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Críticas

Cineplayers

Pinochet à sombra do pequeno Vladi.

5,0
O longa de Gonzalo Justiniano começa com uma breve passagem 'atual' e rapidamente volta no tempo até 1983, ainda durante a ditadura de Pinochet no Chile. Mais precisamente durante período ainda grave dessa parte da História, ao mesmo tempo em que resolve olhar para um grupo inusitado dentro daquele universo. Aos poucos nos damos conta de que há uma tentativa de criar aquele típico filme de família desfuncional, só que nos anos de chumbo chilenos. Não dá pra negar a ousadia dessa escolha, em tese; no manancial de filmes e histórias já contadas acerca desse momento, que acabam dialogando com tantos outros momentos de repressão que o cinema já abordou, olhar com essa bússola desforme é nitidamente um respiro.

De cara, a trajetória do jovem missionário religioso que aporta numa casa repleta de Gladys (três gerações de mulheres da mesma família tem o mesmo nome), se afeiçoa para além do devido e ao invés de 'pregar a palavra do Senhor' passa a ajudá-los em suas perigosas atividades contra os desmandos do ditador, é de profundo frescor. O filme tem uma abordagem madura do tema, um desenho honesto desse protagonista, ao mesmo tempo que promove uma certa leveza nas cores de algo já explosivo. Ainda assim, o filme parece tímido com seu pano de fundo, e aos poucos o interesse romântico que surge entre os protagonistas vai criando raízes e toma conta da narrativa, criando uma estrutura renovada porém meio perdida nos propósitos.

Soma-se isso ao fato de que Justiniano não necessariamente cria uma identidade visual ao filme. Nada passa de uma assinatura convencional com um recorte que se entende como documental vez por outra, como quando o protagonista sai para exercer sua função naquela sociedade (já que ele saiu dos Estados Unidos para pregar por lá), e a câmera então passa a fotografar esses rostos reais de chilenos muito marcados, dando uma carga dramática necessária ao filme. Mas nada disso reverbera fora do imagético, e o filme não consegue criar dramaticidade narrativa com as imagens. Sam é um missionário que tem a fotografia como hobby, então o filme usa uns filtros amarelados para construir o material que o protagonista obtêm, mas também isso não tem qualquer relevância dramática aparente, ficando no ar como uma firula sem sentido.

Se tem uma coisa que é admirável em Cabras de Merda é seu elenco, que infelizmente é desperdiçado. Dos protagonistas aos coadjuvantes, passando pela figuração, o filme tem um corpo de trabalho muito acima da média. Mas apenas um nome não sai da cabeça do espectador ao sair da sessão: Vladi. Interpretado pelo pequeno Elias Collado, o garoto não é apenas um poço de carisma, como há talento real ali. Suas interações com qualquer outro do elenco resultam em cenas que passeiam por muitas emoções diferentes, injetando vigor e força cênica as cenas, de onde ele sai sempre com tiradas impagáveis e um olhar incrível, sem jamais deixar de ser a criança que ele é. Em especial a dupla que ele forma  com o Sam de Daniel Contesse move muito do interesse do público com a obra.

Infelizmente o ritmo do filme é muito comprometido com uma aceleração final meio descabida, talvez resultado de uma remontagem depois de pronto. Perdendo suas características originais para adquirir a urgência e a tensão que um clímax exige, o filme parece apontar para um lado bem diferente do original. Se os conflitos precisam ser resolvidos, não há diegese suficiente para que tudo desça com naturalidade. Também falta emoção na condução desse desfecho, e de forma burocrática empilham as soluções para simplesmente encerrar a produção. Uma pena porque, apesar de não ter um ponto alto, Cabras de Merda teria condições de se vestir como um trabalho superior, e no final das contas só temos a certeza de que o menino Collado é inesquecível, e nada mais. 

Filme visto no Cine Ceará 2018

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