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Críticas

Cineplayers

M. Night Shyamalan volta às telas com seu conto de fadas. Não é ruim, mas também não é bom.

4,0

M. Night Shyamalan é um cineasta que aprendi a gostar e respeitar. Não sou um de seus mais ávidos fãs, mas reconheço que suas obras são bem filmadas e sempre têm um “algo a mais” em Hollywood. Com A Dama na Água, o diretor indiano nos entrega um conto de fadas bobo, bonitinho e com sua mensagem de moral clara demais. Parece até um filme da Disney; ironicamente, a empresa que o dispensou por achar que seus filmes eram pesados demais para seu público. Tirando a bela direção de imagens, tudo, mas tudo mesmo, foge das principais características do diretor que o consagraram.

A história é bem fairy-tale mesmo: Cleveland é um porteiro comum de um condomínio com vários moradores. Todos são muito excêntricos e possuem características bem definidas: há o viciado em palavras cruzadas, o grupinho que se junta para “puxar” um, o homem que malha apenas um lado do corpo, etc. Tudo muda quando Story (?!?) chega na piscina do local, uma narf que, assim como a introdução em animação do filme explica, é um ser das águas responsável por tentar ajudar o homem a seguir o caminho correto para a humanidade. Só que, nessa visita ao nosso mundo, alguma coisa dá errada e Story passa a ser perseguida pelos terríveis scrunts, lobos com poderosa camuflagem que tentam a todo custo comer narfs. Cabe ao nosso querido Cleveland ajudar a moça a voltar para sua terra natal.

A Dama na Água não é tão bom quanto os outros filmes de Shyamalan, mas também não é ruim como dizem - é apenas broxante. O problema é que, para um filme com o nome que carrega (M. Night Shyamalan's acima do título), é simplório demais. Tudo está muito no lugarzinho, não há nada que nos prenda ao filme. As coisas simplesmente vão acontecendo e é isso, até o final. Sem surpresas dessa vez, uma das maiores características do diretor, que foi deixada de lado. É um filme de fantasia de luxo, com direito a alguns sustos, principalmente por parte dos bichões scrubs, já que Shyamalan sabe criar como ninguém momentos de tensão com seus bichinhos de estimação digitais. Duas coisas que poderiam deixar o filme ridículo: figurinos e luz. Ao contrário da maioria dos filmes do tipo feitos para a televisão, A Dama na Água é bonito mesmo. Tudo é muito real, convincente. Nada é “plastificado”.

Só que o filme sofre com a falta de história para o roteiro e isso é muito claro. Há muita enrolação, muito vai e vem. Até a moral da história é dada ainda no meio do longa. Para que ver o resto depois, então? E tempo para desenvolver a história Shyamalan tinha, uma vez que todo o desenvolvimento da trama é feito por uma personagem, que conhece a “lenda” e explica tim-tim por tim-tim para Cleveland – e, conseqüentemente, para o público. Já que Shyamalan não conseguiu pensar em nada melhor para narrar a sua história, nada mais cômodo do que colocar um personagem que sabe de tudo para tacar tudo à frente.

Paul Giamatti, para variar, faz um trabalho fabuloso e, mesmo falando palavras absurdas, nunca soa ridículo ou falso. Bryce Dallas Howard trabalha mais uma vez com o diretor, depois de A Vila, e Jeffrey Wright fecha o elenco de peso do longa – afinal, Shyamalan é um nome que atualmente atrai qualquer um para trabalhar com ele. Mas o grande destaque do elenco, por incrível que pareça, é o próprio Shyamalan. Antes ele se resumia a fazer pequenas aparições em seus filmes, mas dessa vez ele encarna um personagem realmente importante à trama, com muitas falas e participação essencial para a conclusão da trama.

Não é ruim como um todo, mas o ego dele parece ter subido a cabeça. Ou então foi uma forma de auto-afirmação, afinal, a crítica desnecessária aos críticos, quase explicitamente dizendo “vocês acham que sabem de tudo, mas deixe-me mostrar como se faz”, soa extremamente arrogante, disfarçada pelo clima leve e ingênuo do filme. Ele devia continuar ignorando os críticos e fazendo seu trabalho, sem deixar que ninguém o influencie. Não foi isso que aconteceu aqui, e a falta de contexto na crítica acabou fazendo tudo parecer apenas questão de ego ferido.

Ainda assim, A Dama na Água não é ruim pelo simples fato de nunca ficar insuportável. É perfeitamente possível começar a ver o filme, esperar todo o seu desenvolvimento e chegarmos ao final – só para lembrar, sem surpresas dessa vez, é algo mais poético e pessoal. Shyamalan deve pensar novamente em uma boa história ou dirigir roteiros de outros sem ficar prestando atenção no que dizem ao seu respeito. Ainda gosto de Shyamalan, mas se ele continuar a tentar fazer guerra de braço com aqueles que nunca gostaram de suas obras e esquecer aqueles que sempre deram valor aos seus trabalhos, a coisa vai ficar feia. Ele já corre o risco de perder a liberdade total em seus projetos, então um outro fracasso pode colocar tudo a perder.

É bom ele pensar nisso. Para o próprio bem. E o nosso também.

Comentários (1)

Luiz Fernando de Freitas | sexta-feira, 01 de Junho de 2012 - 13:47

De todos os editores deste site, o que tenho mais simpatia e respeito é você, Rodrigo Cunha. Nossa visão sobre o cinema e apelo pela nostalgia é bem semelhante, além do gosto eclético e na forma de análise dos filmes sob as suas mais diferentes perspectivas e propostas. Porém, tenho que admitir que desta vez, vou ter que discordar da sua análise!. Respeito a sua opinião, mas acredito que todos os que criticam "A Dama na Água", não o assistiram pelo o que ele realmente representa, ou seja, foram com as expectativas equivocadas, e com isso a decepção é quase inevitável. Não vou me aprofundar nas minhas impressões para com este filme, que é um dos projetos mais subestimados do diretor e da década. "A Dama na Água" é sublime, criativo, belo, metafórico, inteligente e de uma técnica invejável. Sem dúvida um dos melhores trabalhos do diretor indiano!!!😉

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