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Críticas

Cineplayers

A volta do que não foi.

6,0
Há mais de uma década “esquecido” pela indústria do cinema americano, relegado a papéis sem nenhum peso em filmes irrelevantes, Mel Gibson parecia uma carta fora do baralho em Hollywood, após ter sua reputação arranhada por incontáveis escândalos de violência doméstica, bebedeiras e preconceito. Como diretor, não produzia nada desde Apocalypto (idem, 2006) e agora, às vésperas da nova edição do Oscar, eis que ele surge com Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016), um drama de guerra que chegou de mansinho e acabou abocanhando seis indicações da Academia, entre elas as de melhor filme, diretor e ator (para Andrew Garfield). 

Temos aqui a mesma mistura de patriotismo, fé religiosa e violência exacerbada que lhe rendeu os Oscar de filme e direção por Coração Valente (Braveheart, 1995) e fez sua adaptação da via-crúcis de Jesus Cristo virar um fenômeno de bilheteria. Esses temas são caros a Gibson, segundo o que podemos deduzir de sua enxuta filmografia como diretor e, vá lá, autor. Por isso não surpreende que em sua nova empreitada ele tenha decidido contar a história real de Desmond T. Doss, um médico do exército americano que, durante a Segunda Guerra, se recusou a matar quem quer que fosse por suas convicções religiosas. Hoje aclamado como herói pacifista pelo povo americano, Doss serviu na Batalha de Okinawa, em maio de 1945, sem sequer encostar num rifle e, ainda assim, salvou a vida de 75 soldados, recebendo mais tarde a honraria máxima do Exército por seu desempenho em campo de batalha. 

A história possui um apelo natural muito bem explorado por Gibson em seu claro propósito de realizar um retorno em grande estilo, enaltecendo sentimentos como culpa, arrependimento, redenção e renascimento – na certa um mea culpa refletido ali no meio daquela análise sobre o isolamento pessoal que a educação cristã pode infligir a um homem comum e atormentado pelos seus pecados. Talvez não justificando a violência empregada numa guerra, mas sim expondo as marcas que ela deixa em pessoas que, em maioria, foram ensinadas desde pequenas a amar o próximo. A inflexibilidade de Doss em defesa de suas convicções é inabalável, mas ainda assim Gibson se interessa em analisar os cacos que ele procurava recolher por trás dessa fachada, dos dilemas internos no coração de um homem dividido entre o dever como cidadão e o dever perante Deus. 

Gibson tem uma atração mórbida pela violência em seu estado mais chocante e aterrorizador, recorrendo a muito CGI para impressionar nas sequências de guerra, de forma a reforçar a racionalidade da postura de Doss diante de tamanha barbárie, independente de qualquer convicção religiosa. Para gerar esse contraste, ele não tem pressa em gastar toda a primeira metade em um estudo de personagem de Doss, analisando de todos os lados e ângulos o conjunto de fatores que o levam a agir como age. 

Quando enfim o filme parte para o período da batalha contra os japoneses, toda a crueldade e desumanidade próprias de uma guerra parecem ainda mais chocantes. Nas mãos de um diretor mais experiente, talvez um Clint Eastwood, todas essas ideias pudessem fluir melhor, mas Gibson esmorece em soluções muito emocionais e tendenciosas e aos poucos adéqua seu filme a um formato mais redondinho, de forma a conquistar o coração da crítica americana, que tanto adora uma conclusão edificante na hora de eleger o inevitável filme sobre a Segunda Guerra presente em quase todas as edições do Oscar. A tarefa foi cumprida e seu nome está de volta ao topo, talvez não com um filme tão vigoroso como poderia, mas suficientemente convincente em sua tentativa de retomar a imagem de bom moço. 

Comentários (2)

Rodrigo Pereira da Silva | sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017 - 00:18

CGI? Vi até uma entrevista do Gibson falando que ele optou por usar uma maneira mais clássica de filmar as cenas de guerra, mas sei lá, não sei identificar.

O lado dramático do filme me incomodou muito, as cenas de guerra são muuuito bem dirigidas, mas o roteiro peca em diversas partes que forçam a barra para edificar o personagem e para fazer o expectador se emocionar, ainda mais com aquela trilha que fica martelando constantemente, sem inspiração.

É um filme "ok", mas como você mesmo disse, na mão de um Clint poderia ir muito além...

Felipe Nicéas Carneiro Leão | sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017 - 09:28

Conferi ontem no Cinema e adorei, apesar de derrapar um pouco no final forçando até a barra em uma determinada cena, o resultado pra mim foi bastante satisfatório, impressionante a coragem do soldado Desmond e sua luta para servir seu país sem uma única arma nas mãos.

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