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Críticas

Cineplayers

O estilo de vida do americano de classe média é totalmente exposto na obra-primad e Sam Mendes.

9,5

“Meu nome é Lester Burnham. Essa é minha vizinhança. Essa é minha rua. Essa é minha vida. Eu tenho 42 anos e, em menos de um ano, estarei morto. É claro, eu ainda não sei disso. E, de certa forma, eu estou já morto.”

Qualquer outra detalhada sinopse não conseguiria sumarizar melhor a trama principal de Beleza Americana, uma vez que o pequeno trecho inicial do filme, aqui citado, revela o mote do mesmo e cria uma aura de mistério em torno de seu roteiro. Assim como no magistral Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, primeiro filme a utilizar o recurso da narração post mortem, Beleza Americana se inicia contrapondo-se à grande maioria de outros filmes, que deixariam a informação da morte do protagonista bem guardada para um derradeiro e surpreendente final. Essa é a primeira de várias escolhas geniais que Alan Ball aplica em seu roteiro, quando se desvencilha de uma possível conclusão convencional para se ater a outras diversas indagações e análises, que são os reais objetivos de seu texto. 

Debute cinematográfico de Sam Mendes, Beleza Americana possui segmentos que deixariam, e provavelmente deixaram, diversos outros realizadores veteranos com certa parcela de inveja. Mendes não se acomodou com o brilhante roteiro de Ball e construiu momentos extremamente simbólicos, que exprimem de forma visual os conceitos inseridos na trama do filme, captados habilmente pelo diretor de fotografia Conrad L. Hall. O primeiro e mais importante desses elementos, que deve ser visível para qualquer espectador, são os enquadramentos de Mendes que insistentemente evidenciam a presença de rosas no ambiente em que se passam algumas cenas. Rosas não, american beauties. Presente no nome original do filme e em sua literal tradução nacional, a american beauty é uma variação de rosa muito comum nos Estados Unidos, que é visualmente perfeita, porém não possui cheiro nem espinhos. A sutileza com que Mendes as apresenta no decorrer de seu filme faz um paralelo com as famílias suburbanas americanas que, aparentemente perfeitas com suas belas casas, carros e sorrisos, são emocionalmente vazias. Alguns dos momentos em que as american beauties aparecem e expressam esse conceito em demasia são nas mãos de Carolyn (Annette Bening), enquanto ela mostra sua hospitalidade para com seus vizinhos, em um arranjo, na mesa de jantar da família aparentemente perfeita, e sempre em abundância, quando a mais superficial personagem entra em cena: a jovem Angela Hayes (Mena Suvary).

Ao criar personagens estruturalmente perfeitos e bastante complexos, Alan Ball fez do Oscar que ganhou por esse trabalho uma honraria muito merecida. O casal principal, por exemplo, composto por Carolyn e Lester, possui tantas facetas que a cada nova visita ao filme seus personagens, somados às interpretações ricas de Annette Bening e Kevin Spacey, podem ser analisados através de óticas diferentes. A relação aparentemente não-marital que os dois mantêm, mas sim matriarcal é a que mais salta aos olhos. Basta que se repare na imposição corporal de Carol sobre Lester, que constantemente fica curvado perante sua presença, ou no tratamento infantil que o mesmo recebe de sua esposa. A relação matriarcal é evidente ao ponto de que, próximo ao final do filme, uma cena sensual entre os dois chegue a parecer incestuosa.

Os outros personagens, por menores participações que alguns possam ter, de forma alguma podem ser considerados descartáveis. Jane Burnham, interpretada fantasticamente por Thora Birch, possui os habituais problemas da adolescência que se somam às desestabilidades que sua família sofre, e ela não sabe bem como se portar perante isso. Ao conhecer Ricky, seu novo vizinho, vê nele uma possibilidade de deixar de lado sua fragilidade. Em contraposto à passividade do pai de Jane, o coronel Frank Fitts (Chris Cooper), pai de Ricky, é extremamente disciplinador e castrador, e ao longo do filme se entende os motivos que o tornaram assim. Provavelmente tendo danificado a sanidade mental de sua esposa, torna também a vida de seu filho insustentável.

Em sua seqüência final, pouco antes do grande clímax, uma cena possui uma simbologia fantástica, de uma simplicidade extasiante. Lester segura uma foto antiga de família e um enquadramento é feito em seu rosto, mostrando sua felicidade, evidentemente genuína, perante a imagem de si mesmo com sua esposa e filha, em um momento de descontração e alegria. O plano seguinte mostra as mãos de Lester segurando o porta-retrato, a frente de um vaso cheio de american beauties, representando a desconstrução e desestabilização que atingiu a família ao longo do tempo.

O filme esmiúça o estilo de vida suburbano na América do Norte, sem deixá-lo restrito à parcela de público que habita o local. Assim como o perito no assunto Todd Solondz fez nos memoráveis “Bem-vindo à Casa de Bonecas” e ainda mais em “Felicidade”, Beleza Americana analisa os problemas do cotidiano dessa classe e os meios encontrados - ou não - para resolvê-los. O filme beira a perfeição, mas não a atinge por ser um pouco ofuscado se comparado à outra obra-prima lançada no mesmo ano, de temática semelhante. O filme é Magnólia, de Paul Thomas Anderson.

Look closer. Em tradução direta: "olhe mais perto". Essa frase, que serve como dica, foi utilizada massivamente na campanha de marketing do filme e é fundamental para o espectador. Presente também como uma segunda notificação em um pôster na estação de trabalho de Lester, a frase atenta que um primeiro olhar superficial nunca é suficiente, assim como um primeiro julgamento quase sempre é equivocado. Em cada revisita, Beleza Americana mostra diversos novos aspectos passíveis de outras análises, o que evidencia, mesmo com o passar do tempo e com o surgimento de outros grandes filmes sobre o tema (como Pecados Íntimos, de Todd Field), a eminente supremacia desse trabalho quando inserido no cinema contemporâneo.

Comentários (2)

Cristian Oliveira Bruno | sábado, 23 de Novembro de 2013 - 14:04

Filmaço!! Spacey e Cooper protagonizam uma das cenas mais emblemáticas dos últimos tempos!!

Renata Correia Nunes | terça-feira, 08 de Julho de 2014 - 13:11

O filme é muito bom mesmo, mas a narração em off, um recurso delicado (que é sempre bom evitar), mais uma vez aqui é mal usado. Filme caricato, mas do modo positivo da caricatura.

Pra mim é nota 8,0.

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