em cada filme, caminhos bem distintos.

A estranheza inicial da figura de Lisbeth Salander, protagonista de Millennium e a quem Eliane Brum chamou a primeira heroína do século XXI, pretende ser quebrada na empatia que a trama, Fincher e Rooney Mara ─ que a interpreta ─ tentam colocar a nós pela personagem. Em Garota Exemplar a narrativa segue por um caminho oposto. A mencionada pelo título é Amy Elliot Dunne (Rosamund Pike), que desaparece no seu aniversário de 5 anos de casamento com Nick Dunne (Ben Affleck, ótimo), o que tira a cidade suburbana em que vivem do marasmo usual para a excitação do mistério. Nele, todos cumprem um comum papel marcado, formando um quadro de personagens típicos do enredo policial. A vítima (Pike), o suspeito (Affleck), a fiel aliada deste (Carrie Coon), os aliados desconfiados (David Clennon, Lisa Banes e Emily Ratajkowski), a boa detetive (Kim Dickens) e os maus detetives (Missi Pyle e Patrick Fugit).

Esse é o contexto de gênero criado por Gillian Flynn (autora da obra original e roteirista do filme) e Fincher, com suas construções de cenas impecáveis em tom e propósito narrativo ─ é incrível como ele parece sempre escalar atores de tipo, que já estão acostumados a um mesmo papel, e os coloca, mexendo o mínimo possível nos personagens, num lugar mais sombrio do que aquele que esse tipo normalmente ocupa. O filme policial dentro de Garota Exemplar dura, medindo sensorialmente, pouco menos de uma hora.

Daí em diante, surge um filme completamente diferente. Um que não estava previsto nos trailers ou em qualquer um dos materiais de marketing, um que Fincher nunca havia feito antes. Um filme sujo, feio, errado, exagerado; enfim, brega ─ ou camp, como prefere a cinefilia. E nenhuma dessas palavras está sendo usada aqui com sentido pejorativo; pelo contrário, essa virada resgata o filme de uma estética engessada do bom cinema de gênero que ele mesmo faz questão de quebrar e colocar em xeque. Eu nunca imaginei que o tão correto e meticuloso Fincher fosse capaz de tamanha coragem.

Que Garota Exemplar é uma sátira do que se torna um casamento, muitos de nós, que não lemos o livro, já tínhamos entendido pelo material prévio, pela sinopse, etc. Mas não passou pela minha cabeça a profundidade da palavra sátira, mesmo quando dita com ênfase em entrevistas e declarações pelo próprio Fincher. O diretor mandou pelos ares toda a sua tradição de buscar, mesmo na fantasia, um fiapo de realismo. Garota Exemplar lança um olhar sobre como a nossa maneira de construir identidade para outros e nós mesmos afeta os nossos relacionamentos? Sim. Esse olhar se apoia numa trama séria e de pretenso realismo, mesmo que fantasiosa? Não mesmo.

Para estabelecer um ponto de referência para o que é feito aqui, é preciso buscar em nomes mais perversos do cinema de gênero solto pelo mundo, como os mais sádicos de Pedro Almodovar e Alfred Hitchcock. E, se Fincher é genial ao dar descarga em padrões estabelecidos do bom cinema, ele tem a ajuda crucial de Rosamund Pike para isso. Espero que a sua performance sobrenatural seja reconhecida com a força que merece e que ela não seja prejudicada pela busca a um realismo que, confio, não se pretende presente. Garota Exemplar me deixa sem ideia do que Fincher pode trazer a seguir. Fã que sou, estou curioso como nunca.

Comentários (27)

Matheus Veiga | terça-feira, 07 de Outubro de 2014 - 02:09

esse lucas souza sente cheiro de tudo...

Eduardo Laviano | domingo, 16 de Novembro de 2014 - 17:10

A única coisa melhor que gostar da sujeira: admitir gostar da sujeira. Esse filme foi a lambança mais aconchegante que eu já assisti. Inescrupuloso, mas bem intencionado. Adorei a sua descrição da obra. Eu sempre fico recostado na poltrona do cinema, mas Garota Exemplar me fez ficar retinho na cadeira. É um ótimo filme. Poderia ter explorado melhor a infância da Amy, acho. Mas deve ter sido limitação do roteiro.
P.S. Alguém pega o rosto da Rosamund Pike (atriz fodona do ano) e devolve pra Reneé Zellweger?

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