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Bandidos na TV

(Killer Ratings, 2019)
7,9
Média
7 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Recorte de Brasil

8,0

Há algumas semanas, divulguei nas redes sociais que o novo lançamento da Netflix pelo qual nutria expectativa não era a quinta temporada de Black Mirror, mas uma minissérie genuinamente brasileira: Bandidos na TV. Fiquei encantado com a premissa: a história de um apresentador de Cidade Alerta sediado em Manaus que começou a matar para manter os números de audiência em alta. E o melhor de tudo: baseado em fatos reais! Visto o documentário, mantenho a recomendação e digo, satisfeito, que o diretor Daniel Bogato e os produtores-executivos Dinah Lord e Eamonn Matthews foram inteligentes em vender o produto com esse fantástico high-concept, e mais ainda porque eles não estavam aumentando: o caso e a obra são isso e mais, muito mais. Bandidos na TV vai além sendo em si um recorte do Brasil de hoje e de sempre.

Wallace Souza é o nome do apresentador do Programa Canal Livre. Assim como Wagner Montes no Rio de Janeiro, o ex-policial usou sua popularidade na TV para conquistar um cargo público, em 1998, tornando-se o político mais popular em proporção não só no Amazonas, como em todo o Brasil. Como âncora, Wallace se envolvia diretamente nos casos de sequestro, assassinato e tráfico de drogas, seja acompanhando as diligências, seja conduzindo a força policial nessas ações. Sempre com uma câmera ligada, claro. A versão (em tempo) real de O Abutre (Nightcrawler, 2014), ótimo filme estrelado por Jake Gylenhaal que ataca esse tipo extremo de jornalismo sensacionalista.

Curiosamente, aliás, o thriller de Dan Gilroy sofreu críticas de um mesmo tipo de espectador: o purista de verossimilhança, insatisfeito com a caracterização do protagonista como um psicopata. Uma suposta radicalização supostamente inadequada por criticar algo real (análise que abusa da superficialidade, pra onde se vê). Pois a realidade do Canal Livre mostraria que o absurdo é possível. Em 2008, o ex-policial militar Moacir Jorge Pereira da Costa, o “Moa”, denuncia Wallace Souza e seu filho, Raphael, como líderes de uma milícia envolvida em assassinatos, tráfico de drogas, tortura e confissões falsas — tudo transformado em pauta do programa. Bizarro!

A construção dessa história é minuciosa. Com o detalhamento necessário para antes contextualizar o Canal Livre como “O Show da Vida do Amazonas”. Um programa feito pela periferia e para a periferia. A luta do século entre Galerito e Gil da Esfirra — enquanto o “Príncipe do Brega” Nunes Filho apresenta sua arte musical romântica — sintetiza seu teor humorístico particular, popular, pitoresco. Logo o programa passaria a atender a população e a realizar ações sociais ao vivo. Wallace Souza era o verdadeiro Big Brother populista. Sobre seu ódio por criminosos e, principalmente, por traficantes, uma tragédia pessoal: seu irmão, Ulisses, morrera por causa do vício em drogas. Questão de ponto de vista: um grande irmão ou um justiceiro? A postura de Wallace na frente das câmeras dá indícios da resposta. E configura uma personalidade afeita a transgressões de cunho humanitário e ético.

A narrativa de que Wallace Souza usaria seu poder e influência para, após combater, tomar o lugar do crime organizado de Manaus é bem coerente. Fotos de arquivo ao lado de assassinos e traficantes mostram que o personagem era, no mínimo, uma figura contraditória, hipócrita. E mentirosa, haja vista que ele antes negara a existência desse material. A acusação, narrada pelos investigadores responsáveis e vastamente documentada em vídeo, apresenta os fortes indícios, testemunhas oculares e algumas provas de que fundamentam o envolvimento do protagonista nos crimes de que era acusado. Algo inflado por suas declarações de ódio e flagrante falta de bom senso na condução do programa. Porém, há sempre a contraparte. Apesar de todo documentário ser dotado de parcialidade no registro, no recorte, na montagem e no simples estabelecimento de seu argumento, esse aqui faz o que pode para também apresentar a opinião de quem defende o protagonista e ser o mais justo possível. Mais equidistante que muito juiz federal…

Grande parte da projeção traz até Wallace Souza advogando em causa própria, atribuindo as acusações a uma perseguição política derivada de sua “luta contra os poderosos”. Nesse cenário, sua figura populista e controversa se confunde, assustadoramente, com a dos maiores líderes políticos do Brasil na atualidade: Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Dois extremos, o que não poderia dizer mais sobre esse Brasil polarizado de 2019.

