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Bruma Assassina, A

(Fog, The, 1980)
7,3
Média
148 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A capacitação monstruosa em aterrorizar com o diabo de uma fumaça

8,0

Mais um material terrorífico do John Carpenter, agora, buscando homenagear o mestre do apavoramento sobrenatural literário H. P. Lovecraft. Segue-se o padrão de construção atmosférica incitado desde  Assalto à 13ª DP (Assault on Precinct 13, 1976), porém agora o ambiente é singular cidade interiorana e o modus operandi segue menos frenético que suas fitas anteriores, mas ainda deveras urgente. O diretor entra de vez no esquema sobrenatural em A Bruma Assassina (The Fog, 1980), apostando no medo do obscuro etéreo. O desconhecido, do além, e o disforme eram coisas caras ao Lovecraft, e é junto a estes elementos que o diretor vislumbra este outro mestre.

Há a aposta acertada nalguns tons iniciais terríficos conservadores, tais quais elementos de conto literário – o coroa contando história para crianças num introdutório frente a uma fogueira. Junta perfeitamente no caráter de homenagem citado e encaixa com a estratégia da obra. Com calma e vagareza programada. Junto a esta construção narrativa calculada temos alguns jumpscares altamente espertos desenvolvidos. Algo sendo padrão obrigatório nos slashers dali em diante. Aqui serve bem à narrativa. Inclusive quando verificamos uma neblina ante sua lentidão proclamando o mal pelo que carrega. E partindo desta tensão dilatada desenvolvida, Carpenter aproveita o clima assombrando-nos com elementos simples, tal qual um padre saindo das sombras, ou então brinca na repetição do susto – antes mesmo de ensejarem o sarro com jumpscares – como quando assusta duplamente a personagem da Jamie Lee Curtis, e os espectadores, até mostrar o primeiro corpo deixado pela névoa. Falando da moça, é bom citar a desenvoltura dos encontros de personagens, como quando a própria recebe carona e em seguida já é vista na cama de quem lhe deu esta carona. Sexo. No plano seguinte. A maravilha das relações entre personagens os anos 70 e 80. Direto. Sucesso.

O temor chega altamente devagar. À semelhança dum grande navio pirata deambulando pela orla. Imponente e perigoso. Sons brutos dentro do silêncio incômodo e várias coisas esquisitas acontecendo. Trilha e som. Bom uso dos tons graves altos em exagero. Usufruto, também, de piano e órgãos na trilha, trazendo tom maléfico vinculado a um padre do século 19 que escondera diversos segredos na criação da cidade. Esta, amaldiçoada em sua origem -  os eventos ocorrem exatamente no dia da comemoração dos seus 100 anos.

Nosso chapa diretor usa sempre dos mais variados artifícios a cada filme, assim ensejando diversos mecanismos de tensão para com seu público. Aqui ele usa como narração, e elemento vivo, uma radialista e seu rádio. Acaba servindo como termômetro do esculacho;  no desespero dela vemos o mal crescer. A cerração chegando no povoamento enquanto a mulher começa a juntar algumas peças acerca da desgraça a assombrar aquela localidade. Esperto por parte da direção, sendo algo que encaixa e divulga a tensão aos personagens. Principalmente quando, além de informar, o rádio abre comunicação, sim, entre os personagens. Como quando a aflita radialista, e mãe, se exaspera e pede alucinadamente que alguém salve seu filho. Ela não vai na direção do rebento porque tem a obrigação de advertir as pessoas. Isso é gaiatice do Carpenter para justificar a presença dela no farol/rádio, mantendo, assim, o crescimento no tom urgente necessário que desembocasse no terceiro ato.

A visão do carniceiro em busca das suas vítimas e em como sempre está presente na tela, em Halloween, ou quando nos dá somente a perspectiva das vítimas num local fechado, tal qual no já citado Assalto à 13º DP. Monstrotificação na vagarosidade. O breu. Neste, a fotografia soturna – num dos melhores usufrutos da escuridão dele – age como outra bússola amedrontadora. Se antes a perspectiva das obras estava aliada ou aos personagens ou a uma ação mais proeminente, aqui é a escuridão que permite o abeiramento do mal. O terror na chegada dos mortos. Luz somente nos rostos dos terrificados. Os desacelerados deslocamentos de câmera, mais que justificados pelo objeto da névoa, pressupõem o tom visual como a tal massa incorpórea está sempre no encalço. Segue os personagens os acuando na escuridão. As lentes a isolar a galera. A câmera ora personagem, ora testemunha. Movimentando-se de acordo com o preparo da ação, sempre abrindo espaço para a bruma se espalhar, enquanto acua os demais. O que é este isolamento? A perversidade vingativa perante uma correção histórica. Os piratas querem o que lhes foi conseguido por direito. Montagem, fotografia e trucagens da fumaça para manter o todo funcionando. Imaginem aí a mão de obra do cacete para filmar esta bagaça. Se tem algo complicado a se captar, e focar, é fumaça. Sei por trabalhar na área. Mas o Carpenter e seu fotógrafo Dean Cundey – aqui na segunda parceria deles – foram monstros aqui. Usaram lentes com uma abordagem maior na profundidade de campo, assim, aumentando o espectro focal, algo que permitiu o perambular da neblina viçando pela tela. Não esqueçamos das imagens invertidas de trás para frente e vice-versa como algo a dar vida à nebulosidade; além de bem captadas, são montadas  o de modo a dar total significado dum ser vivo àquela massa disforme e etérea.

Não mostra os rostos dos vilões. Esquema monstruosidade do desconhecido. O diretor conserva esta sua cartilha própria, algo usual em outros filmes seus, que é manter tanto os personagens quanto o espectador sem descobrirem a face dos assassinos. Neste, apenas o padre Malone conhece a origem dos mesmos, mas não os rostos. O medo mantém-se com força. Tudo isto acaba por corroborar muito bem pela escolha dum esquema mais soturno de luz, narrativa e terror. Por isso o Carpenter é um monstro. Escolhe e usa dos atributos visuais como prioritários levando o material adiante. Obviamente, quando não com tom sacana e cínico, vem num trágico de escrotidão histórica.

Texto integrante do Especial John Carpenter

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