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Fuga do Passado

(Out of the Past, 1947)
8,4
Média
152 votos
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Críticas

Cineplayers

A máquina do noir

9,0

O cineasta francês Jacques Tourneur é uma das figuras autorais mais interessantes a trabalhar no cinema estadunidense durante as primeiras décadas da Hollywood falada. Com uma inclinação para o cinema de gênero (em especial, o horror), dirigiu algumas obras ainda emblemáticas como Sangue de Pantera (Cat People, 1942) e A Noite do Demônio (Night of the Demon, 1957). Em Fuga do Passado (Out of the Past, 1947), um film noir, Tourneur desafia alguns lugares comuns do gênero ao fazer uso de uma das formas narrativas mais interessantes do período.

Fuga do Passado nos permite respirar da tipicidade do film noir. Falo isso em mais de um sentido: da cidade movimentada onde são ambientados os filmes com Humphrey Bogart saímos para um lugar interiorano, próximo da natureza e da vida pacata. Este é o refúgio de Jeff (Robert Mitchum), um detetive particular aposentado que assume uma nova identidade distante da paisagem urbana. Ele está apaixonado por Ann (Virginia Huston), e o filme nos apresenta o casal junto ao rio, um cenário idílico que reafirma a felicidade de ambos e a satisfação de Jeff por estar ali. O espaço bucólico entra em cena para acentuar a relação entre os amantes – inocente, de segredos superados junto a uma vara de pescar.

O filme atribui a esse lugar uma recuperação moral do seu protagonista. Mas o passado alcança Jeff, que agora precisa se abrir para Ann sobre o homem que um dia foi e a outra mulher que amou. O que vemos do passado de Jeff parte do seu relato para Ann, uma narrativa que toma todo o segundo ato do filme. De dentro do carro de Jeff, no interior singelo, tomamos conhecimento de outro mundo de personagens e relações – um mundo mais conflituoso e ainda mais diverso.

Nós somos convidados a navegar, então, por esse outro mundo de Jeff e Tourneur. Nova York, São Francisco e Acapulco são alguns dos destinos relatados pelo personagem. Perceba-se como temos, aqui, dois tipos de lugares recorrentes no film noir: a grande cidade estadunidense de Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941) e Cidade Nua (The Naked City, 1948) e a cidade “estrangeira” de Gilda (Idem, 1946) e Uma Aventura na Martinica (To Have and Have Not, 1944). E não é por acaso: todo esse arquivo é agenciado nessa grande construção meta-noir de Tourneur.

Essa travessia por diferentes lugares, no entanto, não se dá na forma visual de um road movie. Não é a viagem que importa, é a expressão desses espaços que aparecem quase como fragmentos de uma narrativa sobre o noir. Isso está muito relacionado ao modo como Tourneur, aqui, decompõe o gênero: ele abre o formato e brinca com suas repetições. O exemplo mais notório desse modo de se relacionar com o noir é a femme fatale interpretada por Jane Greer, Kathie.

Essas duas personagens femininas agem muito diretamente sobre os diferentes modos como o protagonista se apresenta no filme. Isso pode sugerir que essas mulheres estão no filme em função do arco de Jeff. Uma suposição a princípio adequada, afinal, esta é uma reflexão aprofundada sobre o cinema noir, e é isso que é feito por boa parte do gênero. Mas Tourneur torna a questão mais complexa ao fazer delas não apenas parte das escolhas e da personalidade de Jeff, mas agentes ativas da narrativas e, consequentemente, das suas próprias vidas.

Fuga do Passado opera como uma máquina muito particular do cinema noir, que faz funcionar alguns de seus eventos comuns, mas frequentemente subverte a própria forma do cinema hollywoodiano, principalmente a partir de como organizar a sua narrativa. É muito difícil escrever um texto que faça justiça a essa máquina: grande, complexa, permeada de detalhes, fazendo de um arquivo imenso do film-noir as próprias peças que a fazem funcionar. Essa é a maior qualidade do filme e o que faz de Tourneur um autor muito especial.

Texto integrante do Especial Vestígios da Era de Ouro

Comentários (2)

CitizenKadu | quarta-feira, 27 de Novembro de 2019 - 16:32

Excelente texto para uma das grandes obras-primas do cinema. E uma das obras-primas do diretor.

Rodrigo Torres | sábado, 30 de Novembro de 2019 - 19:19

O próximo é gigante (e noir) também!

Josiel Oliveira | domingo, 08 de Dezembro de 2019 - 16:56

Muito foda a escolha do filme e a crítica, César.
Esse é o tipo de crítica que eu curto, insere a obra no contexto, contexto do gênero no caso, e como o artista/diretor se relaciona com esse contexto/padrões de gênero.
Parabéns, tem que manjar de cinema pra escrever uma crítica dessas.

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