Lula foi o maior presidente da história do país segundo todos os indicadores socioeconômicos, e também ícone do maior escândalo de corrupção da República. Se culpado, não se sabe. Nesse momento, o site The Intercept Brasil, do consagrado jornalista Glenn Greenwald, divulga detalhes da trama entre o juiz Sérgio Moro e o Ministério Público Federal para condenar Lula por meios ilegais, sem conceder-lhe um julgamento isento e justo. A intenção e a consequência disso, expressos: tirar Lula e o PT da presidência do Brasil. Coincidentemente, Wallace se diz vítima dessa mesma perseguição judicial com fins políticos — porém sem provas.

Bolsonaro foi eleito em seu lugar, recompensando esse mesmo juiz Sérgio Moro (que já dava mostras de contraposição ideológica ao PT e a Lula) com o chefia do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Bolsonaro também se diz vítima de perseguição, tendo por oponente a imprensa, que o repreende pelos horrores que profere orgulhosamente em público. É esse o frágil argumento do atual presidente para defender sua família de tantas ligações escusas com as milícias do Rio de Janeiro (responsáveis, dentre outros crimes, pela execução da vereadora Marielle Franco). Uma trama que envolve corrupção, controle de território, assassinato e o Estado. Assim como a de Wallace.

Bandidos na TV porta essa fascinante correlação com a política atual e suas ambiguidades. A todo momento, o espectador é confrontado com a defesa dos acusados. As denúncias de conduta indevida da parte acusatória se sucedem gradativamente. Em dado momento, uma dessas alegações é ilustrada pelo vídeo tocante de um policial coagindo uma detida até o choro. Em evitar tomar lado, em conceder o benefício da dúvida, a minissérie se enche de humanidade e complexidade. E torna a experiência mais envolvente para o público.

Por outro lado, a força desse enredo se esvai um tanto ao longo dos episódios. Há um excesso de idas e vindas que em vez de acentuar, banaliza e esgota a aura de conspiração da minissérie. O sexto capítulo em específico é sintomático: uma coadjuvante é transformada em protagonista com arco de início, meio e fim de um episódio que termina e não faz diferença no todo. (A prova real de assistir à série pulando esse capítulo é infalível.) Diluir essa subtrama nos episódios anteriores faria bem ao fluxo narrativo sem comprometer a história e sua eletricidade.

O final de Bandidos na TV compensa essa “barriga” com um desfecho digno, que resgata o ímpeto do início. A tensão do julgamento. Wallace todo trajado de branco. O envolvimento passional do filho caçula, Willace. A negação dos fatos pelo jovem. “Se não tem prova, é mentira” e a autoverdade. Todos temas próprios que rendem, cada um, grandes reflexões com diferentes abordagens: de ordem jurídica, filosófica, psicológica, semiótica. E dizendo muito sobre nossa sociedade, sobre o Brasil como um todo e até sobre o mundo atual.

A conclusão é de que tudo está relacionado: a substituição da (suposta) quadrilha de Wallace Souza por outra representa o círculo vicioso do crime, que resulta numa escalada de violência nas ruas, que tem relação com a bárbara rebelião do Compaj de 2017, que reflete a crise prisional e social do país. O problema não é Wallace, não são os meliantes perseguidos no Canal Livre, não são os absurdos isolados que vemos em Bandidos na TV. Tudo isso é consequência. O problema, o grande problema, é o caos em que se encontra o Brasil. “O sistema é foda.”

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