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Farol, O

(The Lighthouse, 2019)
8,7
Média
7 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Requinte da barbárie masculina

10,0

Experiência dos sentidos, assim poderíamos definir O Farol, novo filme de Robert Eggers. Por trás das chaves que o diretor emprega direta do horror, é no mínimo imprudente encerrar suas características a convenções de gênero, apenas, sendo esse um filme com muito mais substância a oferecer. Sem entrar em bobagens de teses que já nascem furadas sobre pós isso e pós aquilo, a essência dessa produção a cargo de Rodrigo Teixeira é oriunda das bases do horror na História do Cinema: personagens encerrados em um ambiente progressivamente claustrofóbico duelam pela sanidade de um e de outro, ao passo que horror diário e comum ganha contornos cada vez mais concretos. Ou não. E a partir daí, esse filme especificamente acrescentará a sua dinâmica códigos do cotidiano que formatarão sua lógica.

De construção imagética a remeter aos clássicos do expressionismo alemão, inclusive na decisão de recortar a tela em 4x3 que tanto homenageia os primórdios do cinema como enclausura a dimensão de sua história ao delimitar os horizontes dos seus personagens, O Farol desconcerta as certezas. Da relação tóxica que é estabelecida desde o início entre Willem Dafoe e Robert Pattinson, passando pela construção e manutenção do que são aqueles dois seres antagônicos, a apresentação da ambiência no qual se acompanhará o drama encenado, até chegar nos elementos fantásticos cuidadosamente inseridos na atmosfera por completo opressora, estamos diante de uma obra construída para desestabilizar o entendimento, mas nunca para confundir. As respostas são dadas, mas talvez não sejam as respostas esperadas.

Ephraim é um homem pragmático. Tom é um velho lobo do mar que já não tem nada a perder. Como ao mesmo tempo respeita as regras do gênero e também as subverte em conceitos modernos, Eggers logicamente irá inundar um personagem no outro, borrando os relevos de seus tipos. Se rapidamente uma atmosfera homoerótica se estabelece enquanto desenho climático da ação, é porque suas camadas são ainda mais amplas do que a construção apresenta. Também esse dado é estabelecido e aos poucos investigado por ambos; a masculinidade endurecida na verdade não passa de uma máscara social da época, que o filme rearranja a ponto de conectá-los intrinsecamente, dois homens partidos que elaboram em si uma complementação necessária para conquistar o equilibro das coisas.

Das ferramentas do velho cinema, o diretor intercala referências possantes sem atrelar-se a nenhum outro cineasta em específico, ainda que passeie por tantos; parte da parceria com o fotógrafo Jarin Blaschke (que também esteve em A Bruxa), que aqui desvenda em PB os conceitos do expressionismo para criar um clima de sedução, mistério e gradativo pavor. Seu interesse é ainda mais pelas luzes difusas do lampião no cenário, das repetidas refeições pouco agradáveis aos olhos (alguém cogitou O Cavalo de Turim), do fascínio que o próprio farol causa em ambos a ponto de sua destruição variar dessa obsessão. Esse mesmo fascínio por uma construção de estrutura fálica é a base para a leitura sobre masculinidade frágil - e por isso tão imposta e declarada em ações, sejam elas de desprezo ou admiração ("você é bonito como uma pintura"). E se no anterior o diretor construía sua narrativa por meio da ameaça ao feminino, sua nova produção é um aríete na direção de todos os aspectos do masculino, até dos imaculados e recônditos.

Encabeçando a arquitetura da semi-destruição, Dafoe e Pattinson estão em patamar de difícil acesso por seus pares atores. Conjugando crescente desestrutura mental, devaneios eróticos e violência desesperada, ambos se doam em seus máximos: enquanto Dafoe acessa diversos lugares onde já o vimos anteriormente, aqui amplificados e ressignificados, Pattinson assombra mais uma vez. Depois de surpreender com sua presença nos últimos anos, aqui ele entrega algo muito complexo de construção, pois abriga diversos lados de personalidade, indo de uma passividade dócil até uma selvageria indomável, agravado por um crescente estado de perda de conexão com a realidade.

Robert Eggers entrega assim sua segunda obra, ambas complexas e assustadoras, que redefinem o cinema de horror moderno a um lugar para além da obrigação do jump scare ou de seguir uma cartilha que venha sendo seguida na atualidade. Através de diferentes formas de moldar linguagem cinematográfica e mixá-las a um arrojado trabalho de mise-en-scène cuja proposta ultrapasse o que o mercado espera do gênero, o diretor segue enfeitiçando plateias desavisadas com um requinte fora do comum, muitas vezes disfarçado do mais puro espasmo explícito e, porque não, escatológico.

Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo, em outubro de 2019

Comentários (7)

CitizenKadu | quinta-feira, 31 de Outubro de 2019 - 18:08

O problema não é ter gostado ou não de "A Bruxa", mas existe sim um grupo que gosta de ver este cinema como post-horror como uma pretensão artística que nega as origens do horror: dentro deste conceito então "O Exorcista" era um post-horror já em 1973 e "O Bebê de Rosemary"; estaríamos vivendo o post-post-horror. O meu problema é que esse grupelho de críticos e não com quem não gosta de um filme que eu não gosto; a discussão está no âmbito da crítica cinematográfica e não do gosto subjetivo . Quanto ao jump scare, ele existe em todos os clássicos, mas não da maneira banalizada como a gente vê nos genéricos de horror de diretores modernos; minha crítica a este tipo de jump scare também não impede que ele cumpra o que proponha mesmo que dentro de uma perspectiva barata de "meme
do Exorcista que pula na tela do computador e assusta o nerd"(é uma evolução muito ruim daquele excelente curta, "Lights Out)".

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 31 de Outubro de 2019 - 22:19

Bicho o classificacionismo pode ser útil quando propomos características específicas na criação de um subgênero que não se desgarrar do principal. O slasher, por exemplo. É útil. Porém podem ser chamados de filmes de terror. Ponto.

O lance do pós-horror, como citei acima, é uma arrogância de parte da crítica e da academia para com o cinema de terror. Sempre tiveram isso e quando viram um tipo de cinema que lambe as bolas que eles gostam partiram por criar uma própria classificação. Uma bosta completa. E os filmes nem são estas maravilhas. E também não são culpados por esta frescura.

CitizenKadu | quinta-feira, 31 de Outubro de 2019 - 18:15

Quanto a minha crítica ao James Wan, ele pra mim não é diretor, mas sim uma marionete de um "trem fantasma" que assusta com incautos justamente com o que eu considero jump scare barato. Hoje em dia ele dirige "Fast and Furious" e "Aquaman" sem marca autoral: a não ser que a marca dele nestas franquias sejam câmeras que caem junto com duas pessoas brigando digitalmente; ou uma cena de ação digital pior que o game "Uncharted". Paradoxalmente o primeiro "Saw" é um dos meus filmes preferidos de 2000 pra cá(assim como Final Destination teve um filme inicial original que gerou uma franquia fraca), mas isso eu dou crédito ao roteirista Leigh Whannell, que também acabou perdendo o valor narrativo em suas colaborações posteriores. Mas se hoje em dia James Wan é considerado salvação do terror...caraca, eu discordo. Conseguiram estragar "It" com este novo estilo de jump scare

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 31 de Outubro de 2019 - 22:21

O grande filme dele é o Jogos Mortais mesmo. No primeiro invocação do mal tem um trabalho de câmera legal, porém ele tá se perdendo nisso. O 2 taí pra provar.

CitizenKadu | quinta-feira, 31 de Outubro de 2019 - 18:20

Quanto ao fato de o "O Farol" não ter nada a ver com "A Bruxa", a maioria das coisas que incomodaram no primeiro envolve não o fato do gênero horror, mas como o estilo da direção foi utilizado para determinado gênero. A mesma coisa está acontecendo com Midsommar, que é diferente de Hereditário. O alvo são estes novos cineastas e a maneira como eles estão mudando o horror; mas este secto contra este tipo de filme mais psicológico e menos punheteiro é mínimo e os filmes estão tendo o reconhecimento que merecem pela qualidade que possuem ( porque eu sei que reconhecimento não significa qualidade).

CitizenKadu | quinta-feira, 31 de Outubro de 2019 - 18:29

Aliás "mudando" o horror; porque como eu disse não existe post-algumacoisa. Eles estão fazendo aquilo que "Os Simpsons" não fez, o que foi bom nos anos 90 hoje spó agrada nostálgicos ou reacionários. Diretores e autores novos que escrevem seus próprios roteiros e entregam algo que fazem parte de sua identidade devem ser discutidos e não rotulados. Esse é o novo cinema para mim: NOVOS AUTORES, indiferente do gênero. Eu vejo desprezo quando há rotulação, e não vejo argumento convincente; sair falando mal deles e comemorar o novo Pânico e o novo Halloween ou novo genérico de The Conjuring.
Por falar em Halloween estou junto com o mestre Carpenter, se post-horror é horror, porque a BABAQUICE de chamar de post-horror?Seguindo Carpenter eu digo que é tudo cinema de gênero, que não se nega como horror. A hipocrisia é tanto que grande porcentagem dessa tribo que rotula estes caras são os que botam "A Hora do Lobo" como filme de horror....quem nega o que afinal?

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