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Canto dos Ossos

(Canto dos Ossos, 2020)
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Críticas

Cineplayers

Psicodelia trash

7,5

Poucas coisas poderiam ser mais positivas para Tiradentes que exibir um longa de terror-trash-vampiresco-LGBTQ e sair não apenas ileso, mas refrescado de uma agenda obrigatória que delimita qualidade à limpeza estética e/ou traços político-narrativos explícitos e/ou pautas lacradoras; os filmes podem não ter essas características e serem bons. E ouso dizer que Canto dos Ossos (2020) talvez seja um filme necessário, não apenas na produção cinematográfica de hoje como um todo, mas principalmente se infiltrando no mercado fechado do festival nacional indie. Por que o cinema de Jorge Polo e Petrus de Bairros é menor que o de André Novais Oliveira?

É um bicho intruso na disputa da Aurora, ainda que um intruso de excelente procedência, e acompanhamos uma saga vampírica separadas no tempo em 60 anos, e que acompanha um casal de criaturas da noite nada usuais. Esqueçam os clichês do que um vampiro pode ou não, os diretores não estão com tempo pra mitologia. O filme se encampa num universo próprio e muito particular que volta a encontrar seus protagonistas nos dias de hoje vivendo com mediocridade sua existência; ela uma professora, ele um balconista de farmácia, afastados um do outro e vivendo sob égides distintas.

O filme é uma grande descarga de diversão onde os desenvolvimentos dos personagens importam menos que suas ações e seu quadro amplo organizacional, com suas tribos vistos de maneiras distintas e antagônicas, que aos poucos se esbarram e definem uma rivalidade não-explícita; é mais uma diferença de postura que os definiriam. Enquanto os vampiros carregam a sexualidade aflorada e um posicionamento libertário ante às mesmas, em clima de "hedonismo-dark", a seita nêmesis tem interesses monopolizadores, nas instituições e com os indivíduos - logo, fica claro por quais "monstros" torcer.

Com um visual "rebuscado pop-pobre" que funciona muito bem baseado na proposta do filme, técnicas imagéticas que se descontínuam, um roteiro que não se empenha em fazer um grande sentido, mas por incrível que pareça, ao final da jornada todos os sabores estranhos voltarão à memória. É esse tipo de filme que definitivamente estava faltando a uma Mostra Tiradentes, que não se leve a sério embora tenha lá suas metáforas com a situação do Brasil hoje, na própria forma em como a produção acompanha seus personagens que entram e saem da narrativa em blocos.

Flertando com uma certa psicodelia que leva o filme a textura de uma década libertadora quanto os anos 1970, o filme se dividiu no trabalho de diversos fotógrafos, o que talvez justifique a mudança audaciosa de tom de determinadas cenas para outras. Em particular uma grande sequência de eventos funciona inteira como uma vitrine do projeto, que é a que compõe a ida pra fazenda das duas duplas de moto, desde a chegada até o brilhante final no açude. É todo esse momento que pende a experiência com Canto dos Ossos como algo acima da média e que suas imagens reverberarão pra fora da Mostra. Pela necessidade desse cinema de risco todos os dias.

Crítica da cobertura da 23ª Mostra de Tiradentes

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