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Críticas

Cineplayers

O Horror da Autoconsciência.

5,0
De dentro dos "campos de estudos de experiências humanas" tão popularizados na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, vemos Saul. Saul também está em um desses campos para servir de "estudo", mas encontra-se numa situação sui generis: apesar de ser tão judeu quanto seus co-irmãos, ele colabora com os "estudiosos alemães" e com isso ganha uma regalia rara naqueles tempos e locais: Saul vive. Ou algo parecido. Encontramos Saul pela primeira vez recolhendo "restos de estudos", ou, simplesmente, mortos. Empilhados em grandes salões fechados, Saul os recolhe para o incinerador. Um trabalho já mecânico, com tanta vida quanto os que jazem nos corredores. Saul segue. E seguimos Saul, que vê algo passar por si, que ouve algo aqui e ali, que observa um corpo em especial, pequeno e franzino, alguém de quem Saul não se esqueceria. E começa a saga de Saul, e a nossa durante dois dias no seu encalço. Literalmente.

O nome do culpado pela assepsia cinematográfica mais exasperante da temporada é Lazslo Nemes, o vencedor de mais de 20 prêmios em 2015 com esse relato duro e sem concessão, seco e rascante. Nemes teve em mãos a enésima visão sobre o holocausto nazista e, sabendo que ao menos o Oscar de filme estrangeiro já estava no papo (ou vocês conhecem algum filme badalado sobre o tema que passou em branco na Academia?), saiu em busca de identidade particular para seu petardo húngaro: filmar em (similar ao que Xavier Dolan fez em Mommy), técnica essa que mesmo o grande público já entendeu que serve para dar um clima claustrofóbico a narrativa e literalmente prender seus personagens na pequena atmosfera do espaço filmado. O resultado final? Tão competente quanto frio e distante. Pior que isso, um filme autoconsciente.

Nemes parece compreender muito da alegoria do cinema (não à toa, é pupilo de Béla Tarr) e usa a seu favor tudo que aprendeu logo na estreia. Aplaudido como uma vigorosa peça de cinema e um acontecimento impressionante para um estreante, não deixa de sê-lo, ao mesmo tempo que caminha com tanta segurança e altivez que é impossível não observá-lo soberbo e intocável, ciente da força de suas imagens. Oriundo de uma escola de onde já beberam os irmãos Dardenne, Saul é seguido a flor da pele. Sentimos seu suor, seu cansaço, seus poros, mas nunca sua humanidade, já esvaída; a de Nemes no entanto é bem palpável, e nada humilde.

Ao optar por ser claramente "os olhos de Saul" e condenar o espectador ao excruciante processo de ver somente o que o personagem vê (e imaginar todo o horror restante - ou não imaginar, já que o cinema nos expôs diversas vezes a tais imagens), Nemes cai numa armadilha e não tem como desvencilhar dela. Como criar uma cena de impacto macro, já que nosso campo de visão se limita aos olhos de Saul? Simples: você abandona a proposta ao seu bel prazer! E em pelo menos três cenas (vejam a ironia, as mais belas do filme, que inclui seus 15 minutos finais), Saul vira um personagem, e não apenas o motor em que seu diretor deliberadamente transformou.

Não ajuda nada o fato de Saul não despertar qualquer empatia. Egoísta, o personagem age exclusivamente por interesse próprio e frustra diversas pessoas que passam por ele e dependem dele. O ator Gëza Rohrig tem pouco a fazer, seu rosto quase não focado revela pouco; está morto há muito. No último frame em que é enquadrado, temos a certeza que o intérprete teria muito mais a acrescentar na condução dessa história, que parece mais inerte que seu personagem principal.

"O Filho de Saul" segue celebrado e premiado, parece que nasceu com esse destino. Seu grande pecado foi ter tanta certeza de sua grandeza e originalidade que cada cena parece meticulosamente cuidada e concebida, cada plano pensado por meses, cada movimento regulamentar ao extremo. Seu diretor revela compreensão total de seu alcance e de seu talento fulgurante, e com isso transforma em algo tão imageticamente evidente o que deveria ser apenas seu enfoque: a ausência de alma.

Comentários (16)

Felipe Ishac | sexta-feira, 05 de Fevereiro de 2016 - 23:42

julio, o pupilo do carbone...

Debora de Souza Ayres | sábado, 06 de Fevereiro de 2016 - 17:38

Ai gente. O Carbone tá nos dizendo que foi pretensão demais do cara. Ele deveria não ficar tão rígido. Quando o filme chegar aqui vejo. A crítica ficou bacana. Vocês não acharam?

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