Saltar para o conteúdo

Família Addams, A

(The Addams Family, 2019)
4,9
Média
6 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Estalando os dedos ao som da música

5,0

A Família Addams é um conjunto de personagens originados na televisão, na década de 1960, mais frequentemente conhecido como uma sátira da família tradicional estadunidense – no mesmo modelo de outros seriados de fantasia de sua época, como Os Monstros (1964-1966), Jeannie é um Gênio (1965-1970) e A Feiticeira (1964-1972). Esta é a inversão da família de classe média do subúrbio que se consolidou nos anos 1950 pela cerca branca e os novos dispositivos de limpeza doméstica: os Addams, uma família com uma preferência pela escuridão melancólica, a poeira e o pessimismo.

Sua sinfonia é ainda hoje uma das músicas mais facilmente reconhecidas da televisão (ou da cultura pop como um todo); assim como também são facilmente reconhecidos os seus personagens (Morticia Addams, Tio Chico e Vandinha são figuras recorrentes em qualquer festa à fantasia). E o novo filme baseado nesses personagens, a animação A Família Addams (2019), conta com esse reconhecimento. Ele sabe, por exemplo, o momento em que a música deve entrar para gerar uma comoção na sala e um convite aos espectadores estalarem os dedos junto com a melodia.

O filme utiliza bem os artifícios que estabelecem esse tipo de comunhão entre os pais, que conhecem esse universo de personagens, e os filhos, que talvez ainda não conheçam. E há algo de tocante em sentir que você compartilha desse arquivo de referências com toda uma sala de cinema. De algum modo, A Família Addams funciona quase como uma sessão de cinema de algum clássico muito querido: você vai se apegando às expectativas pelo que ainda vai entrar em cena e contemplando o que ainda ressoa hoje, com você mesmo, ou na experiência coletiva da sala.

Por outro lado, no entanto, há muito pouco que o filme compartilha visualmente com as nossas referências para a Família Addams além desses ícones facilmente destacados (como os personagens e a música). Se comparado aos ótimos filmes dos anos 1990, estrelados por Anjelica Huston, Raul Julia e Christina Ricci, o mundo apresentado na animação parece demasiadamente limpo e lustroso – culpa de um tipo de animação digital que parece incapaz de colocar o sujo em cena. A técnica de animação, não por acaso, funciona apenas quando o filme se volta para o subúrbio perfeitamente colorido, organizado e higienizado de Nova Jersey que deveria aqui ser o extremo oposto da Família Addams.

A visualidade do filme não dá conta de produzir a oposição desejada entre o mundo dos Addams e o das pessoas “normais”, que é um conflito recorrente desde o seriado original. Nesse ponto, a animação só é capaz de mostrar que os Addams vestem preto e que sua casa é mal-assombrada. Mas o roteiro do filme, ao menos, descobre um modo de trabalhar bem essa oposição ao encontrar antagonistas bastante contemporâneos nessa Nova Jersey ordenada e intolerante em que todos desejam que suas casas sejam iguais às do programa de decoração que assistem na televisão.

Na mansão dos Addams, tudo é mais ou menos invertido, mas nada do que vemos nela de fato desafia a aparência de um mundo perfeitamente arranjado. Enquanto vários filmes de animação já encontram, nas técnicas digitais, possibilidades de reinvenção estética – como Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), Kubo e as Cordas Mágicas (2016) e ParaNorman (2012) –, A Família Addams parece ainda limitada à mesma visualidade preguiçosa, repetitiva e desinteressante de filmes como Meu Malvado Favorito (2010). Dizer que a animação é “feia” seria um elogio que não posso fazer ao filme; muito pior do que isso, ela é o produto de uma trivialidade industrial, resultado de uma esteira de produção com tão pouco espaço para criatividade quanto a que produz os itens padronizados de decoração que o filme supostamente critica. Resta-nos estalar os dedos ao som da música e esperar que, um dia, a Família Addams volte ao cinema com o apreço que seus personagens merecem.

Comentários (0)

Faça login para comentar.