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Black Mirror: Bandersnatch

(Black Mirror: Bandersnatch, 2018)
6,4
Média
82 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Ousado, pero no mucho.

4,0

Charlie Brooker já havia abordado horror sobre tecnologia em formato serial na minissérie Dead Set, minissérie sobre um surto zumbi irrompendo em meio a uma gravação do reality show Big Brother, onde os participantes se viam isolados, porém salvos dos horrores lá de fora. O drama acabou indicado ao BAFTA de 2009. Em 2011, Brooker surgiu com Black Mirror, série antológica aos moldes de Além da Imaginação e A Quinta Dimensão que aborda principalmente a relação tóxica do ser humano com a tecnologia.

Em 2018, Black Mirror é agora uma série produzida pela Netflix e ruma para a sua 5ª temporada tendo vencido seis Emmys pelos episódios San Junipero e USS Callister, incluindo de Melhor Prêmio para Televisão. Brooker resolveu então dar um próximo passo e nos últimos dias do ano de 2018 lançou o filme interativo Black Mirror: Bandersnatch.

Relativamente novo no cinema mas nem tanto na cultura pop, as histórias interativas são bem difundidas dentro do gênero de videogames conhecidos como adventure. De jogos clássicos até títulos mais recentes como Full ThrottleGrim FandangoHeavy RainThe Walking Dead e Detroit: Become Human, esse gênero de jogo virtual interativo elevou a outro patamar as aventuras de texto (ou livros-jogo) de publicações como Aventuras Fantásticas, de Steve Jackson. Os brasileiros também tiveram a sua cota de escolher o desenrolar de histórias com o programa Você Decide, veiculado pelo canal Globo entre 1992 e 2000.

Brooker faz também um metafilme narrativo, pois Black Mirror: Bandersnatch é uma história ambientada em 1984 sobre Stefan Butler (Fionn Whitehead, de Dunkirk), um jovem programador que aceita emprego em uma desenvolvedora de videogames para transpor para o videogame a história de Bandersnatch, considerado uma obra-prima dos livros-jogos mas que levou o seu criador Jerome F. Davies à loucura, decapitando a própria esposa. Logo ele vê que a transposição do jogo que envolve perambular por um labirinto mágico e através das escolhas fugir de uma criatura conhecida como “O Pax” fará com que ele espelhe a vida do autor original, pois logo realidade e ficção terão suas barreiras suspensas. 

Brooker tem um ponto: em uma história interativa, você só tem tantas escolhas quanto aquelas fornecidas pelo autor. Ou seja, em parte Bandersnatch seria uma obra sobre ilusão de controle e o fator de poder escolher não nos torna mestres de nada. Até aí um conceito interessante, com algumas referências a Lewis Caroll (Alice no País das Maravilhas), Philip K. Dick (Blade Runner - O Caçador de Andróides) e os próprios episódios anteriores de Black Mirror acabam criando uma atmosfera característica e fazer sentido dentro da “nova ficção científica” da série, que envolve contos de preocupação sobre o nosso cotidiano desequilibrado pela intervenção da tecnologia.

Por outro lado, isso não justifica também o quanto o roteiro de Bandersnatch é só um “passeio no trem-fantasma” genérico. Tudo é tão calculado - talvez por insegurança - que as escolhas feitas que determinam conclusões antecipadas da história voltam imediatamente para você escolher o outro caminho. Por um lado, isso é fiel a um conceito: nós não somos donos da história, no máximo exploradores da mesma. Por outro lado, os absurdos se empilham um sobre outro - as conclusões vão de assassinatos a experimentos científicos a lutas de Kung Fu e referências à própria Netflix, em momentos mais bem-humorados - que no final qualquer potencial reflexivo se esvazia sobre o que é proposto.

São tantos falsos caminhos, todos eles genéricos e desacreditados tão repetidamente que a execução falha nesse ponto: se a intenção era mostrar alguém que julgava ter o controle perder o mesmo, a narrativa é tímida demais, convencional demais. Brooker demonstra mais segurança explorando conceitos de maneira lienar, como em “The Entire Story of You”, “Fifteen Million Merits”, “San Junipero” e “Nosedive”, entre outros. Todos mostram histórias tecnológicas de maior potencial reflexivo para fruir. Enquanto isso, Bandersnatch é só a superfície da experiência. 

Por um lado, claro que surpreendeu a Netflix e seus criadores assumirem riscos em matéria de forma e narrativa. Por outro, acaba que essa “inovação” pareça um pouco rasteira demais, velha demais. Nesse sentido, o recente jogo de videogame Detroit: Became Human utiliza de maneira muito mais proveitosa o fator de escolhas, sejam certos destinos incontornáveis ou não, pois também aposta em uma maior riqueza de narrativa, explorando dilemas morais e não apenas brincando com o espectador para basicamente mostrar “que pode”, como Black Mirror já tinha feito em “White Bear” e “Shut Up and Dance”. 

No final das contas, Black Mirror: Bandersnatch não é totalmente desprovido de valor, mas ao mesmo tempo é confortável demais. Parece que quer expandir o que se tornou uma “marca” mas já não dando passos tão ousados quanto lá no início.

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