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Fora de Série

(Booksmart, 2019)
6,7
Média
26 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A força do coming of age

8,0

O amadurecimento é uma fase tão importante na vida de um indivíduo que não é de se estranhar que exista um gênero inteiro dedicado a ele nas artes narrativas: o romance de formação, ou coming of age. Dentro dessa história, o tema mais comum é ou um pré-adolescente ou um indivíduo no final da adolescência ser desafiado por algum conflito que exija sua transformação emocional para conseguir sobreviver ao mesmo. O carisma do filão pode ser explicado justamente pela fácil identificação com a típica história de autodescoberta.

Pode-se dizer que o gênero tem tido um destaque e tanto aos olhos do público no novo século, onde talvez a juventude - e os produtos para jovens - nunca estiveram tão em voga. Fora de Série é a prova disso, sendo também a estreia na direção da atriz Olivia Wilde, famosa por papéis em O.C.: Um Estranho no Paraíso e House. A atriz dirige um roteiro de longa gestação, com o primeiro tratamento escrito por Emily Halpern e Sarah Haskins (O Pior Trabalho do Mundo) em 2009, o segundo em 2014 por Susanna Fogel (Meu Ex é um Espião) e por fim Katie Silberman (Megarromântico) em 2018.

A história do filme é sobre as duas melhores amigas Molly (Beanie Feldstein, de Lady Bird - É Hora de Voar) e Amy (Kaitlyn Dever, de Detroit em Rebelião) que nunca aproveitaram o ensino médio e os prazeres da adolescência, esforçando-se e focando-se nos estudos, resolvendo aproveitar a noite de véspera da formatura para festejar como não fizeram em anos. Amy, um tanto submissa à personalidade extrovertida da amiga Molly, acaba aceitando apenas pela possibilidade de tentar flertar com a skatista Ryan, por quem tem um crush.

Fora de Série é a tal comédia de erros com toques dramáticos que já vimos dar certo em projetos como Superbad - É Hoje, talvez a referência mais óbvia para o filme, e não apenas pelo fato da atriz Beanie Feldstein ser irmã mais nova do ator Jonah Hill (que também estreou nessa direção esse ano com o seu próprio filme de amadurecimento, o emocionante Anos 90). Assim como a obra de Greg Mottola, o filme atrai o espectador justamente pelo aspecto algo infantil e algo maduro de suas protagonistas, com projetos de vida e carreiras enquanto fazem piadas sobre sexo, masturbação e esccatologia e ao mesmo tempo se apegando à uma noção pueril de amizade.

É claro que o filme não vive apenas do seu referencial, e em seu primeiro filme Olivia Wilde demonstra bastante maturidade para se utilizar de recursos estilísticos que possam dar outro significado à cena: na cena clímax do filme, onde as amigas discutem, o uso de câmera e som é particularmente inteligente, em um plano sequência que inicia bem-humorado e termina bastante emotivo, o que acaba sendo um resumo do resto do filme e fazendo o filme ser além de apenas um “Superbad de saias”. Outras sequências, como Molly descobrindo para quais faculdades os colegas que detesta irão e sua evocação de suspense, ou a cena em que Amy mergulha em uma piscina atrás de Alex e a câmera subaquática acompanha a busca através do mar de pernas, produzindo um momento de estranha beleza, compõem um diferencial e tanto para a obra.

O roteiro conseguiu sair do básico “adolescentes fazendo besteiras” para um olhar humanista, com grande parte dos diálogos dispostos a desmanchar antagonismos e pré-julgamentos, onde o humor de contraste entre dois personagens é substituído progressivamente e com muita sutileza pelo entendimento do indivíduo e suas inseguranças. Assim, com uma primeira parte extremamente hilária e caricatural e outra bem mais intimista, fica até difícil não comparar com o clássico Clube dos Cinco, de John Hughes, ainda que as abordagens formais de câmera e encenação difiram um pouco aqui.

Bela adição ao filão, Fora da Série é o tipo de filme pequeno, no sentido de ser feito em uma escala menor em relação ao “cinemão” praticado hoje, mas que prova mais uma vez o tipo de força que esse filme tem falando de pequenos ritos e momentos pelo qual todos passamos cada um à nossa maneira. Para além disso, a maneira que encena o naturalismo dos diálogos, cheios de ritmos e afetos diferentes em uma única cena só faz crescer a curiosidade pela investida de atores atrás da câmera.

Comentários (1)

Alexandre Koball | sexta-feira, 21 de Junho de 2019 - 11:48

Sugou até o talo Superbad, e não chegou nem perto.

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