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Críticas

Cineplayers

Mistura de ação e ficção científica que fizeram um clássico dos anos 80.

8,0

James Cameron é um daqueles cineastas capaz de doar o próprio sangue, suor e até mesmo uma boa quantia em dinheiro para levar seus projetos adiante. Quem conhece a histórica produção de Titanic sabe o quanto o diretor passou pro trancos e barrancos para finalizar o longa, explodindo orçamentos e levando o elenco à loucura, tamanho seu perfecciosnimo atrás das câmeras. Deu certo, pois a história do malfadado transatlântico se tornou um dos mais autênticos sucessos do Cinema. E talvez por sua enorme popularidade, é que poucos lembrem que Cameron já havia passado por dores de cabeça semelhantes quando começou a trabalhar na produção de O Exterminador do Futuro, uma mistura de ação e ficção cientifica da qual muitos duvidaram na época, mas que abriu diversas portas para que Cameron se firmasse como um dos diretores mais competentes dos anos 80.

Sim, pois a primeira idealização foi imediatamente recusada logo de início, algo que não lhe impediu de levar sua ideia adiante. Ele chamou mais quatro mãos para reescrever seu roteiro, e conseguiu a atenção da produtora Gale Anne Hurd, que viria a comprar os direitos do filme pela barganha de um dólar. Levando o roteiro a sofrer mais alguns cortes em razão das restrições orçamentárias, um dos principais responsáveis pelo formato final da obra, e a escalação de um popular Arnold Schwarzenegger (que acabava de vir do sucesso de Conan - O Bárbaro) na pele do impiedoso cyborgue T-800, Cameron misturou essa salada e deu vida a um improvável clássico do gênero, numa obra que encontrou seu ponto alto justamente em sua econômica narrativa, obrigando-o a respeitar seus limites orçamentários e encontrar soluções criativas para seu filme.

A própria trama em si é absurdamente simples, onde o andróide T-800 é enviado aos anos 80 do futuro para assassinar Sarah Connor (Linda Hamilton), enquanto que o soldado Kyle Reese (Michael Biehn) também é enviado para proteger Sarah do destrutivo ciborgue. O motivo: Sarah será a responsável por dar a luz à John Connor, que no futuro será o líder da resistência humana após um holocausto nuclear, onde as máquinas viriam a dominar o planeta.

Cameron vai, através de flashbacks simplistas e esclarecedores, nos revelando sobre a atual situação do futuro após o domínio das máquinas, o que joga o espectador no mesmo nível do ceticismo inicial de Sarah, que aos poucos vai compreendendo a gravidade e a dimensão de sua situação, e sua própria importância enquanto geradora do líder da humanidade. Nesse último ponto, recebemos um forte discurso feminista por parte de Cameron, fortificando a figura da mulher e transformando-a em mais do que um mero rosto frágil que precisa ser protegido. É um discurso inserido de maneira sutil, mas bastante forte, o que eleva o status de O Exterminador do Futuro para além de um mero filme de ação.

Isso porquê Cameron também insere incitações curiosas sobre a própria identidade visual da época e as próprias idealizações do público sobre o que seria o futuro. Como o visionário que é, elabora inteligentíssimas rimas visuais sobre o presente e o possível futuro, onde a identidade do movimento punk, indo das roupas e acessórios até o estilo musical, entra num conflito curioso com a presença dura e sem expressão do T-800, sempre vestido de preto e com óculos escuros, numa representação incerta do amanhã.

Para tanto, Cameron não trabalha em cima dos estereótipos cibernéticos ao qual o público estava acostumado (algo, acredito eu, também resultado das restrições monetárias), mas coloca uma figura de aparência comum em meio aos humanos para, aos poucos, desconstruí-la (literalmente) aos nossos olhos. Nesse ponto é que podemos ver o quanto uma boa técnica pode ser aliada da história, transformando-a num poderoso elemento narrativo, pois conforme os conflitos corporais vão acontecendo na tela, vemos o T-800 sendo gradativamente destruído, sofrendo danos, obrigando o espectador a passar pela angustiante experiência de ver o monstro ser revelado aos poucos, assumindo contornos cada vez mais assustadores. É nesse ponto que, apesar do baixo orçamento, fica impossível não reverenciar o trabalho de maquiagem de Stan Winston, que alcança uma sensação de realismo absolutamente digna. As explosões e acrobacias das eletrizantes cenas de ação também impressionam por não se limitarem aos efeitos gráficos, impressionando o público até hoje por sua veracidade. Tal excelência técnica entra em conflito apenas nos momentos finais, quando temos o T-800 num stop-motion bastante artificial. As cenas em animatrônicos, entretanto, compensam graças aos criativos e funcionais posicionamentos e movimentos da câmera de Cameron, conferindo as impressões exatas aos movimentos do T-800.

Schwarzenegger encontrou na sua roupagem do inexpressivo andróide T-800 a figura ideal para catapultar de vez seu estrelato. Muito longe de ser um bom ator, Arnold faz bom uso de sua aparência truculenta e de seu sotaque austríaco carregado para dar vida a um personagem marcado por estas características, onde um simples diálogo como “I’ll be back” acabou ficando eternizado pela voz do ator. Linda Hamilton convence como a inicialmente assustada Sarah Connor, que conforme vai tomando conhecimento de sua própria importância, assume contornos mais definitivos e audaciosos. Michael Biehn é o único elo fraco do elenco, onde sua ausência de carisma dificultam o envolvimento do público com os conflitos internos de seu personagem.

Encerrando o longa com um desfecho que apenas deixa incertezas no ar (incertezas estas que viriam justificar a popular continuação dos anos 90), Cameron criou um dos mais improváveis clássicos dos filmes de ação e ficção cientifica, numa felicíssima união entre os dois gêneros, resultando numa obra excitante, nostálgica e até mesmo reflexiva. É cinema que apenas enriquece com o tempo.

Comentários (10)

Cristian Oliveira Bruno | sábado, 04 de Julho de 2015 - 21:27

Mas nada,, nem Titanic, supera Terminator 2. Um dos maiores de todos os tempos.

Pedro Henrique | segunda-feira, 06 de Julho de 2015 - 15:37

Esse Tom Selleck quase interpretou o Indiana Jones e também foi cotado pro Terminator. Teria se tornado um dos grandes ícones de Hollywood certamente.

Patrícia R. F. Lazzarini | segunda-feira, 06 de Julho de 2015 - 17:22

Concordo na aura bastante oitentista do Exterminador do Futuro, acho que, em um paralelo rápido, é o único filme do Schwarzenegger que gosto, posso ter esquecido de algum outro, claro, contudo, o 2º é ainda mais épico, e tenho que ressaltar a música do Guns, nostalgia pura. 😎

Karlos Fragoso | segunda-feira, 13 de Julho de 2015 - 10:50

Clássico da ficção científica!!

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