Saltar para o conteúdo

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

(Onward, 2020)
7,0
Média
55 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Melancolia animada.

7,0

Com uma rápida passada de olho por cima dos títulos já lançados pela Pixar, este Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica é muito provavelmente o mais pesado que a empresa já colocou nos cinemas. É tematicamente coerente com o resto da sua filmografia, que explora os sentimentos humanos como lealdade e saber seguir em frente (Toy Story 3); ou a imprevisibilidade da nossa mente (Divertida Mente); ou ainda a incerteza do que há após a morte (Viva: A Vida é uma Festa). Em Dois Irmãos, o título nacional extrapola o tema ao colocar dois jovens que perderam o pai - um quando era muito pequeno e o outro nem chegou a conhecê-lo - vivendo com a devota mãe, até que um dia, quando o mais novo completa 16 anos, descobre que a magia esquecida naquele universo perante às facilidades da tecnologia pode trazer o pai de volta, dando a eles a oportunidade de viverem experiências que a casualidade do destino os tirou.

Só que o mundo deles não é como qualquer outro: explorando bem a crescente cultura pop que ganhou força nas últimas décadas, o corriqueiro em Dois Irmãos é aquele fantasioso para nós, uma Terra povoada por gnomos, ogros, dragões e todo tipo de criatura mística que endossaram páginas de livros como O Senhor dos Anéis ou RPGs como Dungeons & Dragons. Lembra a construção de ambientes dos melhores dias da Pixar, quando ela escolhe um tema e o desenvolve de maneira criativa e divertida, para criar não apenas os seus personagens, mas também aquele universo, tornando-o vivo e divertido.

Os irmãos elfos são opostos, mas ambos problemáticos: Ian, o mais jovem que não conheceu o pai, vive as consequências disso em sua personalidade: tímido, inseguro, solitário e melancólico pela falta que o pai faz. Já Barley, seu irmão mais velho, carrega algumas semelhanças como a anti-socialidade, mas é forte, se acha descolado - e, por isso, acaba se exaltando socialmente -, viciado na história do seu universo e em RPG, chegando a decorar todas as magias esquecidas pelo seu próprio povo. Conviveu com o pai e tem lembranças dele, para o bem e para o mal.

A dinâmica entre os dois lembra muito um jogo que saiu na geração PlayStation 3 e Xbox 360 chamado Brothers - A Tale of Two Sons, onde você controla dois irmãos que acabaram de perder a mãe, ao mesmo tempo, com um controle só, onde cada direcional toma posse de um deles. Isso cria um vínculo instantâneo conosco, um elo indissociável que é fundamental para que aquela aventura funcione. Já em Dois Irmãos, o filme da Pixar, a magia que Ian ganhou de aniversário se faz incompleta e apenas a metade de baixo do pai retorna, tendo eles 24 horas para terminar o feitiço e trazer o pai por completo para que eles possam ter novamente um momento com ele. É um tema, por si só, muito pesado. Qualquer um que vá assistir ao filme terá uma conexão imediata com ele porque, afinal, todo mundo tem um pai, seja ele presente, ausente, de aluguel, falecido ou até mesmo o caso onde nós somos o pai da vez; me enquadro por aqui.

A aventura em si, porém, não é tão inspirada assim. Ela tem bons momentos, mas também há vários outros onde as coisas não são tão alentas assim, beirando a ingenuidade ou o melodrama. Os arcos são um pouco confusos: a mãe vai atrás dos meninos ao lado de uma mantícora, mas parece mais que o roteiro não soube como colocá-las na aventura de maneira mais orgânica. O padrasto, um centauro policial que tem um papel importante na trama, não tem uma construção de personagem que nos faça ter qualquer empatia por ele. E, é claro, a jornada dos dois irmãos, que irão passar por momentos pincelados para aprenderem, juntos, que a vida pode nos tirar algo, mas muitas vezes somos incapazes de enxergar valor naquilo que temos, até perdemos e ser tarde demais.

O pai que acompanha os meninos é incapaz de abraçar, falar, sorrir ou até mesmo ouvi-los, pois apenas suas pernas estão lá. Isso deixa tudo ainda mais macabro. Em uma tentativa de contrapor essa configuração baixo-astral demais, o filme coloca um corpo desengonçado feito por roupas e demais apetrechos de vestimenta, lembrando muito a dinâmica corporal de um clássico dos anos 80, Um Morto Muito Louco. Conflito do próprio diretor Dan Scanlon, que colocou sua experiência pessoal no projeto, já que ele perdeu o pai quando tinha apenas 1 ano e isso certamente foi uma forma dele lidar com o caso. No cinema, ele pode ter o pai de novo, nem que seja por 24 horas, e aí está a magia real do nosso mundo. Prepare-se para um daqueles finais desunamos que deveriam ser proibidos de existir de tão chorosos; o que tem sido uma assinatura da Pixar ultimamente.

Comentários (1)

Alan Nina | sábado, 07 de Março de 2020 - 12:24

Excelente texto, Cunha!

Faça login para comentar.