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Críticas

Cineplayers

A magia em live action.

7,0
A empreitada é ousada: refilmar em live action aquela animação responsável por inaugurar a segunda fase de ouro da Disney, primeira do gênero indicada ao Oscar de melhor filme (e que acabou levando os prêmios por melhor canção e trilha sonora), uma das maiores bilheterias dos anos 1990, que de tão prestigiada acabou sendo adaptada como musical de grande sucesso da Broadway, e que ainda apresentou uma narrativa e história bastante revolucionárias para os padrões de contos de princesas do estúdio. A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 1991) é um desses novos clássicos instantâneos que já entraram de imediato para o imaginário coletivo do público – posição delicada, mas pelo visto não intocável. Se a Disney, após mais de vinte anos, novamente se encontra numa situação de instabilidade, e a moda é refilmar animações em live action, nenhum título parecia mais indicado, depois que os sucessos recentes Cinderela (Cinderella, 2015) e Mogli - O Menino Lobo (The Jungle Book, 2016) garantiram ao menos uma boa expectativa de retorno do público. 

Obviamente, o desafio em cima de recriar o universo mágico de A Bela e a Fera é ainda maior, pois se trata de um musical com números muito mais complicados (alguns céticos julgaram até mesmo impossíveis) de serem adaptados e também pelo perigo de passar vergonha ao colocar uma Bela de carne e osso contracenando com uma Fera digital. Mais perigoso ainda, o filme corria o risco de perder durante a transposição sua mágica e sua alma, como muitas vezes acontece em produções de grande orçamento nas mãos de cineastas mais preocupados com a direção de arte do que com qualquer outra coisa (leia-se aqui Alice nos País das Maravilhas [Alice in Wonderland, 2010], de Tim Burton). Mas eis que a surpresa foi bastante positiva diante de tantas expectativas e incertas e, quem diria, o diretor Bill Condon deu conta do recado. 

O novo A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 2017) tem tudo o que um bom remake pode oferecer: manter o melhor do filme original e saber acrescentar algumas novidades que não descaracterizem a história ou desrespeitem o carinho do público. Tanto na versão dublada como na legendada é possível conferir o cuidado da produção em ser fiel aos principais aspectos da animação, como os números musicais, o romance entre Bela e Fera, o carisma dos personagens coadjuvantes e uma storyline sem mudanças muito drásticas. Os acréscimos em cima disso são quase sempre bem vindos, como a inclusão de alguns personagens e músicas novas e a brincadeira sobre a sexualidade de LeFou, fiel ajudante do vilão Gaston, o que gerou certa comoção com a ala mais conservadora, mas que na prática não muda em nada o resultado final. 

Acima de tudo, tem uma noção espacial muito bem explorada pelo diretor e que é mais do que necessária em um musical. É surpreendente ver que na fabulosa cena do jantar, por exemplo, Condon tenha recorrido a lições de filmes tão estimados e seminais como Rua 42 (42nd Street, 1933), em lindos planos com a câmera em “olho de pássaro” captando toda a coreografia de cima. A exploração dos ambientes do castelo e todo o cuidado com os detalhes cenográficos e figurinos, também contribuem para uma literal imersão naquele universo tão familiar para nós, mas que quando materializado fora de uma animação parece ainda mais envolvente. A câmera de Condon, nesse meio todo, é muito dançante e barroca, e nisso o todo acaba bastante lúdico e infantil, apesar do realismo embasbacante. O elenco, por sua vez, também contribui para um resultado positivo, desde a carismática Emma Watson e sua precisão em equilibrar a doçura e a determinação de Bela, passando por todos os coadjuvantes adoráveis e o divertido vilão Gaston, até uma convincente Fera – trabalho bem preciso do ator Dan Stevens através da captação digital de suas expressões faciais. No fim, é a Disney fazendo o que sempre fez de melhor: valendo-se de novas tecnologias para maquiar os mais antigos clichês e vendê-los como novidade. 

É uma pena que todo esse apuro visual e virtuose percam o fôlego justamente na cena mais importante da história toda, a clássica dança entre a Bela e a Fera ao som da música-tema que eternizou a animação no rol das maiores de todos os tempos. O crescente até esse clímax prometia uma grande explosão de romance e música, mas entrega apenas um momento correto, bonito, porém bem aquém da exuberância de números como Belle, Be Our Guest e Gaston, carente de planos mais abertos, de uma câmera mais rodopiante e mesmo de uma coreografia mais inspirada. Verdade que depois o filme se recupera para o gran finale, mas fica a sensação de que o melhor acabou engolido pelo resto. 

A Bela e a Fera traz ainda algumas surpresas em seu enredo que garantem sempre a atenção mesmo de quem já tem a animação original decorada de cor e salteado na memória. Pode não ser um filme muito corajoso ou radical, e foi muito cobrado por parte da crítica por isso, mas tem o mérito de manter mágica ainda muito viva, as cores muito pulsantes, as músicas muito envolventes, e reforçar os pontos de destaque que fizeram do filme de 1991 um trabalho tão diferente – como o fato de Bela ser a verdadeira heroína da história, não apenas uma donzela em perigo como geralmente ocorre nos contos de fadas, enquanto Fera se mostra um príncipe em busca de uma princesa que o liberte. Como diz a canção-tema dessa inesquecível história sobre o valor da beleza interior, um conto tão antigo quanto o tempo tem esse poder de encantar mesmo após muitos anos e muitas releituras. 

Comentários (3)

Matheus Gomes | quarta-feira, 16 de Agosto de 2017 - 22:24

As canções poderiam ser mais marcantes. Mas toda a parte estética do filme é absolutamente belo.

Luiz Fernando de Freitas | quinta-feira, 17 de Agosto de 2017 - 16:03

Gostei bastante, mas concordo que as canções não ficaram tão marcantes quanto na animação original. O visual é espetacular (direção de arte, fotografia e figurinos), as atuações eficientes e a narrativa agradável. Nota: 7,5.

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