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Críticas

Cineplayers

O tagarela chegou para renovar.

7,0
Em um primeiro momento, peço que sejamos simplistas ao tirar aquilo que há de melhor em Deadpool (idem, 2016): seu humor. O que sobra é a história de um homem que vive de pequenas tarefas mercenárias, em um mundo caótico e cercado de pessoas de índoles duvidosas; ele mesmo diz não ser um herói. Ao se apaixonar por uma prostituta, vê sua vida começar a ter um lado positivo, até que recebe a triste notícia que está com câncer terminal (alguns). A partir daí, aceita a oferta de um tratamento alternativo que o deforma, mas também o cura e, pelos métodos adotados, faz com que ele decida ir atrás do homem que fez o procedimento. Meio simples, né?

Mas com Deadpool nada é tão simples assim.

Ele é o que é justamente porque, se o esqueleto é igual, todo o tecido, a carne e a pele que completam o seu corpo são totalmente alienígenas perto dos demais filmes da Marvel. Uma autópsia completa o separa dos tradicionais por 3 fatores: 1, sua irreverência e um cinismo delicioso, já que é impossível ignorar esse humor; 2, suas cenas de ação são sólidas e eficientes, além de possíveis de se acompanhar, reduzindo os cortes e até usando com bom gosto a câmera lenta, tão renegada no atual gênero; e 3, usa da violência esdrúxula para ser divertido pra caralho, abrindo todo um novo leque de possibilidades a heróis que, agora, soam ultrapassados para uma geração de jovens sedentos por violência gráfica.

Ainda que sua estrutura denuncie ser apenas mais um filme de herói – o final é até meio patético -, toda essa abordagem diferenciada o torna obrigatório para quem gosta de um filme do tipo; convenhamos, quem vai assistir a um trabalho da Marvel não está esperando algo que mude a sua vida, que faça reflexões profundas ou que traga uma experiência metafísica. O papel de Deadpool é puramente divertir e isso ele faz com uma excelência ímpar, seja no estilo imprudente, no tom de auto-paródia que adota (sobra pra todo mundo, sem o menor filtro, até para quem tá assinando os cheques da produção) ou nas piadas de humor negro totalmente duvidosas para a época politicamente correta em que vivemos - será detestado por alguns por isso.

Esqueça aquela personificação sem sal e quase amadora vista na participação do terrível X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, 2009): o filme ganhou corpo e tem personalidade, tudo isso graças ao esforço de Ryan Reynolds, que além de ter feito o papel de Deadpool naquela ocasião, trabalhou duro para que o personagem ganhasse um filme próprio e com a abordagem que merece (censura 18 anos). Com total liberdade para improvisação – o diretor é o estreante Tim Miller, provavelmente apenas um funcionário seguindo regras –, até mesmo personagens anteriores de Reynolds são ridicularizados pelos diálogos bem escritos e precisos; “desde que eu não use uniforme verde” é dito em certo momento, uma clara referência à tragédia que foi Lanterna Verde (Green Lantern, 2011). Acredite, será feito piada com absolutamente tudo e todas elas funcionam muitíssimo bem dentro do contexto em que são proferidas.

Se há um defeito muito grave, este pode ser dito da turma de vilões. Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) ensinou que um vilão bem construído, com uma interpretação marcante e cenas inesquecíveis pode tornar o seu filme um sucesso porque coloca em prova o personagem título; a dificuldade o engrandece, o desafio atrai o público para o seu lado, mesmo que de forma inconsciente. No caso de Deadpool, não há ninguém que se salve em um elenco totalmente sem sal, estereotipado ao máximo e descartável para a mitologia Marvel como um todo. Pelo menos as participações especiais são legais para caramba e adicionam ao universo de maneira significativa, principalmente para quem não imagina o que irá encontrar pela frente.

Adotando um estilo mais moderno também na sua narrativa não linear e na forma com que o herói quebra a quarta parede ao falar diretamente com o público (fidelidade máxima à HQ), eleva os padrões e dá um novo gás aos já cansados e saturados filmes da Marvel, seguindo os passos do também excelente - e diferente! - Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014). Tentei me ausentar de informações externas a fim de evitar que elas estragassem a experiência final; colegas dizem que quem viu os trailers pouco tem a ver na obra final. Uma pena. A divulgação foi pesada mesmo, dos mais diversos tipos e tons – até uma mensagem para o Brasil foi gravada, para a Comic Con Experience. Reynolds realmente apostou no personagem e ele é bom mesmo, vai dar certo. Agora é colher os frutos e esperar por um já anunciado Deadpool 2, mesmo que esse filme não tenha muito para onde ir. É torcer para que seja tão sem pé no freio quanto este filme introdutório ao personagem.

Ps: há uma cena divertidíssima nos pós créditos, principalmente para quem conhece o cinema dos anos 80. Vale a pena esperar.

Comentários (12)

Rafael Medeiros | quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016 - 07:46

Fazia muito tempo (nem lembro) que eu não ria tanto no cinema como ri desta vez.

Hilário esse DeadPool.

Recomendadíssimo!

Declieux Crispim | quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2016 - 15:20

Um amigo cinéfilo escreveu que é o melhor desde Cavaleiro das Trevas, no portal UOL se não me engano foi postada uma crítica na qual o jornalista disse ser o melhor de todos os tempos. Neste contexto, fui assistir ao filme, e realmente ele é bom, mas não tudo quanto dizem. Dizer que é o melhor é esquecer que grandes filmes foram realizados, os dois primeiros do Superman, os dois Batman do Tim Burton, os dois primeiros do Homem Aranha dirigido pelo Sam Raimi e o Hulk do Ang Lee dentre outros que devo ter me esquecido. Após o filme do Nolan (não é um grande diretor, mas gosto bastante do Cavaleiro das Trevas), penso que o primeiro filmes dos Vingadores e o primeiro do Capitão América são melhores, mas Deadpool é um oxigênio ante a tanta mediocridade nos filmes recentes de super heróis.

Alexandre Koball | quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2016 - 16:19

Muita gente (MUITA) não sabe separar marketing da qualidade real do filme. Isso explica o pq no IMDb quase todo filme novo de heróis alcança o Top 250 em poucos dias após seu lançamento (e com o passar dos meses some).

Cinellas | terça-feira, 05 de Julho de 2016 - 18:10

Também fizemos uma resenha crítica e avaliação do filme Deadpool.

A quem interessar:
http://cinellas.com.br/2016/07/02/deadpool/

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